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domingo, 30 de novembro de 2008

Richard Dawkins Fala Sobre "Deus, um Delírio"

Entrevista com Richard Dawkins falando sobre seu best-seller.

Muito boa.

domingo, 28 de setembro de 2008

Professor de Arte Fez Estudante Rezar para Jesus por Perdão

Extraído de http://richarddawkins.net/article,3140,Art-teacher-made-student-pray-to-Jesus-for-forgiveness,Blabbermouth

Traduzido por Daniel Vasques.
Por Blabbermouth


O filho do ex-guitarrista Riggs de ROB ZOMBIE e atual líder da SCUM OF THE EARTH, de 13 anos, foi relatadamente reprimido por sua professora de arte por usar uma camiseta inapropriada na sala de aula. A professora de arte alegadamente insultou o aluno perante seus colegas, arrastou-o para fora da sala no corredor e o forçou a rezar de joelhos pelo perdão de Jesus Cristo. Mais tarde, no mesmo dia, o diretor comentou que "era necessário haver uma reuião sobre a situação".

"Isso é ridículo", diz Riggs. "[A escola em questão] é uma escola pública, e supõe-se que haja uma separação entre Igreja e Estado. A camisa que meu filho estava usando era da minha banda SCUM OF THE EARTH (Trad: Gentalha da Terra). Não contém nenhuma linguagem ofensiva, é apenas o desenho de um monstro numa cruz... e nada mais. Você espera que alguém que seja um professor de arte teria alguma noção do conceito de liberdade de discurso, e de liberdade artística de expressão, contudo esta mulher é claramente uma maluca religiosa. É apenas outro exemplo de como essas pessoas se infiltraram nas escolas públicas, no governo e na política num esforço para forçar sua própria agenda sobre qualquer um que não acredite necessariamente nas mesmas coisas que eles - a despeito do que diz a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América".

Ele continua... "Essa cidade inteira está pirada... nós somos uma família honesta seguidora da lei que não causa mal a ninguém por aqui. Apenas porque tenho várias tatuagens, cabelo comprido e toco numa banda de rock, a cidade inteira pensa que veneramos Satanás e sacrificamos animais ao demônio. É difícil para mim ver o que está acontecendo com esse país, como o direito religioso está paulatinamente tornando aceitável violar as mesmas leis sobre as quais nosso país foi fundado. Eu consigo respeitar a liberdade religiosa, mas isso não significaria também que os religiosos devem respeitar os não-religiosos e as outras religiões também? Novamente, vemos que os religiosos não pensam dessa maneira.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Vídeos: Richard Dawkins fala sobre fé

Excelente palestra. São três vídeos de 8 minutos cada um. Vale muito a pena assistir. Todos legendados. Há alguns erros nas legendas, mas dá para pegar a idéia geral.






sábado, 5 de abril de 2008

Richard Dawkins revela o milagre de Fátima

Extraído de "Desvendando o Arco-Íris - Ciência, Ilusão e Encantamento", de Richard Dawkins, Cia. das Letras, 2000, págs 179-180.

David Hume, grande filósofo escocês do século XVIII, me parece inatacável:

[...] nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de tal ordem que sua falsidade seria mais milagrosa do que o fato que procura estabelecer. ("Of Miracles", 1748)

Vou observar o preceito de Hume com respeito a um dos milagres mais bem atestados de todos os tempos, que dizem ter sido testemunhado por 70 mil pessoas e que ainda está dentro do alcance da memória viva. É a aparição de Nossa Senhora de Fátima. Cito um relato de um website católico romano, no qual se observa que, dentre as muitas alegadas aparições de Maria, essa é incomum por ser oficialmente reconhecida pelo Vaticano.

Em 13 de outubro de 1917, havia mais de 70 mil pessoas reunidas na Cova da Iria em Fátima, Portugal. Tinham vindo para observar um milagre que fora profetizado pela Virgem Maria aos três jovens visionários: Lúcia dos Santos e seus dois primos, Jacinta e Francisco Marto [...]. Pouco depois do meio-dia, Nossa Senhora apareceu aos três visionários. Quando a Virgem estava prestes a desaparecer, ela apontou para o céu. Lúcia, emocionada, repetiu o gesto, e as pessoas olharam para o céu [...]. Então um arfar de terror se elevou da multidão, pois o Sol parecia ter se desprendido do céu e estar prestes a se espatifar sobre a multidão horrorizada [...]. Quando a bola de fogo parecia que ia cair e destrui-los, o milagre cessou, e o Sol retomou o seu lugar normal no céu, brilhando tão pacificamente quanto antes.

Se o milagre do Sol cadente tivesse sido visto apenas por Lúcia, a jovem responsável pelo culto de Fátima, poucos o levariam a sério. Poderia ser facilmente uma alucinação particular ou uma mentira por motivos óbvios. São as 70 mil testemunhas que impressionam. Poderiam 70 mil pessoas ser simultaneamente vítimas da mesma alucinação? Poderiam 70 mil pessoas ser coniventes com a mesma mentira? Ou, se nunca houve 70 mil testemunhas, o repórter do acontecimento poderia ter conseguido inventar esse número?
Vamos aplicar o critério de Hume. Por um lado, somos solicitados a acreditar numa alucinação em massa, num truque da luz ou numa mentira em massa envolvendo 70 mil pessoas. Deve-se admitir que isso é improvável. Mas é menos improvável do que a outra alternativa: que o Sol realmente se moveu. O Sol pendente sobre Fátima não era afinal um Sol privado; era o mesmo Sol que aquecia todos os outros milhões de pessoas no lado iluminado do planeta. Se o Sol realmente tivesse se movido - mas o fenômeno só foi visto pelas pessoas de Fátima -, um milagre ainda maior teria sido perpetrado: uma ilusão de não-movimento teve de ser encenada para todas as milhões de testemunhas que não estavam em Fátima. E isso ignorando-se o fato de que, se o Sol tivesse realmente se movido na velocidade noticiada, o sistema solar teria se rompido. Não temos outra alternativa senão seguir Hume, escolher a menos milagrosa das alternativas existentes e concluir, ao contrário da doutrina oficial do Vaticano, que o milagre de Fátima não ocorreu. Além disso, nem é de todo claroque nos cabe o ônus de explicar como é que essas 70 mil testemunhas foram iludidas.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Ateus, graças a Deus

Repostado da Revista da Cultura.

Livros que defendem o ateísmo estão fazendo sucesso também no Brasil. A questão é: por que isso tem acontecido com tanta força?

Por Cadão Volpato

Sinal de que as coisas mudam, apesar de tudo – e como mudam! Livros que falam de ateísmo e o defendem abertamente estão fazendo sucesso no mundo, principalmente na França e nos Estados Unidos. Mais que isso. Já são muito lidos no Brasil, nosso país de longa tradição católica.

Como se sabe, a religião tem dado as cartas na história da humanidade pelo menos desde os atentados de 11 de setembro, quando duas crenças entraram em confronto: a dos terroristas que se apóiam no islamismo e a do governo Bush, que legaliza a tortura. Mas a religião também já serviu como reforço, por exemplo, daquilo que acabou sendo um ensaio para a Segunda Guerra Mundial chamado Guerra Civil Espanhola. A Igreja do país deu apoio aos massacres promovidos por Francisco Franco, incluindo os testes de bombardeio a populações civis levados a cabo pela Luftwaft contra Guernica.

O casamento entre política e religião costuma ser dos mais explosivos, deixando marcas difíceis de apagar em ambos os lados. A religião, por tratar da salvação do homem em nível superior (a política diz mais respeito a nossas ambições terrenas) tende a sair mais chamuscada da relação. A verdade é que as duas atividades humanas ainda não encontraram um caminho totalmente harmonioso de convivência.


Pegando Pesado

Os ateus ilustrados do nosso tempo herdaram um pouco dessa verve histórica. Se não chegam a fazer piada com as instituições divinas, eles costumam pegar pesado sempre que possível, a começar pelos títulos de seus livros, evidentes provocações. God Is not Great (Deus não É Grande), de Christopher Hitchens, um inglês bonachão de bochechas coradas como um frade e hábitos alcoólicos, é um deles, e sai agora no Brasil. Hitchens vinha fazendo algum barulho como polemista de direita, mas o que deu mais certo foi sua pancada na religião. Bater em Deus começa a se revelar um bom negócio. Difícil é não achar que um livro como o de Hitchens não está fazendo puro proselitismo para chocar o leitor médio. “Se Deus é o criador de todas as coisas, por que devemos celebrá-lo incessantemente por fazer algo que para ele é tão natural?”, escreve. Ele, no entanto, não está sozinho.

Biólogo especializado na Teoria da Evolução do pioneiro inglês Charles Darwin, Richard Dawkins tem vendido muito bem o seu Deus, um Delírio, sucesso imenso nos Estados Unidos e na Inglaterra. A idéia do livro também é chocar. Homofóbico, racista e genocida são alguns dos adjetivos que ele atribui ao personagem em questão. De acordo com Dawkins, um ser tão complexo e evoluí­do quanto Deus só poderia ter aparecido bem depois do homem, e não antes, porque é assim que a Teoria da Evolução costuma explicar as coisas.


Daniel Dennett, outro escritor que se agarra nas teorias evolucionistas de Darwin, defende em seu Quebrando o Encanto, outro sucesso das livrarias americanas e européias, que as pessoas devem discutir a religião de um modo mais sensato e científico.

Nova forma de religião?

Os ateístas definitivamente saíram da toca. Além de Hitchens, Dawkins e Dennett, há o francês Michel Onfray, cujo livro Tratado de Ateologia já está entre os mais vendidos no Brasil. A Editora Alameda lançou Ateísmo e Revolta, de Paulo Jonas de Lima Piva, e Ensaios sobre o Ceticismo, coleção de artigos de vários autores. E essa invasão não deve parar por aí.

“Acho que o sucesso de livros sobre ateísmo diz respeito ao uso arrogante, comercial e moralista de Deus pelos crentes de hoje”, diz o ex-padre e atual escritor e jornalista Carlos Moraes. “Mas a questão de Deus, em si, transcende os ateísmos”, acrescenta em seguida. “Dizer que Deus não existe soa tão bobo como as provas da existência de Deus fora da fé.”

O fato é que o ateísmo está em pleno florescimento nesta primavera. O que antes era algo que se dizia à boca pequena agora se eterniza nos livros. Mas seria injusto dizer que começa agora. Bertrand Russel foi um ateu militante. Em Por que não Sou Cristão, ele não só defende o ateísmo como critica os aspectos morais do cristianismo. Por conta de sua crença – ou descrença – Russel foi impedido de lecionar.

Colunista da Folha de S. Paulo, entre outros jornais, o português João Pereira Coutinho lançou uma outra questão intrigante em um de seus textos recentes, a respeito de Christopher Hitchens e seu Deus não É Grande. “Porque esse é o problema do panfleto de Hitchens: preocupado em derrubar a religião, o seu ateísmo converte-se numa nova forma de religião. Dogmática, intolerante. E, como em todos os extremismos, capaz de conceder a Deus uma importância de vida ou morte. Sobretudo a um Deus em que não se acredita.”

O ateísmo, uma nova religião? Era só o que faltava. “O ateísmo não seria apenas uma nova forma a ocupar o espaço da religião na era do fim das utopias?”, provoca o jornalista Paulo Montóia, ele mesmo um ex-devoto católico e presbítero na juventude. E acrescenta outra teoria interessante ao despertar dessa contra-fé, baseada num contra-argumento religioso: “O crescimento da procura por livros sobre ateísmo pode estar ligado ao mesmo momento e tendência que levaram ao crescimento do budismo enquanto religião”, diz ele. “Ramo que nasce do hinduísmo, o budismo é a única religião sem deus, definição da própria Enciclopédia Britânica, o que permite a seus adeptos, quase sempre mais interessados nos benefícios físicos da meditação neste mundo estressado, conviverem com pessoas de quaisquer religiões ou agnósticos.” Fato é que os budistas não adoram Buda como um Deus. E o budismo tem se transformado numa alternativa para pessoas esclarecidas que procuram se apegar a algo que as ajude a atenuar a angústia existencial básica, a de não saber de onde viemos e para onde vamos. Parece uma forma light de ser religioso. Sim, porque, dentro de certos círculos esclareci­dos, nunca foi de bom tom dizer-se crente de alguma coisa que não tivesse uma cor mais à esquerda ou mais à direita (hoje, ser de direita está cada vez mais pop).

Os tempos mudaram mesmo. No início dos anos 50, o artista Flávio de Carvalho quase foi linchado por conta de uma intervenção urbana. Ele avançou na contramão de uma procissão com o chapéu enterrado na cabeça. Dizer-se ateu junto às camadas mais populares sempre foi uma espécie de ofensa, algo como mostrar um passaporte de ascendência extraterrestre. Claro que as vidas de intelectuais brasileiros ditos de esquerda também não ajudavam muito: no Brasil, tudo se mistura. Jorge Amado tinha os pés bem plantados no candomblé. Oswald de Andrade exibia um escapulário no final da vida, e o áspero João Cabral, também perto da morte, foi visto de joelhos diante da imagem de um santo. E não há problema nenhum nisso.

O fato de os ateístas estarem botando a boca no trombone em português é que impressiona. Português do Brasil, claro. “O fenômeno não chegou a Portugal com a mesma força que ao Brasil”, pondera João Pereira Coutinho. “Talvez porque Portugal (melhor: a Europa) esteja a viver uma fase de um certo relativismo cultural, que tempera e até modera fanatismos de todos os gêneros (o fundamentalismo religioso e o ateísmo religioso – sim, porque o ateísmo é uma forma de religião)”, faz questão de acrescentar. “No fundo, só existem fenômenos fideístas quando os valores que se atacam (ainda) estão no seu devido lugar.”

Na Birmânia e no mundo

A religião tem levantado discussões que transcendem o ateísmo, ou foi o levantamento da pedra pousada sobre o ateísmo que possibilitou novos pontos de vista? Em artigo recente, o deputado Fernando Gabeira chama a atenção para um acontecimento que vai meio na direção contrária dos cânones marxistas, que taxam as religiões de reacionárias. Segundo Gabeira, os monges budistas de Mianmar, antiga Birmânia, ao voltarem suas tigelas de esmolas para baixo, nos protestos contra a ditadura militar do país, declararam a excomunhão do governo, um golpe terrível contra uma instituição que sempre procurou se identificar com a religião budista. “A fratura exposta entre o regime dominante e a religião onipresente na Birmânia pode ser vista como uma semente de democracia”, escreveu ele. E mais: “Os budistas só assumem a vanguarda do movimento porque não existem organizações sociais capazes de cumprir esta tarefa no momento.” Para Gabeira, eles voltarão aos conventos com a chegada da democracia.

No Brasil, nos tempos da ditadura, a Igreja também serviu de amparo aos que defendiam a democracia. Mas os dias de hoje conhecem uma Igreja Católica muito mais conservadora. No terreno das outras religiões, o dinheiro tem falado muito alto. “Quanto às principais vítimas desse Deus comercial, os pobres, aqueles que perderam todos os bondes para este mundo, não podem mesmo perder o último, que é para o céu. Uma crueldade tirar deles a fé e a esperança que lhes ordenam a vida”, diz o ex-padre Carlos Moraes. Parece que resta aos mais esclarecidos a contrapartida de ceticismo ao que este núcleo duro e fundamentalista das religiões – composto por grandes doses de conservadorismo, materialismo em forma de dízimos e fanatismo – vem oferecendo ao mundo no momento.

O filósofo e poeta Antonio Cícero também se debruçou sobre o tema recentemente. “Por que é que, ao contrário do que ocorreu nos séculos 18 e 19, é difícil lembrar algum livro desse tipo que se tenha destacado, no século 20, na Europa ou nos Estados Unidos?” Segundo ele, tirando Bertrand Russell, nenhum outro pensador importante dedicou seu tempo a espicaçar a religião. Em busca de uma resposta para a pergunta, ele recorre ao filósofo americano John Searle, para quem o mundo moderno simplesmente teria se desmistificado. Isso explicaria por que os grandes intelectuais não quiseram perder tempo com o assunto. Mas a conclusão de Cícero é um tanto alarmante: “Em 2007, é evidente que, longe de se limitarem à esfera privada, algumas religiões alimentam o sonho teocrático de privatizar o espaço público e policiar o privado”. O que nos levaria de volta à importância de discutir o assunto, bem ou mal, na forma que vêm fazendo esses autores de língua afiada, Dawkins, Hitchens, Onfray. Também existe a saída brasileira, como sempre. Num texto incluído no último CD do ministro da Cultura Gilberto Gil, Caetano Veloso mostra um caminho certeiro para acreditar por tabela: “Gil crê em Deus, e eu creio em Gil”.

Para além das piadas intelectualizadas e dos argumentos quase grosseiros dos que defendem a não-religião, há uma tomada de posição contra as atrocidades que os exageros da fé vêm cometendo ao longo dos séculos, e que recrudesceram a partir dos eventos assustadores do pós-11 de setembro. A humanidade provavelmente vai continuar discutindo a existência de Deus até o dia do Juízo Final, algo em que apenas uma parcela acredita sem a mais leve sombra de dúvida. © ,

Saiba mais em http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc04/index2.asp?page=polemica

sábado, 9 de fevereiro de 2008

The Bright Stuff ("O Negócio Bright")

Por Daniel C. Dennett

Postado originalmente no The New York Times em 12 de julho de 2003.

Chegou a hora de nós, brights, sairmos do armário. O que é um bright? Um bright é uma pessoa com uma visão de mundo naturalista oposta à visão sobrenatural. Nós brights não acreditamos em fantasmas nem elfos nem no Coelho da Páscoa - ou Deus. Nós discordamos em muitas coisas, e temos uma variedade de pontos de vista sobre moralidade, política e o sentido da vida, mas nós compartilhamos uma descrença em magia negra - e na vida após a morte.

O termo "bright" é uma palavra cunhada por dois brights em Sacramento, California, que acharam que nosso grupo social - que tem uma história que se estende de volta até o Iluminismo, se não antes - merecia uma imagem melhor e um nome diferente poderia ajudar. Não confunda o substantivo com o adjetivo: "Eu sou um bright (brilhante, em tradução livre)" não é uma ostentação, mas uma afirmação orgulhosa de uma visão inquisitva de mundo.

Você pode muito bem ser um bright. Se não é, certamente lida com brights diariamente. Isso porque nós estamos todos ao redor de você: somos médicos, enfermeiras, policiais, professores, guardas de trânsito e homens e mulheres do serviço militar. Somos seus filhos e filhas, seus irmãos e irmãs. Nossos colégios e universidades transbordam de brights. Entre os cientistas, somos a maioria dominante. Querendo preservar e transmitir uma grande cultura, nós ainda damos aula em Escolas Dominicais e ensinamos Hebraico. Muitos dos membros do clérigo da nação são brights de armário, eu suspeito. Somos, de fato, o pano de fundo moral da nação: brights levam a sério seus deveres civis precisamente porque eles não confiam em Deus para salvar a humanidade de suas imbecilidades.

Sendo um adulto do sexo masculino casado com segurança financeira, eu não tenho o hábito de me considerar um membro de uma minoria que precisa de proteção. Se alguém está no assento do motorista, eu penso, é alguém como eu. Mas agora eu começo a sentir algum calor e, embora não seja desconfortável ainda, percebo que é hora de soar o alarme.

Se nós, brights, somos minoria ou, como eu tendo a acreditar, uma maioria silenciosa, nossas convicções mais profundas estão cada vez mais condenadas, diminuídas e dispensadas por aqueles no poder -- por político que saem do seu caminho para invocar a Deus e para ficar, presunçosa e hipocritamente, no que eles chamam de "o lado dos anjos".

Uma pesquisa de 2002 feita pelo Pew Forum sobre Religião e Vida Pública sugere que 27 milhões de americanos sejam ateus ou agnósticos ou não tenham preferência religiosa. Essa figura pode muito bem ser bem baixa, já que muitos descrentes são relutantes em admitir que sua observância religiosa é mais um dever cívico ou social do que religioso -- mais um problema de coloração protetora do que convicção.

A maioria dos brights não desempenha o papel do "ateu agressivo". Nós não queremos transformar todas as conversas em debates sobre religião nem queremos ofender nossos amigos e vizinhos, portanto mantemos um silêncio diplomático.

Mas o preço é impotência política. Políticos não acham que eles têm nem mesmo que nos fazer falsos elogios, e líderes que nem mortos cometeriam calúnias religiosas ou étnicas não hesitam em menosprezar os "sem deus" entre nós.

Da Casa Branca para baixo, atacar os brights é visto como um obtenedor de votos de baixo risco. E, é claro, a agressão não é apenas retórica: a administração Bush advogou mudanças no governo, regras e políticas para aumentar o papel das organizações religiosas na vida diária, uma subversão séria da Constituição. É hora de interromper essa erosão e tomar partido: os Estados Unidos não é um Estado Religioso, é um Estado secular que tolera todas as religões e -- sim -- todas as maneiras de crenças éticas não religiosas também.

Eu recentemente fiz parte de uma conferência em Seattle que reuniu cientistas, artistas e autores de liderança para falar calma e informalmente sobre suas vidas para um grupo de estudantes muito bons do ensino de segundo grau. No fim dos meus 15 minutos permitidos, eu tentei um pequeno experimento. Eu me revelei um bright.

Agora, minha identidade não seria surpresa para ninguém com o menor conhecimento do meu trabalho. Mesmo assim, o resultado foi eletrizante.

Muitos estudantes vieram em minha direção para me agradecer, com emoção considerável, por "libertá-los". Eu não havia percebido o quão solitários e inseguros esses adolescentes pensadores se sentiam. Eles nunca haviam ouvido um adulto respeitado dizer, de modo completamente direto, que ele não acreditava em Deus. Eu calmamente havia quebrado um tabu e mostrado o quão fácil era fazê-lo.

Além do mais, muitos dos palestrantes que seguiram, incluindo diversos laureados do Nobel, foram inspirados a dizer que eles, também, eram brights. Em cada caso o comentário atraiu aplausos. Ainda mais gratificantes foram os comentários dos adultos e estudantes que me procuraram depois para dizer que, enquanto eles mesmos não eram brights, ainda assim apoiavam os direitos dos brights. E é isso que queremos acima de tudo: sermos tratados com respeito assim como Hindus, Batistas e Católicos, nem mais nem menos.

Se você é um bright, o que você pode fazer? Primeiro, nós podemos ser uma força poderosa na vida política americana se nós simplesmente nos identificarmos. (Os brights fundadores mantêm um site na Web onde você pode se erguer e ser contado). Compreendo, no entanto, que enquanto sair do armário foi fácil para um acadêmico como eu - ou para meu colega Richard Dawkins, que teve uma iniciativa semelhante na Inglaterra - em algumas partes do país admitir que você é um bright poderia levar à calamidade social. Então por favor: sem "outing"(outing, em inglês, é uma palavra usada como revelar a homossexualidade de alguém - o autor, aqui, fez o correlato com revelar que alguém é bright).

Mas não há razão para que todos os Americanos não possam apoiar os direitos dos brights. Não sou gay nem afro-americano, mas ninguém pode difamar negros ou homossexuais na minha orelha e sair impune. Qualquer que seja sua teologia, você pode fazer objeções quando ouvir família ou amigos desdenharem de ateus, agnósticos ou outras pessoas sem Deus.

E você pode perguntar isso aos seus candidatos políticos: 'Você votaria em alguém qualificado em outro contexto para um cargo público, mas que fosse um bright?' 'Você votaria para algum indicado para a Suprema Corte que fosse um bright?' 'Você acha que os brights deveriam poder ensinar em escolas públicas?' 'Ou chefes de polícia?'

Vamos fazer os candidatos americanos pensarem sobre como responder a um coro inflado de brights. Com alguma sorte, ouviremos em breve algum político se contorcendo tentando sair do assento quente com o comentário fraco de que "alguns de meus melhores amigos são brights".

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Livro ateu para crianças gera polêmica na Alemanha

Repostado da Folha On-Line

Um livro ateu para crianças gerou polêmica na Alemanha e seu autor, Michael Schmidt-Salomon, foi acusado de anti-semitismo. Segundo seus críticos, o escritor fez o retrato de um rabino de uma forma que lembrou as caricaturas de judeus nos anos 30.

O governo alemão pediu à Central para Escritos Perigosos para a Juventude que estude a inclusão da obra numa lista que adverte para produtos inconvenientes para jovens.

Schmidt-Salomon satirizou a acusação de anti-semitismo, ao lembrar que já foi acusado de "agente de Israel". "Faz pouco tempo a televisão iraniana me acusou de ser um agente de Israel, que com o Conselho Central dos Muçulmanos iniciei um ataque tipicamente judeu contra o Islã. Por isso, essa etiqueta de anti-semita veio bem para meu currículo. Não deve haver muitos agentes de Israel que sejam anti-semitas", afirmou o escritor, em seu site.

O livro "Qual o caminho até Deus?, pergunta o porquinho" tem sido criticado também por reduzir as três religiões monoteístas às suas variações fundamentalistas. Os personagens centrais são um porquinho e um ouriço, que conversam sobre Deus, além de um rabino ultra-ortodoxo, um imã muçulmano e um bispo.

Schmidt-Salomon, presidente da Fundação Giordano Bruno, que tem como objetivo propagar o pensamento laico pela Alemanha, tem respondido a essas críticas sugerindo que a religiosidade autêntica é sempre fundamentalista.

"Não devemos confundir a religião 'light' com a autêntica religião. O fato de que a maioria das pessoas neste país não padeçam de uma obsessão religiosa ou que somente a sofram em doses homeopáticas não quer dizer que não seja socialmente significativamente neste mundo", afirmou.

Os defensores do livro de Schmidt-Salomon o chamam de "Dawkins para crianças", em um alusão a Richard Dawkins, por sua obra best-seller contra a religiosidade, e já iniciaram uma campanha contra a intenção do Ministério da Família.

O Ministério está convencido de que a obra, com sua ridicularização das três religiões, incita o ódio e por isso, deve ser considerado perigosa para a juventude. Estima-se que a decisão de incluir a obra nessa lista seja anunciada no início de março.

Comentário: típico. O governo sempre tenta calar a voz da razão. Veja se alguém proíbe as crianças de ler a Bíblia, mesmo com todas as passagens filicidas, homofóbicas, homicidas, escravocratas e genocidas, bem como as de preconceitos contra as mulheres. Não. A Bíblia qualquer um pode ler. É um livro suave e de gostosa leitura. Pura hipocrisia. No mínimo algum imbecil do governo prefere as "vendas da cegueira" que a religião coloca nos olhos de quem acredita e quer impedir o autor do livro de prevenir as crianças de ficarem cegas por opção. REVOLTANTE, ULTRAJANTE, IMBECIL, para não dizer RIDÍCULO. E pensar que com a morte de Hitler os alemães eram um povo mais desenvolvido. Ledo engano.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Livros lidos e recomendados

"Deus, um Delírio" - Richard Dawkins
















"Deus não é Grande - como a religião envenena tudo" - Christopher Hitchens














"Carta a uma Nação Cristã" - Sam Harris





















"Quebrando o Encanto - a religião como fenômeno natural" - Daniel C. Dennett

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Dawkins, um delírio

Artigo do site Saindo da Matrix, em que o autor critica Richard Dawkins. Agora é minha vez de criticar o autor desse artigo, embora concorde com ele em algumas poucas passagens. Meus comentários em vermelho.

Post original: http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2007/08/dawkins_um_deli.html

Digamos que apareça um barbudo de turbante falando que sua missão é converter as pessoas para Deus, generalizando que um "povo sem Deus" não tem moral e é corrupto. E convocando outros religiosos como ele a se unirem em sua luta contra esse estado de coisas. Esse homem seria visto como um louco, um fanático religioso, e por um momento você desejaria que ele estivesse preso na base militar de Guantánamo com um capuz na cabeça.
Comentário: esse exemplo acontece todos os dias. Basta andar na Av. Paulista. E ninguém os considera loucos ou algo que o valha. Apenas fanáticos, coitados. Nenhum deles vai para Guantánamo.

Mas, quando este homem tem a barba feita e tem título de cientista, falando exatamente o mesmo que o barbudo acima, mas trocando os lados, ele vende livros. Muito livros. E dá entrevistas nos melhores jornais do mundo. E é respeitado.
Comentário: talvez porque os livros dele sejam coerentes. E talvez porque ele trabalhe com algo que os religiosos em geral não têm: evidências. Evidências geram respeito. Diferentemente do respeito IMPOSTO pela religião, com o qual discordo veementemente, o respeito de Dawkins é conquistado pela maneira brilhante que ele coloca os fatos e pelo indiscutível dom (não divino, obviamente) de escrever bem.

Não o conheço, não li seus livros. Mas, pelo teor de sua entrevista ao Estado de SP, pode-se ver claramente o tipo de pessoa que ele é. Richard Dawkins é, na mais lisongeira expessão que posso usar, uma caricatura de Arnaldo Jabor. Se Jabor fosse um Alfa Romeo, Dawkins seria um Hummer. Ele nem parece britânico; está mais pra o estilo "assessor de George W. Bush".
Comentário: ou seja, vamos criticar sem ler. Dawkins leu a Bíblia de cabo a rabo antes de escrever várias passagens de seu livro. Dawkins estudou. Prezado Acid (como você mesmo se intitula), assista aos documentários de Dawkins - Root of All Evil? e Enemies of Reason, bem como Growing Up in The Universe - e leia seus livros - especialmente The Selfish Gene, A Devil's Chaplain, Climbing Mount Improbable e The God Delusion - antes de dizer que Dawkins é assessor de Bush ou caricatura de Arnaldo Jabor. Seria o mesmo que dizer, pelo que li dos seus comentários, que você é uma bicha religiosa que tenta defender o misticismo desnecessário para o povo. Mas não posso dizer isso porque não te conheço. Nem sei quem você é. Portanto, pense antes de escrever.

De suas obras, li apenas um resumo de "O Gene Egoísta", na revista Superinteressante, e confesso que gostei da idéia. De fato fazemos muitas coisas no automatismo, entregues ao nosso lado animal. Só não sei se ele tenta explicar TUDO com base nessa proposta que, ao meu ver, é apenas modesta. Agora o best seller da moda não é mais O Código da Vinci, e sim "Deus, um Delírio", onde Dawkins defende que a fé religiosa (seja qual for a denominação) não é apenas uma ilusão inofensiva, mas um delírio nocivo do qual a sociedade precisa ser curada.
Comentários: o livro "O Gene Egoísta" não fala que fazemos coisas no automatismo. Diz que nossos genes (e não nós) têm a única missão de procriar. Assim, de certa forma, eles controlam nossas reações, nossa aparência, sendo que isso não tem nada a ver com automatismos. A fé religiosa é um delírio nocivo, sim. Não sempre, mas nas poucas vezes em que o é, já faz pensarmos em eliminá-la completamente. Até porque, como Deus não existe, acreditar nele torna as pessoas presas a algo enganoso. As promessas religiosas soam como uma propaganda de carro em que dizem: por apenas 2000 reais, você adquire esse modelo de luxo com 4 portas, imenso porta-mala, ar-condicionado, trava elétrica, Car System instalado, dvd player, painel digital, câmbio automático, além de blindagem contra fuzis e bazucas. Só que, para isso, você não pode pegar as vias expressas, só pode andar na cidade, tem que levar o carro para a revisão todo domingo, não pode pôr gasolina comum, não pode pôr mulheres bonitas dentro do carro e, caso infrinja qualquer uma dessas regras, o carro vai ser tirado de você para sempre e você será obrigado a pagar o real valor de todos os adicionais sem direito a recurso. E mesmo que você aceite as condições, chegando na loja eles dizem: olha, o valor é 2000 reais, mas tem o imposto x, o imposto y, o imposto z mais a taxa de retirada do produto, mais a gasolina colocada, mais os pneus cheios, mais a taxa de compra do veículo, totalizando 28.500 reais. Ou seja, é tudo uma enganação. E as pessoas mesmo assim parecem gostar de ser enganadas o tempo todo.

Pela entrevista que li (abaixo), dá pra perceber que esse homem não é alguém não-religioso (não há nada de errado nisso, as pessoas podem ter religião ou não): ele é ANTI-religioso. E passional. E a sociedade não parece achar isso nada demais.Isso faz meu "sentido de aranha" pipocar. Só pra lembrar, foi a partir da indiferença da sociedade que a Alemanha nazista se tornou ANTI-Judia, porque UM GRUPO era anti-judeu e o povo alemão era, no máximo, omisso, indiferente, recalcado. Eu sempre uso esse exemplo extremo dos nazistas pra tudo, pois é o ápice do exemplo da maçã podre contaminando o cesto inteiro.
Comentário: Dawkins não quer que matemos as pessoas religiosas. Ele julga a religião uma imbecilidade (e de fato o é) e, portanto, tenta, através de seus livros, esclarecer as pessoas que vivem sob a ilusão de um Deus presente. Nenhuma, absolutamente nenhuma, correlação com os nazistas pode ser detectada em seus livros.

Cada resposta dele parece saída da boca de um talibã. Dá pra encontrar erros grosseiros em cada uma delas!! Não sei se por falta de conhecimento da matéria que pretende criticar ou por pura maldade. Se o cara pretende meter o pau nas religiões, precisa ter um mínimo de estudo pra criticar. Como eu não li o livro (e, pelo que li abaixo, não fiquei com a MENOR vontade de fazê-lo), me utilizarei das palavras dele na entrevista como base pra escrever uma réplica logo abaixo de cada resposta dele:
Comentário: Erros grosseiros? Nem acho que vale a pena comentar. Dawkins realmente conhece a matéria que critica. Mesmo que não conhecesse, você provavelmente não acredita em fadas e magos e não é especialista em "fadologia" e "magologia" para criticar ou desprezar sua existência. Por que seria diferente com a teologia?

Estadão: O sr. argumenta em seu livro que a religião é algo nocivo, que pode levar a guerras, terrorismo e preconceito. A maioria das pessoas religiosas, entretanto, não sai dirigindo carros-bomba por aí. Acreditam em Deus, vão à igreja aos domingos e seguem suas vidas sem problema. A religião é algo intrinsecamente ruim ou apenas quando levada ao extremo?
Dawkins: Nem tudo na religião é ruim, claro que não. A maioria das pessoas comuns, que vão à igreja todo domingo, não levam isso muito a sério - mas uma minoria leva, sim, extremamente a sério. O que eu quero dizer é que são essas pessoas comuns, do dia-a-dia religioso, que doutrinaram todos nós durante a infância de que a fé é uma coisa boa, e que a religião é algo que precisa ser respeitada. Isso cria um ambiente propício para o fundamentalismo, abre caminho para o extremismo.
Acid: Falácia. MUITAS pessoas que vão à igreja todo domingo levam a sério suas religiões, ou sequer iriam (como a maioria dos brasileiros que se dizem católicos mas só botam os pés na igreja quando vão a casamentos). Milhares de anos se passaram com pais ensinando a seus filhos que fé é uma coisa boa, e que a religião é algo que precisa ser respeitada, e não temos sequer um país extremista católico (ou homens-bomba da Sei-Cho-No-Ie, por exemplo). O que abre caminho pra o fundamentalismo é armar até os dentes uma facção de malucos (como os Talibãs) pra se defender de um inimigo em comum e esperar que ela seja dócil após subida ao poder. Parodiando a frase do Papa João Paulo II pra Bush quando de sua "Cruzada", eu diria: "Deixe a religião fora disso".
Comentário: Concordo que armar os talibãs foi um erro e certamente predispôs à guerra. Mas será que esse grupo guerreia por guerrear? Ou será que o fazem em nome de Alá? Ah, sim. Fazem isso em nome de Alá. Decapitam professoras que permitem que seus alunos desenhem caricaturas de Maomé em nome de Alá. Matam a sangue-frio repórteres americanos em nome de Alá. Não dá para deixar a religião fora disso. Ela está intrincada no coração de cada um dos extremistas muçulmanos.

Estadão: Tivemos há pouco um evento trágico no Brasil: um acidente de avião no qual morreram 199 pessoas. Numa situação dessas, a religião, a fé, é o único consolo para muitos parentes das vítimas. Nesse caso, também, o senhor acredita que a religião é uma coisa ruim? Como o senhor lida com as tragédias da vida?
Dawkins: Se tivesse religião, me preocuparia com o Deus que deixou uma coisa dessas acontecer. Você não? Deus sempre leva o crédito pelas coisas boas, mas nunca a culpa pelas coisas ruins. Ele deixou que a tragédia acontecesse! É incrível. Não sei se alguém sobreviveu a esse acidente, mas se for o caso, seria capaz de apostar que alguém disse: ‘Vejam que maravilhoso, Deus salvou meu filho, minha filha, ou seja lá quem for.’ Ninguém parece se dar conta de que esse mesmo Deus deixou todas as outras pessoas morrerem.
Acid: Que visão deturpada de mundo é essa, que o homem se recusa a responder uma pergunta óbvia dessas (do tipo que qualquer pessoa séria diria "sim, MAS...") e prefere responder com uma visão esteriotipada que nem tem relação com a pergunta original??! Que houve com você, Dawkins? Sua esposa foi partida ao meio por um urso no cio, e por isso você se revoltou com Deus? Esse homem se considera cientista? Espero que não.
Comentário: não é visão deturpada. É a visão real. Se, desde pequenos, fôssemos acostumados à idéia de que a morte é um fenômenos natural e que quem morre vai embora para sempre, sem essas baboseiras imbecis de vida eterna, paraíso, inferno, purgatório, virgens, enfim, o kit babaquice completo, aceitaríamos a morte com mais naturalidade. Agora, em se tratando de acidentes dessa proporção, muito embora tenham morrido várias pessoas, aquele que ia viajar e não pôde porque teve diarréia e ficou no banheiro do aeroporto vem às câmeras e diz: foi Deus quem me deu essa diarréia. Graças a ele eu estou aqui. Esse mesmo Deus queria matar todos aqueles do avião (ah, não.... é verdade, Deus não é culpado pelas coisas ruins... esse seria o livre arbítrio... entrou no avião quem quis) e quis que um pobre coitado tivesse caganeira para que não fosse morrer junto aos demais PECADORES. E você ainda se considera um crítico? Espero que não.

Estadão: Não consigo pensar em nenhuma sociedade, do presente ou do passado, que não tenha venerado algum tipo de divindade – seja o Deus Sol, o Deus Vento ou qualquer outro tipo de deus. Será que a religião não faz parte do nosso DNA, que não é algo intrínseco à essência do ser humano?
Dawkins: Acho que você tem razão. Todas as sociedades humanas manifestam algum tipo de religião. Grande número de pessoas é religiosa, mas não todas. Não é algo, portanto, que esteja tão incorporado ao nosso DNA que não sejamos capazes de escapar disso. Muitos de nós escapam, especialmente as pessoas que têm uma educação melhor. Eu diria, sim, que há uma predisposição da mente humana que nos torna vulneráveis à religião, mas não acho que isso esteja embutido em nossos genes.
Acid: Vulneráveis? É uma doença? Isso é científico? "Lamento, mas você contraiu o vírus da religião". Que palhaçada é essa?
Comentário: a vulnerabilidade à religião é válida, assim como a vulnerabilidade à imbecilidade. Se pararmos para pensar, somos todos ateus. Parafraseando um autor ateu cujo nome me falta agora: "quando você compreender a razão pela qual você rejeita todos os outros deuses, compreenderá a razão pela qual eu rejeito o seu deus." E mesmo sabendo disso, as pessoas parecem se reunir em times: eu torço por Alá, eu torço por Deus, eu torço por Juju da montanha. Com tantas religiões que alegam que seu Deus é exclusivo, alguém tem que estar errado. E, se você não acha que isso é um vírus, tente passar 2 horas numa sala com um evangélico fanático. Você certamente compreenderá.

Estadão: Por que contrariar esse instinto?
Dawkins: Bem, nós não fazemos tudo que é natural do ser humano, fazemos? Se fizéssemos, todos nós estaríamos andando pelados por aí. Nossos ancestrais selvagens eram caçadores-coletores, que provavelmente lutavam constantemente entre si, principalmente pelo controle das fêmeas. Não é exatamente o tipo de sociedade na qual gostaríamos de viver hoje. Nós evoluímos muito desde então, ao longo de vários séculos de civilização, e nossa emancipação dos deuses é mais um passo desse processo civilizatório.
Acid: Oh... então os religiosos estão defasados, como o videocassete, o LP, a TV preto-e-branco... E a associação "brilhante" entre a violência pré-histórica contra as fêmeas e a religiosidade? Nada sutil... Será que é mesmo "natural" do ser humano andar pelado por aí? Aqui no Brasil pode até ser, mas o que diria um esquimó? Ou um beduíno? Se cobrir de panos cumpre apenas uma função social ou é natural do ser humano (praticamente um macaco sem pêlos) que procuremos proteger nosso corpo? Esse cara é mesmo considerado um pensador?
Comentário: Sim, os religiosos estão defasados à medida em que acham que a Terra tem milhares de anos e não milhões de anos. Estão defasados ao rejeitarem a seleção natural e a teoria da evolução. Estão defasados em relação à origem do Universo, à origem do homem e à existência de Deus e de espíritos e almas. E também em acreditar na existência de vida após a morte. O ser humano começou a usar roupas antes de perder os pêlos e a roupa virou uma "cauda de pavão".

Estadão: Charles Darwin não era ateu, era agnóstico (alguém que não crê em Deus, mas não descarta totalmente sua existência). O sr. acha que ele aprovaria seu livro?
Dawkins: Darwin era um homem muito gentil, que se preocupava muito em não ofender seus amigos religiosos. Chegou a dizer que as pessoas não estavam prontas para o ateísmo. Acho que Darwin não ficaria totalmente satisfeito com o meu livro. Acho até que ele concordaria comigo no fundo do seu coração, mas não concordaria em publicar o livro da maneira como eu publiquei.
Acid: Darwin era um cientista, ao contrário de Dawkins. Nota-se o cuidado que Darwin teve quando escreveu nos pés de páginas do manuscrito Origem das Espécies o seguinte: "Nunca escrever que um organismo é superior ou inferior". Ou seja, ele sabia que cada organismo cumpre seu papel no planeta da melhor forma. Creio até que Darwin, se consultado, diria pra que os humanos se inspirassem na ilha de Galápagos (onde ele esteve para pesquisar precisamente a vida selvagem) e convivessem uns com os outros como os animais dali, que coabitam o lugar sem serem predadores uns dos outros.
Comenário: sim, Darwin era um cientista. Dawkins também o é. Os dois escreveram sobre temas diferentes. Darwin, sobre evolução; Dawkins, sobre religião. Embora Dawkins já tenha escrito livros sobre evolução, no caso de "Deus, o delírio" ele critica especificamente as religiões e não fala tanto sobre evolução como em outros livros. Darwin jamais escreveu nada contra as religiões simplesmente porque esse não era seu intuito. O de Dawkins é.

Estadão: Quando o sr. prega o fim da religião e coloca a ciência como dona da verdade, essa não é uma posição tão radical quanto a dos fundamentalistas religiosos?
Dawkins: Não acho. Os fundamentalistas acreditam em algo simplesmente porque aquilo está escrito em um livro. Só acredito em alguma coisa com base em evidências, e isso é uma grande diferença. Admito ser passional, veemente, mas apenas sobre assuntos para os quais existem evidências. Não sou passional porque fui criado para acreditar em algo ou porque li aquilo em algum livro sagrado.
Acid: Não, não é uma grande diferença. A ciência já acreditou em muita besteira baseada em "evidências". Dawkins e o fundamentalista religioso são dois idiotas que acreditam em coisas baseadas em "evidências". O religioso sente a presença de Deus nas pequenas e grandes coisas e isso é evidência suficiente pra ele, assim como algumas teorias científicas são evidências suficiente pra você, Dawkins. Os maiores religiosos não foram "criados pra acreditar em algo" nem "leram em algum livro sagrado". Eles são grandes justamente porque romperam com o sistema. Mais uma bola fora pra você, Dawkins, que pelo visto não sabe PN de religião. Em compensação, posso dizer que os norte-americanos são famosos por serem manipulados porque foram "criados para acreditar em algo" ou porque leram/viram na imprensa ("o livro sagrado").

Querem saber como são criados homens-bomba? Não é numa mesquita, aprendendo sobre o Alcorão, e sim:



Sendo humilhados desde pequenos



Sendo espancados ainda crianças (com sadismo) quando protestam contra a ocupação ILEGAL de seu país



Sabendo de casos de estupro e morte de menores e de suas famílias




Sendo abalroados pelos donos da rua (e donos do seu país)



Vendo pessoas que você ama sendo mortas a troco de nada, apenas por existirem



Sim... Até que eles estejam prontos pra revidar... e aí Dawkins vai poder dizer "Viu? Foi em nome de Allah!"
Comentário: a diferença, caro Acid, entre acreditar em evidências e acreditar em religião, reside no fato de que a ciência, quando demonstra que uma evidência estava errada, convence todos os cientistas e o rumo da coisa toda muda. Já com a religião, por mais que se argumente e demonstre que a existência de Deus e do kit idiotice completo não existem, o religioso responde: "Mas a Bíblia diz que não foi assim". Concordo com você com relação aos vídeos acima. Tudo isso acontece de fato, só que você se esqueceu de um detalhe: eles passam por tudo isso E são criados sob o Islamismo. Ou seja: acreditam que tudo isso que são obrigados a suportar é obra de Alá e das pessoas anti-Alá. Daí sim a festa está completa. E vão fazer, como Dawkins disse, em nome de Alá.

Estadão: Muitas vezes a doutrina religiosa é usada como referência moral, inclusive para impor limites éticos à ciência - como no caso da clonagem e das células-tronco embrionárias. Sem a religião, quem vai regular a ciência? Sem Deus para julgar nossas ações no fim do túnel, quem vai determinar o que é certo e o que é errado?
Dawkins: Jogar fora a religião não significa jogar fora a ética. Ética é algo completamente diferente. Qualquer um que disser que baseia sua ética na religião está quase certamente enganado. Ninguém tira seus conceitos morais da Bíblia, porque isso significaria ser a favor da escravidão, da opressão das mulheres, do apedrejamento de homossexuais etc. O que as pessoas fazem é selecionar versos da Bíblia que as agradam, mas a ética e a moral elas pegam de outro lugar. Muita gente também acredita que sem a religião todos se transformariam em pessoas más, que não haveria nada que lhes impedisse de praticar atos ruins. Se isso é verdade, essas pessoas não são realmente boas. Elas só são boas porque têm medo de serem punidas por Deus, e não acho que essa seja uma forma honrosa de bondade.
Acid: Eu li direito? "Ninguém tira seus conceitos morais da Bíblia (...) a ética e a moral elas pegam de outro lugar". Pegam de onde, professor Tibúrcio? Dos episódios dos Simpsons? Da educação familiar dos pais ausentes? Onde foi mesmo que eu li que devemos perdoar nossos inimigos? Foi na Revista Caras ou foi na Veja? Essa foi a frase mais estúpida que eu li este ano!! O cara escreve um livro criticando Deus e nem sequer sabe (ou finge que não sabe) o que é a Bíblia! Ele mistura no mesmo saco a filosofia refinada de Jesus com as atrocidades cometidas pelos hebreus pra validar seu ponto de que não tem ética na bíblia. C@R@LHO! Tem alguém aqui que goste desse cara? Porque eu preciso que alguém me diga se ele fala isso a sério ou se ele usa esse argumento no livro!
Comentário: leu direito sim, meu caro Acid. Ele diz isso sim. E prova que está certo. Por isso acho que você tem que ler o livro antes de criticá-lo. Numa entrevista de jornal, onde as palavras são contadas por problemas de espaço, não dá para argumentar muito. Leia o livro. Mas os jainistas não acreditam em Deus e são um povo cheio de moral, só para citar um exemplo. Além do mais, não se esqueça que essas atrocidades cometidas por hebreus foram todas em nome de Deus e com base no que dizia (e diz) a Bíblia "Sagrada".

Estadão: O sr. foi eleito mais de uma vez pela revista britânica Prospect como um do mais importantes intelectuais do planeta. O sr. acha que os cientistas são os novos pensadores, os novos filósofos do mundo moderno?
Dawkins: Acho que a ciência tem, sim, muito a dizer para o mundo, e acho que as pessoas se sentiriam muito mais completas em suas vidas se aprendessem com a ciência. Não só com o conhecimento da ciência, mas com a metodologia do descobrimento científico, que é algo que vale a pena ser seguido.
Acid: Li que a votação foi popular. E como a voz do povo é a voz de Deus... bem... Ok, Dawkins, você me convenceu: Deus não existe.
Comentário: isso responde se ele é ou não um cientista. Já você, Acid, não o é. A votação foi a penas um dos títulos de Dawkins. Leia na Wikipedia o que ele já escreveu, não só sobre religião, mas sobre diversos assuntos. E entre no site http://www.richarddawkins.net/

Estadão: A ciência tem resposta para tudo?
Dawkins: Ainda não, e talvez nunca tenha. Mas, se há algo que a ciência não pode responder, não há nenhuma razão para supor que a religião possa.
Acid: Que tal "qual o sentido da vida?" Ou "por que eu devo agir com solidariedade quando estiver num estado de sobrevivência, o famoso cada um por si?" O que será que os genes dos grandes mártires da fé diriam de seus feitos?
Sabe o que é pior? Dawkins não só é um completo ignorante em termos de religião, como não tem base científica nem pra sustentar seus próprios argumentos. Esse vídeo abaixo mostra bem a enrascada em que ele se mete ao ser questionado a dar algum exemplo de mutação genética ou processo evolucionário que mostre um aumento da informação no genoma:




Pra quem não sabe inglês: ele não responde. Enrola, enrola, mas não dá nenhum exemplo

Se quisermos falar um pouco mais sério, poderíamos questionar, com base na alegação de Dawkins de que as pessoas tiram sua ética de algum lugar que não a bíblia, mas apenas escolhem as passagens que já refletem seu caráter ou escolha: Será que as pessoas que detestam religião não estão usando os argumentos furados de Dawkins apenas porque JÁ tinham essa posição definida de ser ateu e acaba dando um valor maior a Dawkins do que pela sua argumentação? Será que não transferem o mesmo grau de sacralidade que os religiosos dão a seus escritos ao livro de Dawkins? Pensem nisso.

Comentário: A cena acima foi editada para que parecesse que Dawkins ficou sem resposta quando, na verdade, era intervalo no programa ou algo do gênero. De qualquer modo, Dawkins sempre pensa muito antes de dar uma resposta porque às vezes uma palavra que ele usa é usada contra ele pelos criacionistas. Assim, mesmo que não tenha sido montagem, é possível que ele estivesse apenas pensando. E, mesmo que não fosse essa a hipótese, quem nunca teve um branco em toda a sua vida? O fato de ser um cientista de renome não o impede de ter um branco. Só teve o azar de ter o seu branco filmado. Mas isso não invalida nenhum de seus argumentos.

Observação: No post original tem um vídeo que mostra o argumento de Dawkins sendo usado para provar que ele mesmo não existe. Achei isso tão imbecil, visto que nós VEMOS, OUVIMOS, PODEMOS TOCAR em Dawkins e em Deus não, que preferi não colocar o vídeo aqui.

Até mais,

Daniel Vasques

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ciclones sobre a cruz

Repostado de Digestivo Cultural.

Por Guga Schultze

Uma das melhores leituras, em 2007, foi o best-seller de Richard Dawkins, Deus, um delírio (Companhia das Letras, 2007, 528 págs.). Julio Daio Borges, nosso editor, já escreveu sobre ele aqui, no Digestivo Cultural. A ousadia de Dawkins é bastante explícita, a ponto de protegê-lo da acusação de pretensioso ou arrogante, porque Dawkins se coloca de cara na linha de tiro, declarando a intenção de converter o leitor ao ateísmo. Não dá pra acusá-lo de tentar uma catequese invertida, ou de fazer um proselitismo escuso. Ele diz, com todas as letras, que é isso mesmo o que ele está tentando fazer.

Dawkins tem coragem, ao mexer numa casa de marimbondos. Uma casa bem menor, hoje, do que nos tempos de Bertrand Russell, quando este lançou, por volta de 1957, Porque não sou cristão (Livraria Exposição do Livro, 1972) ou quando Herman Hesse cometeu pequenas mas instigantes heresias e apostasias em Demian. De qualquer forma, é preciso um mínimo de coragem para afrontar uma "insensatez generalizada, erguida em consenso, a ferro e fogo, sobre o Ocidente".

As críticas que Dawkins recebeu pela sua "virulência" são infundadas. Deus, um delírio é um livro suave, bastante bem-humorado, tranqüilo, até. Pese as falhas da tradução, que tornam muitas passagens mal articuladas, o livro é bastante claro, no seu todo. O tradutor parece que não acompanha bem o que Dawkins está dizendo, ou não entende bem o que ele diz, de forma que às vezes é literal demais, uma coisa perigosa quando se traduz do inglês, particularmente.

Dawkins vai contra a idéia de "deus", no geral. Por tabela, ataca a religião. A culpa não é de Dawkins apenas, já que a religião se apossou quase que totalmente de "deus", de forma que fica difícil pra qualquer um falar em deus fora da esfera da influência religiosa. As religiões se proclamaram, desde sempre, porta-vozes exclusivas da questão, não dando espaço para nenhuma outra forma de se tratar o assunto, a não ser nos próprios moldes, ou seja, transformaram "deus" em uma questão de fé, apenas.

O darwinismo de Dawkins é sofisticado e maleável ao ponto de ser uma interpretação a posteriori daqueles princípios básicos. Ele não repete Darwin, apenas se orienta por onde Darwin abriu caminho. E, evidentemente, Dawkins apresenta o evolucionismo como ferramenta para a compreensão da natureza, não como verdade em si. Dawkins pareceria dizer que "deus" também pode ser uma questão de investigação científica. Mas nem Dawkins escapou totalmente da imposição religiosa de "deus", de maneira que, quando descarta a idéia, está descartando o novelo religioso por inteiro.

No livro Cem anos de solidão, de García Márquez, o padre de Macondo vem visitar o velho patriarca, José Arcadio Buendía, que está meio louco, preso por cordas debaixo de uma castanheira. O padre vem humanitariamente fazer companhia ao velho e tenta ensinar o jogo de xadrez. Ao perceber que o jogo é uma batalha, o patriarca confunde o padre ao dizer que não concebe como duas facções inimigas podem concordar com as mesmas regras.

Algo parecido está em jogo no livro de Dawkins, na medida em que a religião apresenta apenas duas alternativas, como uma regra única para o jogo do ser humano à procura de suas origens: crer ou não crer em deus. Ou seja, crer, segundo a religião, é a única forma de encarar a hipótese de um criador. E, uma vez aceita a hipótese, apresenta-se ao crente a imagem religiosa de deus, com todas as suas implicações extremamente humanas e, por que não, absurdas. Dawkins escolhe não crer.

Dawkins recebeu pelo menos uma resposta, O delírio de Dawkins, livro de um casal de teólogos, Alister e Joanna McGrath. Bem escrito mas cheio de evasivas, não tem, nem de longe, o impacto natural que Dawkins provoca. Talvez mereça uma resposta de Dawkins, e os autores podem agradecer à boa sorte por ser Dawkins o debatedor e não Christopher Hitchens.

O livro de Dawkins é até um livro calmo. O mesmo não se pode dizer de Deus não é grande, do jornalista inglês, citado acima, Christopher Hitchens. Hitchens não é cientista e não tenta calmamente provar que está certo. Apenas detona a religião, baseado em suas experiências como jornalista, em sua capacidade de pensar por si mesmo e em seu desprezo agudo por enganações de toda espécie. Um verbo que Hitchens deve odiar, sem culpa, é "tergiversar".

Em comum, Hitchens e Dawkins defendem a moralidade natural do ser humano, em contraste com a necessidade dessa moral ser "soprada" dos altos escalões celestes, como insistem os pastores para o rebanho. Para Hitchens o comportamento das altas cúpulas celestiais, eclesiásticas e do rebanho inteiro chega a ser imoral.

Até aí eles estão parelhos, mas enquanto Dawkins se esforça pela volta de um iluminismo científico e, provavelmente, está atento às repercussões positivas do seu livro, Hitchens não está nem aí. Demarca friamente sua distância da procissão dos crentes, é brilhante sem tentar ser persuasivo e contundente até onde sua experiência nas letras (ou no jornalismo) lhe permite. Aceita tranqüilamente que "o mal", digamos assim, está presente no homem e independe da religião. Mas ridiculariza esse mesmo argumento quando é usado para justificar atrocidades cometidas em nome de deus. Hitchens não aceita irresponsabilidades e exige responsabilidade assumida.

Não pretendo me estender demais sobre os dois livros. Não caberia aqui. Basta apontá-los como boas leituras, de certa forma originais na medida em que são poucos os livros que "peitam" as crenças em geral.

Existem mais alguns dignos de nota, como o ótimo romance Um riso na catedral, do brasileiro Dalmy Gama, professor de literatura, que apresenta uma visão esclarecedora e original sobre crenças, crendices e o que pode estar por trás disso tudo. Outros, mais antigos (e surpreendentes por isso mesmo) como o já citado Porque não sou cristão, de Bertrand Russell e La desilusion de un sacerdote, de um ex-teólogo alemão radicado na Argentina, Franz Griese, são leituras pra lá de esclarecedoras.

A pergunta que geralmente se faz diante dessa controvérsia toda é: por que se preocupar com este assunto? Por que se ocupar com esse debate pró ou contra a religião e qual seria, afinal, a importância desse mesmo debate?

Há várias respostas pertinentes a essa pergunta. Uma delas, talvez a mais abrangente, é que pode mesmo ser necessário ao homem um aprofundamento da velha questão "quem somos, de onde viemos e para onde vamos". Na medida em que a religião pretende que essas perguntas fiquem inteiramente sob sua órbita de influência ou, pior, pretende responder de modo arbitrário a essas indagações, fornecendo nomes, datas, tamanho, modus operandi, endereço, objetivos e idéias da própria entidade conhecida como "o criador", o debate já se justifica.

Só o tamanho absurdo do cosmos, crescendo ao longo das últimas seis décadas (quando foi brutalmente ampliado), depõe, e de uma forma cada vez mais categórica, contra a pretensão humana de ser o centro das atenções do suposto criador desse mesmo cosmos.

Outra resposta possível, mais na esteira do livro de Hitchens, é que a religião, principalmente no Ocidente, firmou-se em bases extremas de ódio. Seis séculos de Inquisição são mais do que suficientes para qualquer religião ter criado seus opositores ferrenhos.

Ao contrário dos europeus, que sofreram diretamente vários flagelos religiosos, o cristão brasileiro não leva tão a sério sua própria fé. "Ouso dizer" (como diz Hitchens) que o o cristão tupiniquim é, geralmente, um despreocupado sem-vergonha. Menos mal. Não frequenta muito a igreja, não se confessa, escolhe no que acreditar, mistura crenças diversas, mantém comércios pessoais com santinhos, conhece a Bíblia de ouvir falar. Em suma, não conhecem bem a religião que professam e ficam meio perplexos com essa "tempestade em copo d'água", promovida por esses autores estrangeiros.

O próprio Leonardo Boff, figura que me parece a síntese do catolicismo brasileiro mais esclarecido ― ameno, humanista e bem-intencionado ―, molha a camisa tentando esclarecer para si e para outros cristãos a realidade da Inquisição, num longo prefácio ao livro mor do Tribunal do Santo Ofício, o Manual dos Inquisidores, usado pela Igreja durante alguns meros séculos. A herança dessa realidade ainda não se dissipou de todo.

Deus parece um tabu. Podemos sentir, em qualquer lugar, o desconforto gerado pela simples menção da divindade. A gente tolera, ainda com razoável simpatia, as expressões tipo "graças a deus" ou "pelo amor de deus" mas, mesmo essas, precisam ser instintivamente dosadas. Seu uso constante não faz bem pra imagem pessoal. Normalmente essas expressões são acompanhadas de rápidos olhares para cima e igualmente rápidas expressões faciais de desamparo. Suportáveis ainda numa tia sabidamente carola, mas não numa pessoa de quem se espera ouvir alguma coisa interessante. Basta alguém olhar para cima e dizer, com convicção, "deus seja louvado" para que a sua próxima frase sofra uma queda enorme no seu percentual de credibilidade.

São razões que talvez não interessem tanto a todo mundo. Ainda que praticamente todo mundo tenha sofrido pelo menos os ecos meio aterrorizantes de palavras cheias de ameaça contra sua integridade física, mental ou espiritual, como queiram. Mas, como diz a Bíblia, "tempo de semear, tempo de colher". E sem colher de chá.

Comentário: O autor mandou muito bem. Crítico, sem medo de expôr suas idéias, e com bastante coerência naquilo que diz. Sem mais comentários. Deixo a critério de vocês, leitores.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Respostas de Richard Dawkins às críticas de "Deus, um delírio"

Repostado de 1001 gatos.

NÃO SE PODE CRITICAR A RELIGIÃO SEM UMA ANÁLISE DETALHADA DE LIVROS ERUDITOS DE TEOLOGIA.

Best-seller-surpresa? Se eu tivesse me embrenhado, como um crítico intelectual consciente gostaria, nas diferenças epistemológicas entre Aquino e Duns Scotus; se tivesse feito jus a Erígena na questão da subjetividade, a Rahner na da graça ou a Moltmann na da esperança (como ele esperou em vão que eu fizesse), meu livro teria sido mais que um best-seller- surpresa: teria sido um best-seller milagroso. Mas a questão não é essa. Diferentemente de Stephen Hawking (que seguiu o conselho de que cada fórmula que ele publicasse reduziria as vendas pela metade), eu de bom grado abriria mão do status de best-seller caso houvesse a mais remota esperança de que Duns Scotus fosse iluminar minha questão central, se Deus existe ou não. A enorme maioria dos textos teológicos simplesmente assume que ele existe, e parte daí. Para os meus propósitos, preciso levar em conta apenas os teólogos que considerem a sério a possibilidade de que Deus não exista e argumentem por sua existência. Acho que isso o capítulo 3 faz, com — espero — bom humor e abrangência suficientes. Em termos de bom humor, não tenho como superar a esplêndida “Resposta do cortesão”, publicada por P. Z. Myers em seu blog Pharyngula.

Analisei as insolentes acusações do sr. Dawkins, exasperado com sua falta de seriedade acadêmica. Aparentemente, ele não leu os discursos detalhados do conde Roderigo de Sevilha sobre o couro singular e exótico das botas do imperador, nem dedica um segundo sequer à obra-prima de Bellini, Sobre a luminescência do chapéu de plumas do imperador. Temos escolas inteiras dedicadas a escrever tratados eruditos sobre a beleza dos trajes do imperador, e todos os grandes jornais têm uma seção dedicada à moda imperial; […] Dawkins ignora com arrogância todas essas ponderações filosóficas profundas e acusa cruelmente o imperador de nudez. […] Enquanto Dawkins não for treinado nas lojas de Paris e Milão, enquanto não aprender a distinguir um babado de uma pantalona, devemos todos fingir que ele não se manifestou contra o gosto do imperador. Sua educação em biologia pode lhe dar a capacidade de reconhecer genitálias balançantes quando vir uma, mas não o ensinou a apreciar adequadamente os Tecidos Imaginários.

Ampliando o argumento, a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante. A próxima crítica é parente desta: a grande crítica do “testa-de-ferro”.

VOCÊ SEMPRE ATACA O QUE HÁ DE PIOR NA RELIGIÃO E IGNORA O QUE HÁ DE MELHOR.

“Você persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard, Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou Bonhoeffer, que ensinam o tipo de religião em que acredito.” Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osama bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.

SOU ATEU, MAS QUERO ME DISSOCIAR DE SUA LINGUAGEM ESTRIDENTE, DESTEMPERADA E INTOLERANTE.

Na verdade, quando se analisa a linguagem de Deus, um delírio, ela é menos destemperada ou estridente do que a que achamos muito normal — quando ouvimos analistas políticos, por exemplo, ou críticos de teatro, arte ou literatura. Minha linguagem só soa contundente e destemperada por causa da estranha convenção, quase universalmente aceita (veja a citação de Douglas Adams nas páginas 45 e 46), de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica.

Em 1915, o parlamentar britânico Horatio Bottomley recomendou que, depois da guerra, “se por acaso num restaurante você descobrir que está sendo servido por um garçom alemão, jogue a sopa na cara suja dele; se você se vir sentado ao lado de um secretário alemão, vire o tinteiro na cabeça suja dele”. Isso, sim, é estridente e intolerante (e, eu teria pensado, ridículo e ineficaz como retórica mesmo para aquela época). Compare a frase com a que abre o capítulo 2, que é o trecho citado com mais freqüência como “estridente”. Não cabe a mim dizer se fui bem-sucedido, mas minha intenção estava mais próxima da de um golpe duro, mas bem-humorado, do que da polêmica histérica. Nas leituras em público de Deus, um delírio, esse é exatamente o trecho que garantidamente produz uma boa risada, e é por isso que minha mulher e eu sempre o usamos como abertura para quebrar o gelo com uma nova platéia. Se eu pudesse me aventurar a sugerir por que o humor funciona, acho que diria que é o desencontro incongruente entre um assunto que poderia ter sido expresso de forma estridente ou vulgar e a expressão real, numa lista compridíssima de latinismos ou pseudo-academicismos (”filicida”, “megalomaníaco”, “pestilento”).

Meu modelo aqui foi um dos escritores mais engraçados do século xx, e ninguém chamaria Evelyn Waugh de histérico ou estridente (até entreguei o jogo ao mencionar seu nome na anedota que vem logo depois, na página 55). Críticos de literatura ou de teatro podem ser zombeteiramente negativos e ganhar elogios pela contundência sagaz da resenha. Mas nas críticas à religião até a clareza deixa de ser virtude para soar como hostilidade. Um político pode atacar sem dó um adversário no plenário do Parlamento e receber aplausos por sua combatividade. Mas basta um crítico sóbrio e justificado da religião usar o que em outros contextos seria apenas um tom direto para a sociedade polida balançar a cabeça em desaprovacão; até a sociedade polida laica, e especialmente aquela parte da sociedade laica que adora anunciar: “Sou ateu, MAS…”.

VOCÊ SÓ ESTÁ PREGANDO PARA OS JÁ CONVERTIDOS. DE QUE ADIANTA?

O “Cantinho dos Convertidos” no RichardDawkins.net já invalida a mentira, mas mesmo que a levássemos a sério há boas respostas. Uma é que o coro dos descrentes é bem maior do que muita gente imagina, sobretudo nos Estados Unidos. Mas, de novo sobretudo nos Estados Unidos, é em grande parte um coro “no armário”, e precisa desesperadamente de incentivo para sair dele. A julgar pêlos agradecimentos que recebi em toda a turnê americana do lançamento do livro, o incentivo dado por pessoas como Sam Harris, Dan Dennett, Christopher Hitchens e por mim é bastante apreciado. Uma razão mais sutil para pregar aos já convertidos é a necessidade de conscientização. Quando as feministas nos conscientizaram sobre os pronomes sexistas, elas estariam pregando só aos já convertidos no que se referia a questões mais significativas dos direitos das mulheres e dos males da discriminação. Mas aquele coro decente e liberal ainda precisava ser conscientizado sobre a linguagem do dia-a-dia. Por mais atualizados que estivéssemos nas questões políticas relativas aos direitos e à discriminação, ainda assim adotávamos inconscientemente convenções que faziam metade da raça humana sentir-se excluída.

Há outras convenções lingüísticas que precisam seguir o mesmo caminho dos pronomes sexistas, e o coro ateísta não é exceção. Todos nós precisamos ser conscientizados. Tanto ateus como teístas observam inconscientemente a convenção da sociedade … de que devemos ser especialmente polidos e respeitadores em relação à fé. E nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões religiosas de seus pais. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que — por consenso quase universal — pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é suaopinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos. Use todas as oportunidades para marcar essa posição.

VOCÊ É TÃO FUNDAMENTALISTA QUANTO AQUELES QUE CRITICA.

Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução, e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado.

Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso. A citação de Kurt Wise na página 366 diz tudo: “[…] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é minha posição”. A diferença entre esse tipo de compro¬misso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências. Como disse J. B. S. Haldane, quando questionado sobre que tipo de evidência poderia contradizer a evolução: “Fósseis de coelho no Pré-cambriano”. Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente. Na atual situação, porém, todas as evidências disponíveis (e há uma quantidade enorme delas) sustentam a evolução. É por esse motivo, e apenas por esse motivo, que defendo a evolução com uma paixão comparável à paixão daqueles que a atacam. Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”.

SOU ATEU, MAS A RELIGIÃO VAI PERSISTIR. CONFORME-SE.

“Você quer se ver livre da religião? Boa sorte! Você acha que vai conseguir se ver livre da religião? Em que planeta você vive? A religião faz parte dele. Esqueça isso!” Eu agüentaria qualquer um desses argumentos, se eles fos¬sem ditos num tom que chegasse pelo menos perto do da pena ou da preocupação. Pelo contrário. O tom de voz é às vezes até alegrinho. Não acho que se trate de masoquismo. O mais provável é que possamos de novo classificar o fenômeno como a “crença na crença”. Essa gente pode não ser religiosa, mas adora a idéia de que os outros sejam. O que me leva à categoria final das minhas réplicas.

SOU ATEU, MAS AS PESSOAS PRECISAM DA RELIGIÃO.

“O que você vai colocar no lugar dela? Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?”Quanta condescendência! “Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião.” Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra “baixar o nível”. Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que “baixar o nível” poderia ser necessário para “trazer as minorias e as mulheres para a ciência”. Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as “minorias” da platéia acharam. Voltando à necessidade de consolo da humanidade, ela existe, é claro, mas não há alguma infantilidade na crença de que o universo nos deve um consolo, como de direito? A afirmação de Isaac Asimov sobre a infantilidade da pseudociência é igualmente aplicável à religião: “Vasculhe cada exemplar da pseudociência e você encontrará um cobertorzinho de estimação, um dedo para chupar, uma saia para segurar”. É impressionante, além do mais, a quantidade de gente que não consegue entender que “X é um consolo” não significa “X é verdade”. Uma crítica análoga a essa trata da necessidade de um “propósito” na vida. Citando um crítico canadense:

Os ateus podem estar certos sobre Deus. Vai saber. Mas, com Deus ou sem Deus, fica claro que há algo na alma humana que demanda a crença de que a vida tem um objetivo que transcende o plano material. Era de imaginar que um empiricista do tipo mais-racional-que-vós como Dawkins reconhecesse esse aspecto imutável da natureza humana […] Será que Dawkins acha mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se todos nós procurássemos a verdade e o consolo em Deus, um delírio e não na Bíblia?

Na verdade sim, já que você mencionou “humano”, sim, acho, mas devo repetir, mais uma vez, que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade. É claro que não posso negar a necessidade de consolo emocional, e não tenho como defender que a visão de mundo adotada neste livro ofereça um consolo mais que apenas moderado para, por exemplo, quem perdeu um ente querido. Mas, se o consolo que a religião parece oferecer se fundamenta na premissa neurologicamente implausibilíssima de que sobrevivemos à morte de nosso cérebro, você está mesmo disposto a defendê-lo? De qualquer maneira, acho que nunca encontrei ninguém que não concorde que, nas cerimônias fúnebres, as partes não religiosas (homenagens, poemas ou músicas favoritas do falecido) são mais tocantes que as orações.

Depois de ler Deus, um delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico, escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, deseu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de contribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num evento no público local. O garoto era obviamente muito querido. Quando li o livreto da cerimónia fúnebre, chorei, literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no RichardDawkins.net. Um gaitista solitário tocou o lamento local “Ellen Vallin”. Dois amigos fizeram discursos de homenagem, e o dr. Ashton recitou o belo poema “Fern Hill” [”Monte das samambaias”] (”Era eu jovem e tranqüilo, debaixo das macieiras” — que evoca tão dolorosamente a juventude perdida). E então, e tenho de respirar fundo para contar, ele leu as primeiras linhas de meu Desvendando o arco-íris, linhas que havia tempos eu tinha separado para o meu próprio enterro.

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…

Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento, contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme maioria jamais nem saiu?

É óbvio que há exceções, mas suspeito que para muitas pessoas o principal motivo de se agarrarem à religião não seja o fato de ela oferecer consolo, e sim o de elas terem sido iludidas por nosso sistema educacional e não se darem conta de que podem não acreditar. Decerto é assim para a maioria das pessoas que acham que são criacionistas. Simplesmente não ensinaram direito a elas a impressionante alternativa de Darwin. É provável que o mesmo aconteça com o mito depreciativo de que as pessoas “precisam” da religião. Numa conferência recente, em 2006, um antropólogo (e exemplar perfeito do tipo eu-sou-ateu-mas) citou a resposta de Golda Meir quando questionada se acreditava em Deus: “Acredito no povo judaico, e o povo judaico acredita em Deus”. Nosso antropólogo usou sua própria versão: “Acredito nas pessoas, e as pessoas acreditam em Deus”. Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada — uma vida livre de verdade.