Para se pensar...
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
domingo, 30 de dezembro de 2007
Segunda Encíclica do Papa Bento XVI (com comentários em vermelho)
O papa Bento 16 publicou nesta sexta-feira uma segunda encíclica na qual critica os ateus.
Leia abaixo um trecho do documento.
Para ler a íntegra do texto, clique aqui.
"CARTA ENCÍCLICA SPE SALVI DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS SOBRE A ESPERANÇA CRISTÃ
Introdução
1. "SPE SALVI facti sumus" é na esperança que fomos salvos: diz São Paulo aos Romanos e a nós também (Rm 8,24). A "redenção", a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho. E imediatamente se levanta a questão: mas de que gênero é uma tal esperança para poder justificar a afirmação segundo a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe, nós fomos redimidos? E de que tipo de certeza se trata?
A fé é esperança
Comentário: Em primeiro lugar, o Papa se baseia, como tudo em teologia, na fé. Ou seja, se você não acredita, nada feito. Você não pode querer provar nada. Acredite e fique quieto. Teste a Deus, duvide por um segundo sequer e pronto, sua redenção está comprometida. No final desse parágrafo, não sei se a tradução foi mal feita ou se o texto foi mal escrito ou mesmo se minha capacidade de interpretação de textos está ruim devido a eu ter acabado de chegar de um plantão de 24 horas, mas eu não vi sentido algum. Reparem na pergunta: E de que tipo de certeza se trata? Resposta: A fé e esperança. Ora, mas a fé não é justamente acreditar sem ter certeza alguma. Então, meus caros, ou a tradução foi mal feita ou o Papa se expressou mal. Preciso ver o original em alemão ou em alguma outra língua que o Papa fale melhor.
2. Antes de nos debruçarmos sobre estas questões, hoje particularmente sentidas, devemos escutar com um pouco mais de atenção o testemunho da Bíblia sobre a esperança. Esta é, de facto, uma palavra central da fé bíblica, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos "fé" e "esperança ". Assim, a Carta aos Hebreus liga estreitamente a "plenitude da fé " (10,22) com a "imutável profissão da esperança" (10,23). De igual modo, quando a Primeira Carta de Pedro exorta os cristãos a estarem sempre prontos a responder a propósito do logos o sentido e a razão da sua esperança (3,15), "esperança" equivale a "fé". Quão determinante se revelasse para a consciência dos primeiros cristãos o facto de terem recebido o dom de uma esperança fidedigna, manifesta-se também nos textos onde se compara a existência cristã com a vida anterior à fé ou com a situação dos adeptos de outras religiões. Paulo lembra aos Efésios que, antes do seu encontro com Cristo, estavam "sem esperança e sem Deus no mundo" (Ef 2,12). Naturalmente, ele sabe que eles tinham seguido deuses, que tiveram uma religião, mas os seus deuses revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios, não emanava qualquer esperança. Apesar de terem deuses, estavam "sem Deus" e, consequentemente, achavam-se num mundo tenebroso, perante um futuro obscuro. "In nihil ab nihilo quam cito recidimus" (No nada, do nada, quão cedo recaímos) [1] diz um epitáfio daquela época; palavras nas quais aparece, sem rodeios, aquilo a que Paulo alude. Ao mesmo tempo, diz aos Tessalonicenses: não deveis "entristecer-vos como os outros que não têm esperança" (1 Ts 4,13). Aparece aqui também como elemento distintivo dos cristãos o facto de estes terem um futuro: não é que conheçam em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo não era apenas uma "boa nova", ou seja, uma comunicação de conteúdos até então ignorados. Em linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa". Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.
Comentário: Mais uma vez, tudo se baseia na fé. Não se pode nem ter esperança sem ter fé. Ora, são conceitos parecidos, mas de forma alguma são sinônimos. Quando jogo na megasena, tenho esperança de ganhar, mas sei das minhas chances, porque elas existem. Acredito que possa ganhar, por isso tenho fé, mas minha fé não é uma certeza. É mais um desejo do que uma certeza. Nesse ponto, em que fé se parece mais com desejo do que com certeza, fé e esperança se parecem muito. Será que é isso que Bento XVI quis dizer? As pessoas gostariam muito que Deus existisse, mas no fundo sabem que as chances são mínimas. Viver só essa vida não tem nada demais. Nós nem sabíamos que existíamos até que viemos para cá. Então, como mágica, a partir do momento em que colocamos o pé neste planeta, não podemos mais sair de circulação? Por que não? Para alimentar a sede egoísta de existência eterna dos 'bons demais para simplesmente sumir'? Não. Quando morremos, acaba. Assim como já tinha acabado antes de nascermos. Nascermos foi um acidente que pode durar horas, semanas, dias, meses, ou, no máximo, pouco mais de uma centena de anos. É o período que temos aqui para vivermos. Não é preciso ver algum sentido nisso. Basta ver que isso é melhor do que fazer parte do conjunto de DNA que jamais chegou a nascer por não ter conseguido se combinar da maneira correta. Agora o mais interessante disso tudo é a parte do texto acima que eu fiz questão de sublinhar: os seus deuses revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios, não emanava qualquer esperança. Ah, claro. Então ressuscitar mortos, ascender aos céus, nascer de mulheres virgens, ser três pessoas em uma só, ouvir milhões de preces simultaneamente, curar leprosos e doentes graves, ressuscitar mesmo depois de mortopor 3 dias, julgar vivos e mortos, ser concebido pelo poder de um espírito, criar o universo inteiro em 7 dias, tomando o cuidado de criar o livre arbítrio para que nada pudesse ser tido como sua culpa naquilo que viesse a dar errado, transformar pão em corpo e vinho em sangue, ou ainda multiplicar pães, tudo isso não dá margem a dúvidas e discussões e não são mitos contraditórios. Ah, Bento XVI, esperava mais de você.
3. Porém, agora coloca-se a questão: em que consiste esta esperança que, enquanto esperança, é "redenção"? Pois bem, o núcleo da resposta encontra-se no trecho da Carta aos Efésios já citado: os Efésios, antes do encontro com Cristo, estavam sem esperança, porque estavam "sem Deus no mundo". Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança. A nós, que desde sempre convivemos com o conceito cristão de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperança que provém do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida. O exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II. Nascera por volta de 1869 ela mesma não sabia a data precisa no Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani que, ante a avançada dos mahdistas, voltou para a Itália. Aqui, depois de "patrões" tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um "patrão" totalmente diferente no dialecto veneziano que agora tinha aprendido, chamava "paron" ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um "paron" acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo "Paron" supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada.
Mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela "à direita de Deus Pai". Agora ela tinha "esperança"; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava "redimida", já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque sem Deus. Por isso, quando quiseram levá-la de novo para o Sudão, Bakhita negou-se; não estava disposta a deixar-se separar novamente do seu "Paron". A 9 de Janeiro de 1890, foi baptizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congregação das Irmãs Canossianas e desde então, a par dos serviços na sacristia e na portaria do convento, em várias viagens pela Itália procurou sobretudo incitar à missão: a libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a "redimira", não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos.
O conceito de esperança baseada sobre a fé no Novo Testamento e na Igreja primitiva.
Comentário: Dessa vez, vou ser breve. Onde estava o Paron que deixou que Bakhita fosse seviciada, espancada, vendida, escravizada, torturada, etc? Só porque ela nem sabia de sua "existência" seria ela merecedora desse castigo? Afinal, assim que soube, Bakhita se devotou a ele. Porém, já tinha sofrido tudo que alguém poderia sofrer. Leiam meu post sobre "A Psicologia por trás dos cultos/religiões" e verão que Bakhita preenchia os critérios necessários para ser um recruta perfeito. Sua auto-estima estava baixa, sua situação era ruim. O recrutador soube fazer o processo de lavagem cerebral adequadamente e Bakhita, como qualquer outro em sua situação teria feito, caiu.
4. Antes de enfrentar a questão de saber se também para nós o encontro com aquele Deus que, em Cristo, nos mostrou a sua Face e abriu o seu Coração poderá ser "performativo" e não somente "informativo", ou seja, se poderá transformar a nossa vida a ponto de nos fazer sentir redimidos através da esperança que o mesmo exprime, voltemos de novo à Igreja primitiva. Não é difícil notar como a experiência da humilde escrava africana Bakhita foi também a experiência de muitas pessoas maltratadas e condenadas à escravidão no tempo do cristianismo nascente. O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante à de Espártaco que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus Ele mesmo morto na cruz tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que tinha acontecido revela-se, com a máxima evidência, na Carta de São Paulo a Filémon. Trata-se de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no cárcere e entrega ao escravo fugitivo Onésimo para o seu patrão precisamente Filémon. É verdade, Paulo envia de novo o escravo para o seu patrão, de quem tinha fugido, e fá-lo não impondo, mas suplicando: "Venho pedir-te por Onésimo, meu filho, que gerei na prisão [...]. De novo to enviei e tu torna a recebê-lo, como às minhas entranhas [...]. Talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre, não já como escravo, mas, em vez de escravo, como irmão muito amado " (Flm 10-16). Os homens que, segundo o próprio estado civil, se relacionam entre si como patrões e escravos, quando se tornaram membros da única Igreja passaram a ser entre si irmãos e irmãs assim se tratavam os cristãos mutuamente. Em virtude do Baptismo, tinham sido regenerados, tinham bebido do mesmo Espírito e recebiam conjuntamente, um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus diz que os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isto não significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada".
Comentário: Bonito de ler, mas na prática isso quer dizer que...?
Leia abaixo um trecho do documento.
Para ler a íntegra do texto, clique aqui.
"CARTA ENCÍCLICA SPE SALVI DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS SOBRE A ESPERANÇA CRISTÃ
Introdução
1. "SPE SALVI facti sumus" é na esperança que fomos salvos: diz São Paulo aos Romanos e a nós também (Rm 8,24). A "redenção", a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho. E imediatamente se levanta a questão: mas de que gênero é uma tal esperança para poder justificar a afirmação segundo a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe, nós fomos redimidos? E de que tipo de certeza se trata?
A fé é esperança
Comentário: Em primeiro lugar, o Papa se baseia, como tudo em teologia, na fé. Ou seja, se você não acredita, nada feito. Você não pode querer provar nada. Acredite e fique quieto. Teste a Deus, duvide por um segundo sequer e pronto, sua redenção está comprometida. No final desse parágrafo, não sei se a tradução foi mal feita ou se o texto foi mal escrito ou mesmo se minha capacidade de interpretação de textos está ruim devido a eu ter acabado de chegar de um plantão de 24 horas, mas eu não vi sentido algum. Reparem na pergunta: E de que tipo de certeza se trata? Resposta: A fé e esperança. Ora, mas a fé não é justamente acreditar sem ter certeza alguma. Então, meus caros, ou a tradução foi mal feita ou o Papa se expressou mal. Preciso ver o original em alemão ou em alguma outra língua que o Papa fale melhor.
2. Antes de nos debruçarmos sobre estas questões, hoje particularmente sentidas, devemos escutar com um pouco mais de atenção o testemunho da Bíblia sobre a esperança. Esta é, de facto, uma palavra central da fé bíblica, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos "fé" e "esperança ". Assim, a Carta aos Hebreus liga estreitamente a "plenitude da fé " (10,22) com a "imutável profissão da esperança" (10,23). De igual modo, quando a Primeira Carta de Pedro exorta os cristãos a estarem sempre prontos a responder a propósito do logos o sentido e a razão da sua esperança (3,15), "esperança" equivale a "fé". Quão determinante se revelasse para a consciência dos primeiros cristãos o facto de terem recebido o dom de uma esperança fidedigna, manifesta-se também nos textos onde se compara a existência cristã com a vida anterior à fé ou com a situação dos adeptos de outras religiões. Paulo lembra aos Efésios que, antes do seu encontro com Cristo, estavam "sem esperança e sem Deus no mundo" (Ef 2,12). Naturalmente, ele sabe que eles tinham seguido deuses, que tiveram uma religião, mas os seus deuses revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios, não emanava qualquer esperança. Apesar de terem deuses, estavam "sem Deus" e, consequentemente, achavam-se num mundo tenebroso, perante um futuro obscuro. "In nihil ab nihilo quam cito recidimus" (No nada, do nada, quão cedo recaímos) [1] diz um epitáfio daquela época; palavras nas quais aparece, sem rodeios, aquilo a que Paulo alude. Ao mesmo tempo, diz aos Tessalonicenses: não deveis "entristecer-vos como os outros que não têm esperança" (1 Ts 4,13). Aparece aqui também como elemento distintivo dos cristãos o facto de estes terem um futuro: não é que conheçam em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo não era apenas uma "boa nova", ou seja, uma comunicação de conteúdos até então ignorados. Em linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa". Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.
Comentário: Mais uma vez, tudo se baseia na fé. Não se pode nem ter esperança sem ter fé. Ora, são conceitos parecidos, mas de forma alguma são sinônimos. Quando jogo na megasena, tenho esperança de ganhar, mas sei das minhas chances, porque elas existem. Acredito que possa ganhar, por isso tenho fé, mas minha fé não é uma certeza. É mais um desejo do que uma certeza. Nesse ponto, em que fé se parece mais com desejo do que com certeza, fé e esperança se parecem muito. Será que é isso que Bento XVI quis dizer? As pessoas gostariam muito que Deus existisse, mas no fundo sabem que as chances são mínimas. Viver só essa vida não tem nada demais. Nós nem sabíamos que existíamos até que viemos para cá. Então, como mágica, a partir do momento em que colocamos o pé neste planeta, não podemos mais sair de circulação? Por que não? Para alimentar a sede egoísta de existência eterna dos 'bons demais para simplesmente sumir'? Não. Quando morremos, acaba. Assim como já tinha acabado antes de nascermos. Nascermos foi um acidente que pode durar horas, semanas, dias, meses, ou, no máximo, pouco mais de uma centena de anos. É o período que temos aqui para vivermos. Não é preciso ver algum sentido nisso. Basta ver que isso é melhor do que fazer parte do conjunto de DNA que jamais chegou a nascer por não ter conseguido se combinar da maneira correta. Agora o mais interessante disso tudo é a parte do texto acima que eu fiz questão de sublinhar: os seus deuses revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios, não emanava qualquer esperança. Ah, claro. Então ressuscitar mortos, ascender aos céus, nascer de mulheres virgens, ser três pessoas em uma só, ouvir milhões de preces simultaneamente, curar leprosos e doentes graves, ressuscitar mesmo depois de mortopor 3 dias, julgar vivos e mortos, ser concebido pelo poder de um espírito, criar o universo inteiro em 7 dias, tomando o cuidado de criar o livre arbítrio para que nada pudesse ser tido como sua culpa naquilo que viesse a dar errado, transformar pão em corpo e vinho em sangue, ou ainda multiplicar pães, tudo isso não dá margem a dúvidas e discussões e não são mitos contraditórios. Ah, Bento XVI, esperava mais de você.
3. Porém, agora coloca-se a questão: em que consiste esta esperança que, enquanto esperança, é "redenção"? Pois bem, o núcleo da resposta encontra-se no trecho da Carta aos Efésios já citado: os Efésios, antes do encontro com Cristo, estavam sem esperança, porque estavam "sem Deus no mundo". Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança. A nós, que desde sempre convivemos com o conceito cristão de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperança que provém do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida. O exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II. Nascera por volta de 1869 ela mesma não sabia a data precisa no Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani que, ante a avançada dos mahdistas, voltou para a Itália. Aqui, depois de "patrões" tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um "patrão" totalmente diferente no dialecto veneziano que agora tinha aprendido, chamava "paron" ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um "paron" acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo "Paron" supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada.
Mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela "à direita de Deus Pai". Agora ela tinha "esperança"; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava "redimida", já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque sem Deus. Por isso, quando quiseram levá-la de novo para o Sudão, Bakhita negou-se; não estava disposta a deixar-se separar novamente do seu "Paron". A 9 de Janeiro de 1890, foi baptizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congregação das Irmãs Canossianas e desde então, a par dos serviços na sacristia e na portaria do convento, em várias viagens pela Itália procurou sobretudo incitar à missão: a libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a "redimira", não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos.
O conceito de esperança baseada sobre a fé no Novo Testamento e na Igreja primitiva.
Comentário: Dessa vez, vou ser breve. Onde estava o Paron que deixou que Bakhita fosse seviciada, espancada, vendida, escravizada, torturada, etc? Só porque ela nem sabia de sua "existência" seria ela merecedora desse castigo? Afinal, assim que soube, Bakhita se devotou a ele. Porém, já tinha sofrido tudo que alguém poderia sofrer. Leiam meu post sobre "A Psicologia por trás dos cultos/religiões" e verão que Bakhita preenchia os critérios necessários para ser um recruta perfeito. Sua auto-estima estava baixa, sua situação era ruim. O recrutador soube fazer o processo de lavagem cerebral adequadamente e Bakhita, como qualquer outro em sua situação teria feito, caiu.
4. Antes de enfrentar a questão de saber se também para nós o encontro com aquele Deus que, em Cristo, nos mostrou a sua Face e abriu o seu Coração poderá ser "performativo" e não somente "informativo", ou seja, se poderá transformar a nossa vida a ponto de nos fazer sentir redimidos através da esperança que o mesmo exprime, voltemos de novo à Igreja primitiva. Não é difícil notar como a experiência da humilde escrava africana Bakhita foi também a experiência de muitas pessoas maltratadas e condenadas à escravidão no tempo do cristianismo nascente. O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante à de Espártaco que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus Ele mesmo morto na cruz tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que tinha acontecido revela-se, com a máxima evidência, na Carta de São Paulo a Filémon. Trata-se de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no cárcere e entrega ao escravo fugitivo Onésimo para o seu patrão precisamente Filémon. É verdade, Paulo envia de novo o escravo para o seu patrão, de quem tinha fugido, e fá-lo não impondo, mas suplicando: "Venho pedir-te por Onésimo, meu filho, que gerei na prisão [...]. De novo to enviei e tu torna a recebê-lo, como às minhas entranhas [...]. Talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre, não já como escravo, mas, em vez de escravo, como irmão muito amado " (Flm 10-16). Os homens que, segundo o próprio estado civil, se relacionam entre si como patrões e escravos, quando se tornaram membros da única Igreja passaram a ser entre si irmãos e irmãs assim se tratavam os cristãos mutuamente. Em virtude do Baptismo, tinham sido regenerados, tinham bebido do mesmo Espírito e recebiam conjuntamente, um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a Carta aos Hebreus diz que os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14; Fil 3,20), isto não significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada".
Comentário: Bonito de ler, mas na prática isso quer dizer que...?
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