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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Ciência sob Ataque


Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos. Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias "alternativas" ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes) mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.

Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual, como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais afinados com o "Zeitgeist". O inquietante no caso brasileiro é que os ataques partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra, representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos, embora não costumem militar nas fileiras da "hard science", são --ou deveriam ser-- aquilo que antigamente chamávamos de "Geistwissenschaftler", ou seja, simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.

Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos. De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do qual tem emergido muito material interessante para "insights" e reflexões. Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como "reducionistas" --o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se, por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos. Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado? Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados, como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável para as "cobaias" e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização da Justiça.

Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética --equivocadamente, ressalte-se-- que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral, acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas doenças incapacitantes.

Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista social --ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada-- se oponha à realização de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes "Geistwissenschaftler" estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros n'água --possibilidade bastante real-- que critiquem, como convém ao método científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.

Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos "neocons" dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.

Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga, mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável, se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados em questões abertas a escrutínio religioso.

Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas. Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado --e nunca falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes a novas classes de antibióticos.

O criacionismo em sua mais nova roupagem --o tal do design inteligente-- sustenta que a evolução é "apenas" uma teoria e cheia de supostas dificuldades, como se tudo em ciência não fosse "apenas uma teoria", aí incluída a teoria da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais para ter surgido "por acaso": se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.

"Non sequitur", que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.

O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico e já socialmente orientados a "aceitar a palavra de Deus". Admitir que padres e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida com base em convicções pessoais ou maiorias.

E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus. Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas. Só que estas não lhe cabem.

O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno. Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.

Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.E-mail: helio@folhasp.com.br

A fé na Ciência


Post original de 07/02/2008

Minha coluna da semana passada, em que defendi a ciência de ataques neocriacionistas e "humanitários", gerou mais controvérsia do que eu poderia supor. Leitores questionaram-me acerca da eugenia, das bases epistemológicas do darwinismo, do caráter laico do Estado e até da validade do discurso científico. Acreditar na ciência, sugeriram alguns, exige tanta fé quanto crer em Deus.

Será? Aceito a provocação, de modo que vou tentar mostrar hoje por que a ciência não é uma religião.

Comecemos pelas semelhanças. Como qualquer um que já abriu um livro de epistemologia sabe, a ciência busca seus fundamentos em meia dúzia de postulados, ou seja, de premissas que, a exemplo dos dogmas religiosos, são tomadas como auto-evidentes, isto é, consideradas verdadeiras sem necessidade demonstração. Para o monoteísmo, sentenças como "Deus criou o mundo" constituem verdades inquestionáveis. Já na ciência, quem desempenha esse papel são princípios como o de identidade e o de não-contradição. O primeiro afirma que, se A=A, então A=A, e o segundo reza que, se A=não-B, na ocorrência de A não ocorre B, e vice-versa. Convenhamos que não são idéias revolucionárias e nem mesmo particularmente brilhantes, mas já aí começam a emergir algumas das diferenças entre ciência e religião.

Um juízo como "Deus criou o mundo" é contingente, ou seja, eu posso, ainda que apenas no plano da lógica, conceber um mundo criado pelo acaso, pelo diabo ou até pelo presidente Lula ("nunca antes na história desse universo..."). Já os postulados científicos são em tese mais fortes, pois lidam com juízos necessários: para imaginar que uma coisa seja diversa dela mesma, eu preciso renegar ou pelo menos suspender os fundamentos da lógica.
Até aqui, a vantagem é da religião. Ela já está emitindo pareceres sobre o mundo, enquanto a ciência permanece presa ao reino das abstrações matemáticas. Se queremos que a ciência fale sobre o mundo --e, para possuir alguma utilidade, ela tem de fazê-lo--, precisamos dar um passo temerário. Precisamos autorizá-la a lidar com induções, ou seja, admitir que, partindo de casos particulares observados, proceda a generalizações. Exemplo: o sol nasceu hoje e em todos os dias que antecederam o dia de hoje, logo, o sol nascerá também amanhã. Ao aceitar esse tipo de raciocínio, conquistamos o direito de proferir juízos sobre a realidade física, mas sacrificamos o plano sólido das certezas matemáticas no qual antes caminhávamos. Com efeito, o fato de o sol ter nascido todos os dias no passado não encerra a garantia lógica de que também nascerá amanhã. Isso é no máximo muito provável, mas de maneira alguma necessário.

Por paradoxal que pareça, esse súbito rebaixamento do grau de certeza com que lidam as ciências é uma excelente notícia. Juízos científicos tornam-se daqui em diante verdades provisórias. Não contam mais com nenhum tipo de garantia lógica, uma vez que se baseiam em meros encadeamentos entre experiências passadas e raciocínios generalizantes --processo que sabemos falível e propenso a erro.

Assim a ciência, diferentemente da maioria das religiões, perde o direito até mesmo de pretender afirmar verdades acabadas. Tudo que ela pode fazer é gerar hipóteses a ser testadas e refutadas empiricamente. Quando essas suposições passam muito tempo sem ser cabalmente desmentidas, como é o caso da evolução mediante seleção natural, dizemos que são corroboradas. É claro que esse é um processo em aberto, pois o fato de não terem sido refutadas até aqui não encerra a garantia de que não o serão amanhã. Isso é o mais perto da "prova" que a ciência pode chegar.

Essa precariedade epistemológica cerca toda a ciência, do neordarwinismo, à chamada lei da gravidade. Embora não ouçamos com muita freqüência gente afirmando que a gravidade é "só uma teoria", é exatamente isso que ela é. O que o neocriacionismo travestido de 'design inteligente' faz é embaralhar o sentido de teoria em suas acepções fraca (a do dia a dia) e forte (epistemológica) para, em meio à confusão conceitual, semear seus pressupostos algo dogmáticos. O fato de o neoevolucionismo apresentar, como toda teoria, algumas lacunas de maneira alguma nos autoriza a inferir um deus logo à primeira dificuldade.

A incerteza e a subseqüente maleabilidade da ciência vão ainda mais longe. No limite, ela admite até que seus próprios "dogmas" sejam revistos. Algumas hipóteses da mecânica quântica, por exemplo, vão de encontro ao princípio da não-contradição. Seria como se a religião negasse Deus em determinadas situações. Os dogmas da ciência se articulam de maneira tão particular que a tornam o menos dogmático dos discursos.

É claro que estamos aqui falando na teoria. No mundo real, encontraremos cientistas tão fanáticos quanto o mais exaltado dos padres inquisidores. Encontraremos indivíduos que de bom grado mandariam queimar todos os que ousassem desafiar o "mainstream" científico. Ainda assim, é digno de nota o fato de que, enquanto a religião só existe com o dogma, a ciência como método trabalha para falsear idéias aceitas e noções estabelecidas --em uma palavra, para falsear dogmas. Não acho que eu avance muito o sinal quando afirmo que essa diferença ajuda a explicar o fato de que mesmo o mais tacanho positivismo produziu menos fogueiras do que a mais tolerante das religiões.

Podemos eventualmente nos deparar com um cético radical, para o qual dogmas, postulados e axiomas são todos indiscerníveis entre si e valem a mesma coisa, isto é, nada. É oportuno lembrar que o filósofo e matemático austríaco Kurt Gödel (1906-78), com seus teoremas da incompletude, se não colocou em xeque, ao menos criou dificuldades para a própria lógica formal. Mas, mesmo nesse registro hiperbólico, a ciência apresenta vantagens sobre as religiões.

Ela tem como subproduto tecnologias, que constituem uma "prova" indireta não tanto de sua "exatidão", mas pelo menos de que o métodos científico leva a algum lugar. O foguete que eu construo com base em minhas idéias sobre a física, desde que corretamente lançado, me levará à Lua quer eu seja judeu, ateu, católico, muçulmano ou corintiano. Já com as religiões, as mesmas ações que levariam o partidário de uma ao paraíso atiram-no no inferno segundo a doutrina da outra.

Tomemos uma dessas medidas indiretas, a evolução da expectativa de vida ao nascer. Estima-se que o tempo médio de vida do homem de Neanderthal fosse de 20 anos. No Paleolítico Superior, o Homo sapiens chegava a algo como 33 anos. Na Idade do Bronze, com o advento da agricultura e o aumento do tamanho dos assentamentos humanos (mais doenças e guerras mais mortíferas), a expectativa de vida cai para 18 anos. Noções de higiene desenvolvidas por gregos e romanos (saneamento) conseguem elevar a média para 36-45 (Grécia clássica) 20-30 (Roma clássica). Mas, no século 20 e início do 21, na chamada era científica, assistimos a um um verdadeiro salto da esperança de vida, que atinge os 67 anos (média global), quase 80 se considerarmos só os países desenvolvidos. Um cético hiperbólico diria que a correlação nada prova. Um dogmático religioso diria que este é o plano de Deus. Já eu prefiro atribuir tal avanço a subprodutos da ciência como antibióticos, vacinas e grandes excedentes agrícolas. Em poucas palavras, embora a ciência esteja conosco de forma razoavelmente bem estabelecida há apenas 200 anos, já fez mais pelo bem-estar da humanidade do que todas as rezas e mandingas de religiosos durante milênios.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Respostas de Richard Dawkins às críticas de "Deus, um delírio"

Repostado de 1001 gatos.

NÃO SE PODE CRITICAR A RELIGIÃO SEM UMA ANÁLISE DETALHADA DE LIVROS ERUDITOS DE TEOLOGIA.

Best-seller-surpresa? Se eu tivesse me embrenhado, como um crítico intelectual consciente gostaria, nas diferenças epistemológicas entre Aquino e Duns Scotus; se tivesse feito jus a Erígena na questão da subjetividade, a Rahner na da graça ou a Moltmann na da esperança (como ele esperou em vão que eu fizesse), meu livro teria sido mais que um best-seller- surpresa: teria sido um best-seller milagroso. Mas a questão não é essa. Diferentemente de Stephen Hawking (que seguiu o conselho de que cada fórmula que ele publicasse reduziria as vendas pela metade), eu de bom grado abriria mão do status de best-seller caso houvesse a mais remota esperança de que Duns Scotus fosse iluminar minha questão central, se Deus existe ou não. A enorme maioria dos textos teológicos simplesmente assume que ele existe, e parte daí. Para os meus propósitos, preciso levar em conta apenas os teólogos que considerem a sério a possibilidade de que Deus não exista e argumentem por sua existência. Acho que isso o capítulo 3 faz, com — espero — bom humor e abrangência suficientes. Em termos de bom humor, não tenho como superar a esplêndida “Resposta do cortesão”, publicada por P. Z. Myers em seu blog Pharyngula.

Analisei as insolentes acusações do sr. Dawkins, exasperado com sua falta de seriedade acadêmica. Aparentemente, ele não leu os discursos detalhados do conde Roderigo de Sevilha sobre o couro singular e exótico das botas do imperador, nem dedica um segundo sequer à obra-prima de Bellini, Sobre a luminescência do chapéu de plumas do imperador. Temos escolas inteiras dedicadas a escrever tratados eruditos sobre a beleza dos trajes do imperador, e todos os grandes jornais têm uma seção dedicada à moda imperial; […] Dawkins ignora com arrogância todas essas ponderações filosóficas profundas e acusa cruelmente o imperador de nudez. […] Enquanto Dawkins não for treinado nas lojas de Paris e Milão, enquanto não aprender a distinguir um babado de uma pantalona, devemos todos fingir que ele não se manifestou contra o gosto do imperador. Sua educação em biologia pode lhe dar a capacidade de reconhecer genitálias balançantes quando vir uma, mas não o ensinou a apreciar adequadamente os Tecidos Imaginários.

Ampliando o argumento, a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante. A próxima crítica é parente desta: a grande crítica do “testa-de-ferro”.

VOCÊ SEMPRE ATACA O QUE HÁ DE PIOR NA RELIGIÃO E IGNORA O QUE HÁ DE MELHOR.

“Você persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard, Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou Bonhoeffer, que ensinam o tipo de religião em que acredito.” Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osama bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.

SOU ATEU, MAS QUERO ME DISSOCIAR DE SUA LINGUAGEM ESTRIDENTE, DESTEMPERADA E INTOLERANTE.

Na verdade, quando se analisa a linguagem de Deus, um delírio, ela é menos destemperada ou estridente do que a que achamos muito normal — quando ouvimos analistas políticos, por exemplo, ou críticos de teatro, arte ou literatura. Minha linguagem só soa contundente e destemperada por causa da estranha convenção, quase universalmente aceita (veja a citação de Douglas Adams nas páginas 45 e 46), de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica.

Em 1915, o parlamentar britânico Horatio Bottomley recomendou que, depois da guerra, “se por acaso num restaurante você descobrir que está sendo servido por um garçom alemão, jogue a sopa na cara suja dele; se você se vir sentado ao lado de um secretário alemão, vire o tinteiro na cabeça suja dele”. Isso, sim, é estridente e intolerante (e, eu teria pensado, ridículo e ineficaz como retórica mesmo para aquela época). Compare a frase com a que abre o capítulo 2, que é o trecho citado com mais freqüência como “estridente”. Não cabe a mim dizer se fui bem-sucedido, mas minha intenção estava mais próxima da de um golpe duro, mas bem-humorado, do que da polêmica histérica. Nas leituras em público de Deus, um delírio, esse é exatamente o trecho que garantidamente produz uma boa risada, e é por isso que minha mulher e eu sempre o usamos como abertura para quebrar o gelo com uma nova platéia. Se eu pudesse me aventurar a sugerir por que o humor funciona, acho que diria que é o desencontro incongruente entre um assunto que poderia ter sido expresso de forma estridente ou vulgar e a expressão real, numa lista compridíssima de latinismos ou pseudo-academicismos (”filicida”, “megalomaníaco”, “pestilento”).

Meu modelo aqui foi um dos escritores mais engraçados do século xx, e ninguém chamaria Evelyn Waugh de histérico ou estridente (até entreguei o jogo ao mencionar seu nome na anedota que vem logo depois, na página 55). Críticos de literatura ou de teatro podem ser zombeteiramente negativos e ganhar elogios pela contundência sagaz da resenha. Mas nas críticas à religião até a clareza deixa de ser virtude para soar como hostilidade. Um político pode atacar sem dó um adversário no plenário do Parlamento e receber aplausos por sua combatividade. Mas basta um crítico sóbrio e justificado da religião usar o que em outros contextos seria apenas um tom direto para a sociedade polida balançar a cabeça em desaprovacão; até a sociedade polida laica, e especialmente aquela parte da sociedade laica que adora anunciar: “Sou ateu, MAS…”.

VOCÊ SÓ ESTÁ PREGANDO PARA OS JÁ CONVERTIDOS. DE QUE ADIANTA?

O “Cantinho dos Convertidos” no RichardDawkins.net já invalida a mentira, mas mesmo que a levássemos a sério há boas respostas. Uma é que o coro dos descrentes é bem maior do que muita gente imagina, sobretudo nos Estados Unidos. Mas, de novo sobretudo nos Estados Unidos, é em grande parte um coro “no armário”, e precisa desesperadamente de incentivo para sair dele. A julgar pêlos agradecimentos que recebi em toda a turnê americana do lançamento do livro, o incentivo dado por pessoas como Sam Harris, Dan Dennett, Christopher Hitchens e por mim é bastante apreciado. Uma razão mais sutil para pregar aos já convertidos é a necessidade de conscientização. Quando as feministas nos conscientizaram sobre os pronomes sexistas, elas estariam pregando só aos já convertidos no que se referia a questões mais significativas dos direitos das mulheres e dos males da discriminação. Mas aquele coro decente e liberal ainda precisava ser conscientizado sobre a linguagem do dia-a-dia. Por mais atualizados que estivéssemos nas questões políticas relativas aos direitos e à discriminação, ainda assim adotávamos inconscientemente convenções que faziam metade da raça humana sentir-se excluída.

Há outras convenções lingüísticas que precisam seguir o mesmo caminho dos pronomes sexistas, e o coro ateísta não é exceção. Todos nós precisamos ser conscientizados. Tanto ateus como teístas observam inconscientemente a convenção da sociedade … de que devemos ser especialmente polidos e respeitadores em relação à fé. E nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões religiosas de seus pais. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que — por consenso quase universal — pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é suaopinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos. Use todas as oportunidades para marcar essa posição.

VOCÊ É TÃO FUNDAMENTALISTA QUANTO AQUELES QUE CRITICA.

Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução, e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado.

Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso. A citação de Kurt Wise na página 366 diz tudo: “[…] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é minha posição”. A diferença entre esse tipo de compro¬misso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências. Como disse J. B. S. Haldane, quando questionado sobre que tipo de evidência poderia contradizer a evolução: “Fósseis de coelho no Pré-cambriano”. Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente. Na atual situação, porém, todas as evidências disponíveis (e há uma quantidade enorme delas) sustentam a evolução. É por esse motivo, e apenas por esse motivo, que defendo a evolução com uma paixão comparável à paixão daqueles que a atacam. Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”.

SOU ATEU, MAS A RELIGIÃO VAI PERSISTIR. CONFORME-SE.

“Você quer se ver livre da religião? Boa sorte! Você acha que vai conseguir se ver livre da religião? Em que planeta você vive? A religião faz parte dele. Esqueça isso!” Eu agüentaria qualquer um desses argumentos, se eles fos¬sem ditos num tom que chegasse pelo menos perto do da pena ou da preocupação. Pelo contrário. O tom de voz é às vezes até alegrinho. Não acho que se trate de masoquismo. O mais provável é que possamos de novo classificar o fenômeno como a “crença na crença”. Essa gente pode não ser religiosa, mas adora a idéia de que os outros sejam. O que me leva à categoria final das minhas réplicas.

SOU ATEU, MAS AS PESSOAS PRECISAM DA RELIGIÃO.

“O que você vai colocar no lugar dela? Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?”Quanta condescendência! “Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião.” Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra “baixar o nível”. Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que “baixar o nível” poderia ser necessário para “trazer as minorias e as mulheres para a ciência”. Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as “minorias” da platéia acharam. Voltando à necessidade de consolo da humanidade, ela existe, é claro, mas não há alguma infantilidade na crença de que o universo nos deve um consolo, como de direito? A afirmação de Isaac Asimov sobre a infantilidade da pseudociência é igualmente aplicável à religião: “Vasculhe cada exemplar da pseudociência e você encontrará um cobertorzinho de estimação, um dedo para chupar, uma saia para segurar”. É impressionante, além do mais, a quantidade de gente que não consegue entender que “X é um consolo” não significa “X é verdade”. Uma crítica análoga a essa trata da necessidade de um “propósito” na vida. Citando um crítico canadense:

Os ateus podem estar certos sobre Deus. Vai saber. Mas, com Deus ou sem Deus, fica claro que há algo na alma humana que demanda a crença de que a vida tem um objetivo que transcende o plano material. Era de imaginar que um empiricista do tipo mais-racional-que-vós como Dawkins reconhecesse esse aspecto imutável da natureza humana […] Será que Dawkins acha mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se todos nós procurássemos a verdade e o consolo em Deus, um delírio e não na Bíblia?

Na verdade sim, já que você mencionou “humano”, sim, acho, mas devo repetir, mais uma vez, que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade. É claro que não posso negar a necessidade de consolo emocional, e não tenho como defender que a visão de mundo adotada neste livro ofereça um consolo mais que apenas moderado para, por exemplo, quem perdeu um ente querido. Mas, se o consolo que a religião parece oferecer se fundamenta na premissa neurologicamente implausibilíssima de que sobrevivemos à morte de nosso cérebro, você está mesmo disposto a defendê-lo? De qualquer maneira, acho que nunca encontrei ninguém que não concorde que, nas cerimônias fúnebres, as partes não religiosas (homenagens, poemas ou músicas favoritas do falecido) são mais tocantes que as orações.

Depois de ler Deus, um delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico, escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, deseu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de contribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num evento no público local. O garoto era obviamente muito querido. Quando li o livreto da cerimónia fúnebre, chorei, literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no RichardDawkins.net. Um gaitista solitário tocou o lamento local “Ellen Vallin”. Dois amigos fizeram discursos de homenagem, e o dr. Ashton recitou o belo poema “Fern Hill” [”Monte das samambaias”] (”Era eu jovem e tranqüilo, debaixo das macieiras” — que evoca tão dolorosamente a juventude perdida). E então, e tenho de respirar fundo para contar, ele leu as primeiras linhas de meu Desvendando o arco-íris, linhas que havia tempos eu tinha separado para o meu próprio enterro.

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…

Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento, contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme maioria jamais nem saiu?

É óbvio que há exceções, mas suspeito que para muitas pessoas o principal motivo de se agarrarem à religião não seja o fato de ela oferecer consolo, e sim o de elas terem sido iludidas por nosso sistema educacional e não se darem conta de que podem não acreditar. Decerto é assim para a maioria das pessoas que acham que são criacionistas. Simplesmente não ensinaram direito a elas a impressionante alternativa de Darwin. É provável que o mesmo aconteça com o mito depreciativo de que as pessoas “precisam” da religião. Numa conferência recente, em 2006, um antropólogo (e exemplar perfeito do tipo eu-sou-ateu-mas) citou a resposta de Golda Meir quando questionada se acreditava em Deus: “Acredito no povo judaico, e o povo judaico acredita em Deus”. Nosso antropólogo usou sua própria versão: “Acredito nas pessoas, e as pessoas acreditam em Deus”. Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada — uma vida livre de verdade.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Vídeo: Richard Dawkins explica que não é errado ter fé

Claro, desde que seja fé no método científico. Vídeo antigo legendado por Daniel Vasques.
Curtíssimo, pouco mais de um minuto de duração.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

34 Argumentos Pouco Convincentes a Favor de Deus

Achei esse texto muito interessante no site Ateus do Brasil e vou repostá-lo aqui. Não tenho o hábito, mas qualquer site que tenha por princípio o ateísmo precisa incluir, entre seus textos, esse aqui. Agradeço a Fernando Silva pelo link.

Ateísmo — a ausência de crença em deuses — se baseia na falta de evidências de que deuses existam, falta de motivos para crer em deuses e nas dificuldades e contradições geradas pelo conceito de deus. No entanto, o ateísmo permanece uma hipótese, sujeita a mudanças se argumentos teístas convincentes surgirem.

A seguir, apresentamos alguns dos argumentos que ateus examinaram e algumas das razões pelas quais os rejeitaram.

1) Deus das Lacunas (Deus sendo o “almoço grátis”)

A maioria das “provas” de que deuses existem se baseiam, pelo menos em parte, no argumento do Deus das lacunas. Este argumento diz que se nós não temos a resposta para alguma coisa, então “Foi Deus”. “Deus” se torna a explicação padrão, mesmo sem evidências. Mas será que dizer que “Foi Deus” é realmente uma resposta?

William Dembski, defensor do “Design Inteligente”, publicou um livro chamado “Não existe almoço grátis”. Entretanto, Deus é o “almoço grátis” derradeiro. Consideremos isto:

  • Não sabemos do que deuses são compostos.
  • Não sabemos quais são os atributos dos deuses.
  • Não sabemos quantos deuses existem.
  • Não sabemos onde estão os deuses.
  • Não sabemos de onde vêm os deuses ou, visto de outra forma, como é possível que eles sempre tenham existido.
  • Não sabemos de que modo os deuses criam ou modificam as coisas.
  • Não sabemos o que é o “sobrenatural” e nem de que forma ele consegue interagir com o mundo natural.

Em outras palavras, não sabemos absolutamente nada sobre deuses — e, no entanto, um monte de gente atribui um monte de coisas a um ou mais deuses.

Portanto, dizer que “foi Deus” é responder a uma pergunta com outra pergunta. Não traz nenhuma informação e apenas complica ainda mais a pergunta original.

O argumento do Deus das lacunas afirma que não apenas nós não temos uma resposta não sobrenatural hoje, mas que nós nunca descobriremos uma resposta não sobrenatural no futuro porque uma resposta não sobrenatural não é possível. Assim, para contestar um argumento “Deus das lacunas”, temos apenas que mostrar que é possível imaginar uma resposta não sobrenatural.

Por exemplo: abrimos uma porta e vemos um gato dormindo num canto. Fechamos a porta, abrimos de novo 5 minutos depois e notamos que o gato agora está dormindo no outro canto. Uma pessoa diz “Deus moveu o gato sem acordá-lo” (mas não prova). Outra diz “É bem possível que o gato tenha acordado, andado até o outro canto e dormido de novo”. Deste modo, embora ninguém tenha visto o que realmente aconteceu, o argumento “Deus das lacunas” foi descartado pela possibilidade de se explicar o fenômeno sem apelar para causas sobrenaturais.

2) Ter fé numa coisa não a torna realidade

O fato é que ninguém nem ao menos sabe se é possível existirem deuses. Só porque conseguimos imaginar alguma coisa, não significa que ela seja possível. Por exemplo, podemos nos imaginar atravessando paredes sólidas, mas isto não quer dizer que vamos conseguir. Assim, só porque conseguimos imaginar um deus, não significa que ele tenha que existir.

Como não há provas quanto à existência de nenhum deus, um crente típico tem que presumir a existência de pelo menos nove coisas até chegar ao deus em que ele acredita. São nove passos separados porque um passo não implica no passo seguinte.

  • O primeiro passo é acreditar na existência de um mundo sobrenatural.
  • O segundo passo, que existam seres de algum tipo nesse mundo.
  • O terceiro, que estes seres sejam conscientes.
  • O quarto, que pelo menos um destes seres seja eterno.
  • O quinto, que este ser seja capaz de criar alguma coisa do nada.
  • O sexto, que este ser seja capaz de interferir no universo depois de criá-lo (e.g. milagres).
  • O sétimo, oitavo e nono, que este ser seja onisciente, onipotente e infinitamente amoroso.

Se, ainda por cima, as pessoas quiserem acreditar no deus de uma religião específica, então passos adicionais são necessários.

Desta forma, quando falamos em deuses, não temos absolutamente nenhuma idéia do que estamos falando (veja argumento inconvincente #1) e ainda temos que assumir a existência de 9 coisas diferentes para chegarmos ao deus em que a maioria das pessoas acredita.

3) Argumento dos livros sagrados

Só porque algo está escrito, não significa que é verdade. Isto é válido para a Bíblia, para o Corão e para qualquer outro livro dito sagrado. Tentar provar a existência do deus de um livro sagrado usando o próprio livro sagrado como “evidência” é argumentação circular.

Quem acredita no livro sagrado de uma religião em geral rejeita os livros sagrados das outras religiões.

4) Argumento dos lugares históricos

Este argumento afirma que, se personagens e lugares históricos são mencionados em lendas antigas, então tudo o mais nessas lendas, incluindo descrições de acontecimentos sobrenaturais, tem que ser verdade. Se este argumento for válido, então tudo o que está na Ilíada, incluindo as intervenções dos antigos deuses gregos, deve ser verdade.

5) Revelações dos profetas

Todas as religiões afirmam ter sido reveladas, em geral por meio de pessoas denominadas “profetas”. Mas como saber se uma “revelação” é realmente uma “mensagem de Deus” e não uma alucinação?

Uma revelação é uma experiência pessoal. Mesmo se uma revelação realmente vier de um deus, não há como provar. As pessoas de uma religião em geral não acreditam nas revelações das outras religiões. Essas revelações muitas vezes se contradizem, portanto com base em quê podemos determinar qual das revelações é a verdadeira?

6) Testemunho pessoal, “abrir o coração”

Isto acontece quando é você mesmo que recebe a revelação ou sente que um deus realmente existe. Você pode até ser sincero e pode ser até que um deus realmente exista, mas sentimentos não provam nada, nem para você e nem para os outros.

Não adianta pedir aos ateus que “abram seus corações e aceitem Jesus” (ou qualquer outro deus). Se nós abandonássemos nosso ceticismo, talvez até sentíssemos alguma inspiração, mas isto seria apenas uma experiência emocional e não teríamos como saber se um deus estaria realmente falando conosco ou se estaríamos apenas alucinando.

Muitos ateus contam histórias sobre como foi maravilhoso quando eles perderam a fé nos deuses, mas, assim como na religião, isto não prova que o ateísmo é verdade.

7) A maioria das pessoas acredita em Deus

É verdade que, ao longo da história, a maioria das pessoas acreditou em pelo menos um deus. Entretanto, popularidade não transforma nada em verdade. Afinal, a maioria das pessoas acreditava que a Terra era o centro do universo.

O número de ateus no mundo está aumentando, atualmente. Talvez um dia a maioria das pessoas seja atéia. Por exemplo, a maioria dos cientistas nos EUA já é atéia. Entretanto, assim como no caso da religião, a popularidade crescente do ateísmo não prova que ele é verdade.

É bem possível que já haja mais ateus do que crentes na Inglaterra e na França. Será que isto quer dizer que Deus existe em toda parte exceto nestes dois países?

8) A evolução não iria favorecer uma falsa crença

Será que a evolução favoreceria uma espécie incapaz de perceber a realidade? Ou uma espécie sujeita a alucinações? Se não, então deve haver um deus, segundo este argumento.

Entretanto, a evolução não favorece o que é verdade. A evolução favorece o que é útil.

Ninguém discorda de que a religião e a crença em deuses foram úteis em alguns casos. “Deus”, assim como Papai Noel, pode ser usado para fazer as pessoas se comportarem direito em troca de uma recompensa. “Deus” também pode ser usado para justificar atos condenáveis que beneficiam seu grupo, como os homens-bomba islâmicos e as Cruzadas. “Deus” pode diminuir seu medo da morte.

Entretanto, na era das armas nucleares, o perigo da crença em deuses supera em muito seus benefícios.

9) A parte de nosso cérebro ligada a Deus

Alguns religiosos argumentam que deve haver um deus, caso contrário, para que teríamos uma parte de nosso cérebro que “reconhece” um deus? Que outra utilidade esta função cerebral teria?

Entretanto, a imaginação é importante para nossa sobrevivência. Podemos imaginar muitas coisas que não são verdade. É um subproduto de nossa capacidade de imaginar coisas que podem ser verdade.

Na verdade, os cientistas estão estudando, de um ponto de vista biológico, por que alguns têm crenças religiosas e outros não. Eles já identificaram substâncias em nosso cérebro que podem nos fazer ter experiências religiosas. A dopamina, por exemplo, tende a nos fazer “ver” coisas que não existem.

Um novo campo científico, a neuroteologia, estuda a religião e o cérebro e já identificou que a parte do cérebro conhecida como lobo temporal pode gerar experiências religiosas.

Outra parte do cérebro, que controla o sentimento de individualidade, pode ser conscientemente desligada durante a meditação, dando a essa pessoa (que perde a noção do limite onde ela termina e onde começa o mundo externo a ela) um sentimento de “fusão” ou “unidade” com o universo.

10) Antigos “milagres” e histórias de ressurreições

Muitas religiões têm histórias de milagres. Assim como os que acreditam numa religião são céticos quanto aos milagres das outras, os ateus são céticos quanto a todas as histórias de milagres.

Eventos extraordinários podem ser exagerados com o tempo e se tornarem lendas milagrosas. Bons mágicos fazem coisas que parecem milagres. As coisas podem ser mal avaliadas e mal interpretadas. Muitas coisas que pareciam milagres no mundo antigo, hoje são facilmente explicadas.

Quanto às ressurreições, os ateus não acham que histórias de gente que ressuscitou dos mortos sejam convincentes. Há muitas lendas assim na literatura antiga e, mais uma vez, a maioria dos religiosos rejeita as histórias de ressurreição das outras religiões.

Muitas religiões afirmam que seus deuses realizaram milagres óbvios e espetaculares há milhares de anos. Por que os milagres não mais acontecem? Os deuses ficaram tímidos? Ou foi o progresso da ciência?

11) “Milagres” modernos de cura e ressurreição

“Milagres” de cura nos dias atuais são um bom exemplo do “Deus das lacunas”. Alguém se cura de uma forma que a ciência não consegue explicar? Claro, “foi Deus”. Deus nunca precisa provar nada. As pessoas sempre assumem que o mérito é dele.

O problema deste argumento é que ele parte do princípio de que sabemos tudo sobre o corpo humano e temos condição de descartar uma explicação científica. Entretanto, o fato é que nosso conhecimento médico é limitado. Por que nunca vemos um verdadeiro milagre, como braços amputados se regenerando instantaneamente?

Foram feitos estudos sobre o efeito das orações no caso de pacientes que não sabiam se alguém estava orando por eles ou não, inclusive pela Clínica Mayo, e não se constatou nenhuma influência das orações sobre a cura.

E fica a pergunta: Afinal, por que temos que implorar a um deus onipotente e infinitamente amoroso que nos cure de doenças e dos efeitos de acidentes naturais que ele mesmo causou?

É o Problema do Mal: se Deus é todo-poderoso e infinitamente amoroso, por que existe o mal, para início de conversa?

No mundo de hoje, as histórias de ressurreição sempre parecem acontecer em países atrasados, em condições não controladas por cientistas. Por outro lado, por que nunca houve ressurreições de pessoas que morreram em hospitais modernos, conectadas a máquinas que indicaram quando as mortes ocorreram?

12) “Céu” (Medo da Morte)

Nem ateus nem religiosos gostam do fato de que vamos todos morrer. Entretanto, este medo não prova que há uma vida após a morte — prova apenas que nós gostaríamos que houvesse. Só que desejos não se tornam automaticamente realidade.

Não há evidências de que um deus exista nem de que ele tenha criado algum lugar para irmos depois da morte. Não há nenhuma explicação sobre o que é esse lugar, onde ele está ou como foi que um deus o criou do nada.

Não há evidências sobre almas, nada sobre a composição de uma alma e nenhuma explicação sobre como uma alma não-material surgiu em um corpo material ou, alternativamente, sobre quando e como um deus faz surgir uma alma num corpo.

Se um óvulo humano fertilizado tem uma alma, o que acontece quando ele se divide para formar gêmeos? Cada um fica com meia alma? Ou havia duas almas no óvulo fertilizado original?

E quando acontece o contrário, ou seja, quando dois óvulos fertilizados se fundem em um único ser humano (uma “quimera”)? Essa pessoa terá duas almas? Ou havia duas meias almas que se fundiram?

Se um bebê de uma semana morre, que tipo de pensamentos ele terá na outra vida? Os pensamentos de um bebê de uma semana? Ou os de um adulto? Se este for o caso, como será possível? De onde virão estes pensamentos adultos e quais serão?.

Não há motivos para se acreditar em que nossa consciência sobrevive à morte de nosso cérebro. A mente não é algo separado do corpo.

Por exemplo, conhecemos as substâncias químicas responsáveis pelo sentimento do amor. As drogas podem alterar nosso humor e assim mudar nossos pensamentos. Danos físicos ao nosso cérebro podem mudar nossa personalidade e nossos pensamentos. Adquirir uma nova habilidade, que envolve pensar, pode mudar fisicamente a estrutura do nosso cérebro.

Algumas pessoas ficam com a doença de Alzheimer no fim de suas vidas. O dano a seus cérebros é irreversível e pode ser detectado por tomógrafos. Essas pessoas perdem a capacidade de pensar, mas continuam vivas. Será que seu pensamento retorna logo em seguida à sua morte, na forma de uma “alma”?

Se as pessoas tivessem que escolher entre um deus e uma vida após a morte, a maioria escolheria a segunda vida e esqueceria Deus. Elas só escolhem acreditar em Deus porque é o único jeito que elas conhecem de realizar seus desejos de uma vida após a morte.

13) Medo do Inferno

Para os ateus, a idéia de inferno parece uma enganação — uma tentativa de levar as pessoas a acreditarem pelo medo naquilo que elas não conseguem acreditar pela razão e pelas evidências.

O único jeito de encarar isto “logicamente” é encontrar a religião que lhe pune mais duramente pela descrença e então acreditar nela. Ótimo, você terá se livrado do pior castigo que existe — mas só se esta for a “verdadeira” religião.

Por outro lado, se ela (e sua punição) não forem verdadeiras — se a religião que ficou em segundo ou terceiro lugar quanto à dureza da punição for a verdadeira religião — então você não se salvou de nada.

Então, qual inferno, de qual religião, é o verdadeiro? Sem evidências, jamais saberemos.

Mesmo entre cristãos há pelo menos 3 infernos diferentes. Na versão tradicional, sua “alma” queimará eternamente. Uma segunda versão diz que um deus de amor não seria tão cruel, portanto sua “alma” apenas deixará de existir.

Uma terceira versão diz que o céu não é um lugar físico, mas apenas a condição de estar para sempre separado de Deus. Acontece que os ateus já estão separados de Deus e vivem sem problemas, portanto esta ameaça não faz sentido para eles. Além disto, como é possível ficar separado de um deus que, supostamente, está em toda a parte?

14) Aposta de Pascal / Fé

Em resumo, a aposta de Pascal diz que temos tudo a ganhar (uma eternidade no céu) e nada a perder se acreditarmos em um deus. Por outro lado, a descrença pode levar-nos a perder o céu e ir para o inferno.

Já vimos que o céu é apenas uma coisa que desejamos que exista e que o inferno é uma enganação, portanto vamos examinar a questão da fé.

A aposta de Pascal assume que uma pessoa possa se forçar a acreditar em alguma coisa. Isto não funciona, pelo menos não para um ateu. Portanto ateus teriam que fingir que têm fé. Só que, de acordo com a maioria das definições de Deus, ele perceberia nossa mentira interesseira. Será que ele nos recompensaria mesmo assim?

A aposta de Pascal também diz que você “não perde nada” por acreditar. Um ateu discordaria. Ao acreditar em Deus sob essas condições, você estaria reconhecendo que está disposto a acreditar em algumas coisas pela fé. Em outras palavras, você estaria aceitando abandonar as evidências como seu padrão para julgar a realidade. Vista desta forma, a fé já não parece tão interessante, não é?

15) Culpando a vítima

Muitas religiões castigam as pessoas por não acreditar. Entretanto, crença exige fé e pessoas como os ateus são incapazes de ter fé. Suas mentes requerem evidências. Assim, devemos punir os ateus por não acreditarem que “Deus” não é uma coisa evidente?

16) O fim do mundo

Assim como no caso do Inferno, esta idéia parece aos ateus servir apenas para levar as pessoas a acreditarem por medo naquilo em que elas não conseguem acreditar pela razão e pelas evidências.

Ao longo dos séculos, houve muitas profecias sobre o fim do mundo. Se sua fé se baseia nisto, pergunte a você mesmo: por quanto tempo você está disposto a esperar — quanto tempo será necessário para você se convencer de que o mundo não vai acabar?

17) Dificuldades da religião

Já se argumentou que as religiões exigem tantos sacrifícios que as pessoas jamais as seguiriam se um deus não existisse. Entretanto, pelo contrário, é a crença em um deus que motiva as pessoas. Um deus não precisa existir para que isto aconteça.

As dificuldades podem até servir como ritual de admissão numa seita, como um meio de se tornar um dos “escolhidos”. Afinal de contas, se soubéssemos que todos seriam salvos, por que nos daríamos ao trabalho de seguir uma religião?

Além disto, a recompensa que a maioria das religiões promete em troca da obediência — um céu — compensa em muito a maioria das dificuldades impostas por elas.

18) Argumento do martírio:

Dizem os crentes que ninguém morreria por uma mentira. Eles ignoram o fato de que as pessoas podem ser enganadas (ainda que com a melhor das intenções) quanto à veracidade de uma religião.

A maioria dos grupos que incentivam o martírio promete uma grande recompensa no “céu”, portanto os seguidores não acham que perder a vida seja um sacrifício tão grande.

Será que o fato de que os terroristas que jogaram os aviões no WTC estavam dispostos a morrer por sua fé faz do islamismo a verdadeira religião? E o que pensar de cultos como o Heaven’s Gate, cujos seguidores cometeram suicídio em 1997 acreditando que suas “almas” iriam para uma nave espacial que acompanhava um cometa e onde Jesus os esperava?

19) Argumento do vexame

Alguns crentes argumentam que seu livro sagrado contém passagens que são embaraçosas para sua fé, que essas passagens — e as descrições de eventos sobrenaturais — devem ser verdadeiras, caso contrário não teriam sido incluídas no livro.

Um exemplo clássico na Bíblia é o relato da covardia dos discípulos depois que Jesus foi preso. Entretanto, neste caso e em outros, momentos embaraçosos podem ser incluídos numa história de ficção para criar um clima dramático e tornar o triunfo final do herói muito maior.

20) Falsas dicotomias

Isto acontece quando se cria uma falsa escolha entre “isto ou aquilo” embora, na verdade, haja outras possibilidades. Os cristão conhecem bem esta: “Ou Jesus estava louco ou ele era Deus. Como Jesus disse coisas sábias, então ele não estava louco, portanto ele deve ser Deus, conforme ele disse que era”.

Acontece que estas não são as únicas duas opções. Há uma terceira: “sim, ele disse coisas sábias, mas, ainda assim, estava iludido quando disse que era Deus”. E há uma quarta: “Jesus talvez não tenha dito nada do que lhe é atribuído na Bíblia. Talvez tenham sido os escritores da Bíblia que disseram que ele disse aquelas coisas sábias. E talvez ele nunca tenha afirmado ser um deus e foram os escritores que o transformaram em deus após sua morte”.

Uma quinta possibilidade é que Jesus seja inteiramente um personagem de ficção e que tudo tenha sido inventado pelos autores.

21) Sentido da vida

Este argumento diz que, sem a crença em um deus, a vida não teria sentido. Mesmo se isto fosse verdade, apenas provaria que nós queremos que um deus exista para dar sentido às nossas vidas, e não porque realmente queremos um deus. Mas o fato de que ateus encontram sentido para suas vidas sem acreditar em deuses mostra que essa crença não é necessária.

22) Deus, assim como o amor, é inalcançável

O amor não é inalcançável. Nós definimos “amor” tanto como um tipo de sentimento e como algo que é demonstrado através de ações.

O amor, ao contrário de Deus, é uma coisa física. Conhecemos as reações químicas no cérebro que provocam o sentimento de amor. Além disto, o amor depende da estrutura cerebral. Uma pessoa lobotomizada ou com certos tipos de danos cerebrais torna-se incapaz de sentir amor.

Além disto, se o amor não fosse físico, não ficaria confinado aos nossos cérebros físicos. Nós poderíamos ser capazes de detectar alguma entidade ou força chamada “amor” flutuando no ar.

23) Moral e ética

É a idéia segundo a qual não temos motivos para a moralidade se não houver um deus. Entretanto, já havia códigos morais bem antes da Bíblia: o Código de Hamurabi, por exemplo.

Em Eutífron, um dos diálogos de Platão, Sócrates pergunta a um homem chamado Eutifro se alguma coisa é boa apenas porque Deus diz que é ou se Deus diz que uma coisa é boa porque ela tem bondade intrínseca.

Se algo é bom porque Deus diz que é, então Deus pode mudar de idéia sobre o que é bom. A moral não seria uma coisa absoluta.

Se Deus diz que uma coisa é boa por causa da bondade intrínseca desta coisa, então nós poderíamos encontrar essa bondade intrínseca nós mesmos, sem precisar da crença em Deus.

Os cristãos nem mesmo conseguem entrar num acordo entre si quando se fala em masturbação, sexo antes do casamento, homossexualidade, divórcio, anticoncepcionais, aborto, pesquisa com células tronco, eutanásia e pena de morte. Os cristãos rejeitam algumas das leis morais da Bíblia, como matar crianças desobedientes ou pessoas que trabalham no sábado. Portanto, os cristãos interpretam a Bíblia segundo seus próprios conceitos de moralidade, rejeitando os mandamentos que não consideram éticos.

A verdade é que a maioria das pessoas ignora as coisas que não são éticas em seus livros sagrados e se concentram nos bons conselhos. Em outras palavras, os teístas definem sua própria ética da mesma forma que os ateus fazem.

Até mesmo os animais respeitam uns aos outros e têm um senso de justiça. Já encontramos a parte de nosso cérebro responsável pelos sentimentos de simpatia e empatia — os “neurônios espelhos” — que formam a base de grande parte de nossa ética.

A moralidade é algo que se desenvolveu por sermos criaturas sociais. Baseia-se nas vantagens egoístas que obtemos ao cooperarmos com outros e em suas consequências. Ajudar ao próximo é um ato egoísta que nos traz recompensas evolucionárias (Vide o argumento 25, contra a existência do autruísmo).

Nós também julgamos as ações pelas suas conseqüências, através de tentativa e erro. A melhor fórmula que desenvolvemos é a de permitir o máximo de liberdade a alguém, contanto que não fira outra pessoa ou afete a sua liberdade. Esta concepção moral é a que cria o máximo de felicidade e prosperidade para uma sociedade, e a que beneficia o maior número de pessoas (o maior bem para o maior número). Esta visão inclui a proteção dos direitos das minorias, já que de certa forma somos todos pertencentes a alguma delas.

Já que não há evidência de que algum deus exista, não temos como atribuir a moralidade a um deus. Portanto, muito mais que servir como guia moral, a religião pode ser usada para justificar qualquer atitude. Basta alegar que “Deus me disse para fazer isto”. A melhor maneira de refutar este argumento é descartar totalmente o conceito de deus.

Mesmo que deuses não existam, há quem ache que a crença neles ajuda muitas pessoas a se comportarem, como se ele fosse um policial invisível. Como disse o presidente George W. Bush, “Deus está o tempo todo pesquisando nosso coração e nossa mente. Ele é assim como Papai Noel. Ele sabe se você foi bom ou se foi mau” (08 de Abril de 2007, Páscoa, Fort Hood, Texas).

Queremos realmente basear nossa ética nisto?

Um sistema decente de ética não precisa do sobrenatural para se justificar. Entretanto, a crença no sobrenatural já foi usada para justificar muitas coisas sem ética, como a Inquisição, a perseguição às Bruxas de Salém, o preconceito contra os gays, o ataque ao WTC, etc.

24) Argumento da bondade e da beleza

Alguns religiosos alegam que sem um deus não haveria nem bondade nem beleza no mundo. Entretanto, bondade e beleza são definidos em termos humanos.

Se o ambiente da Terra fosse tão inóspito que a vida não pudesse se desenvolver, nós não estaríamos aqui para discutir o assunto. Portanto, há coisas no ambiente que são favoráveis à existência da vida e nós somos naturalmente atraídos para elas. Nossa sobrevivência depende delas.

No caso da arte, nós somos naturalmente atraídos por imagens, formas e cores que nos lembram essas coisas. Entretanto, há várias formas de arte, como o cubismo e o surrealismo, que algumas pessoas apreciam e outras detestam.

25) Altruísmo

Às vezes, as pessoas dizem que, sem um deus, não haveria altruísmo e que a evolução só favorece o comportamento egoísta.

Entretanto, podemos dizer que não existe altruísmo e que as pessoas sempre fazem o que elas querem. Se só houver escolhas ruins, elas escolhem aquela que elas detestam menos.

Nossas escolhas se baseiam naquilo que nos dá (aos nossos genes) a melhor chance de sobreviver, o que inclui melhorar nossa reputação na sociedade.

“Altruísmo” para com membros da família beneficia gente que compartilha nossos genes. “Altruísmo” para com amigos beneficia gente que um dia poderá retribuir o favor.

Até mesmo o “altruísmo” para com estranhos tem a ver com a evolução. É um comportamento que surgiu primeiro em tribos pequenas, onde todos se conheciam e uma boa reputação aumentava as chances de sobrevivência do indivíduo. Agora já está entranhado em nosso cérebro como um modo geral de conduta.

26) Livre arbítrio

Dizem que não teríamos livre arbítrio sem Deus, que viveríamos num universo determinístico de causa e efeito e que seríamos meros robôs.

Na verdade, temos muito menos livre arbítrio do que a maioria das pessoas pensa. Nosso condicionamento (nosso desejo biológico de sobreviver e prosperar, combinado com nossas experiências) torna certas “escolhas” muito mais prováveis do que outras. De que outro modo podemos explicar nossa capacidade, em muitos casos, de prever o comportamento das pessoas?

Experiências já mostraram que nosso cérebro “decide” agir antes que nós tenhamos consciência disto! Alguns até dizem que nosso único livre arbítrio é a capacidade de vetar conscientemente as ações que nosso cérebro sugere.

A maioria dos ateus não tem nenhum problema em admitir que o livre arbítrio pode ser uma ilusão.

Este assunto também leva a um paradoxo: se o deus que nos criou conhece o futuro, como nós podemos ter livre arbítrio?

No fim das contas, se nós gostamos da nossa vida, o que importa se temos ou não livre arbítrio? Será que não é apenas nosso ego — nossa saudável autoestima que contribui para a sobrevivência — que foi condicionado a acreditar em que um livre arbítrio verdadeiro é melhor que um livre arbítrio imaginário?

27) Um ser perfeito tem necessariamente que existir

Este argumento, conhecido como o argumento ontológico, foi criado há uns 1.000 anos por Anselmo de Cantuária.

Ele nos pede que imaginemos o mais grandioso ou mais perfeito ser possível. Esta é a concepção de Deus para a maioria das pessoas. Em seguida, ele nos diz que é mais grandioso ou mais perfeito para algo existir do que não existir. Portanto, este ser (Deus) necessariamente tem que existir.

Mas este argumento não leva em conta se é possível que um ser perfeito exista. Ele também parte do princípio de que aquilo que imaginamos passa a existir. Nem tudo o que conseguimos imaginar é possível.

Vamos aplicar esta lógica a um assunto diferente. Imagine um perfeito arranha-céu. Ele permaneceria intacto se terroristas jogassem aviões contra ele. Entretanto, nenhum arranha-céu pode resistir a um ataque desses sem, pelo menos, algum dano. Mas isto contraria nossa premissa de que o arranha-céu tem que ser perfeito, portanto é preciso que exista um arranha-céu indestrutível.

28) Por que é mais provável que Algo exista do que Nada?

Este argumento assume que, sem um deus, não esperaríamos que alguma coisa existisse. Entretanto, não temos a mínima idéia da probabilidade estatística de Algo existir versus Nada.

Em física, sistemas simétricos tendem a ser instáveis. Eles tendem a degenerar em sistemas assimétricos. Ora, o Nada — a ausência de tudo — é perfeitamente simétrico, portanto altamente instável. Portanto Algo é mais estável que Nada, portanto deve ser mais provável que Algo exista que Nada.

Podemos também perguntar, dentro da mesma lógica: “Por que é mais provável que exista um deus do que ele não exista?”. Ou ainda “Quem criou esse deus?”

29) Argumento da Primeira Causa

Este argumento afirma que vivemos num universo de causa e efeito. Segundo esta lógica, é impossível que esta sequência de causas continue infinitamente para trás. Em algum ponto, a coisa tem que parar. Nesse ponto, é preciso haver uma Primeira Causa que não resulte, ela própria, de nenhuma outra causa. Esta Primeira Causa Não Causada, segundo dizem, é Deus.

O universo em que vivemos agora “começou” há uns 13,7 bilhões de anos. Não sabemos se o universo já existia antes de alguma outra forma nem se havia energia/matéria/gravidade/etc. (um mundo natural).

Não sabemos se o mundo natural teve um começo ou se sempre existiu de algum jeito. Se teve um começo, não sabemos se um deus é a única origem possível. Não sabemos se um deus pode ser uma causa incausada. O que causou Deus?

Partículas virtuais aparecem e desaparecem subitamente o tempo todo. A física quântica mostra que pode haver eventos não causados.

30) As “leis” do universo

De onde vieram as “leis” do universo? Uma “lei” da física não passa de uma coisa que acontece de forma regular. É a descrição de um fenômeno. Não é algo decretado por um tribunal celeste.

De acordo com o físico, astrônomo e professor Victor Stenger: “É crença geral que as ‘Leis da Física’ são exteriores à Física. Elas são concebidas como sendo impostas ao universo de fora para dentro ou fazendo parte de sua estrutura lógica. As descobertas recentes da física contestam isto. As ‘leis’ básicas da física são construções matemáticas que tentam descrever a realidade de forma objetiva. As leis da física são exatamente como seria de se esperar se viessem do nada” (ênfase incluída pelo autor).

31) As coisas são exatamente do jeito que deveriam ser

Alguns crentes argumentam que é preciso que os valores das 6 constantes físicas do universo (que controlam coisas como a força da gravidade) estejam dentro de uma faixa limitada para que a vida seja possível. Portanto, como isto não pode ter acontecido “por acidente”, deve ser obra de um deus.

Mais uma vez, este é um argumento do tipo “Deus das lacunas”. Além disto, ele pressupõe que conhecemos tudo a respeito de astrofísica — um campo em que novas descobertas são feitas quase todos os dias. Talvez venhamos a descobrir que nosso universo não seja tão “ajustado”, afinal de contas.

Outra possibilidade é que existam múltiplos universos — separadamente ou como “bolhas” dentro de um universo maior. Cada um desses universos poderia ter suas próprias leis da física. Se houver um número suficientemente grande de universos, aumentam as chances de que pelo menos um deles venha a produzir vida.

Sabemos que é possível que pelo menos um universo exista — nós vivemos nele. Se existe um, por que não vários? Por outro lado, não temos evidências quanto à existência de nenhum deus.

Pois então vamos dar uma olhada na definição mais comum de um deus: eterno, onisciente, onipotente e infinitamente amoroso. Poderia Deus ser de algum outro modo que não fosse exatamente este que ele é?

Embora haja alguma margem de tolerância nas condições que permitem existir vida no universo, tradicionalmente as condições para a existência de Deus não variam. Portanto, nosso universo com um deus tradicional é logicamente mais implausível que nosso universo sem um deus. Ele tem que atender a requisitos muito mais estritos.

Claro que ainda podemos perguntar: quem ou o que definiu Deus?

Se o universo foi criado especificamente com o objetivo de abrigar a raça humana, então o enorme tamanho do universo (a maior parte dele hostil à vida) e os bilhões de anos que se passaram até que os humanos surgissem mostram que ele é ridículo e é um enorme desperdício — não o que se poderia esperar de um deus.

32) A Terra é exatamente do jeito que deveria ser

Alguns crentes argumentam que a Terra está justamente no ponto do sistema solar (nem muito quente nem muito frio etc.) que permite que a vida exista. Além disto, ela tem exatamente os elementos necessários (carbono, oxigênio etc.). Essas pessoas afirmam que isto não poderia ter acontecido “por acidente”, portanto deve haver um deus que cuidou desses detalhes.

Este é mais um argumento “Deus das lacunas”. Mas há uma refutação ainda melhor. Se a Terra fosse o único planeta no universo, então seria notável que suas condições fossem “exatamente as necessárias”. Entretanto, a maioria dos religiosos admite que há milhares, se não milhões, de outros planetas no universo. O nosso sistema solar tem oito. Portanto, aumentam muito as chances de que pelo menos um deles tenha as condições para produzir algum tipo de vida.

Podemos imaginar criaturas púrpuras com 4 olhos e respirando dióxido de carbono em outro planeta, muito religiosas, que também cometam o erro de achar que o planeta deles foi especialmente criado para que eles existissem e que há um deus criador à sua semelhança.

33) Criacionismo / Design inteligente

É a idéia, segundo a qual, se não podemos explicar alguma coisa sobre a vida, então “foi Deus” (Deus das lacunas).

Entretanto, se o Gênesis ou qualquer mito da criação religioso similar for verdade, então praticamente todos os campos da ciência estarão errados. Não apenas a biologia como também a química, física, arqueologia, astronomia e ainda suas subdisciplinas como embriologia e genética. Na verdade, poderíamos jogar fora todo o método científico.

Os criacionistas às vezes fazem uma distinção entre “micro” e “macro” evolução — ou seja, eles aceitam que há mudanças dentro de uma espécie, mas não aceitam que uma espécie se transforme em outra.

Mas quais são os mecanismos da microevolução? Eles são: mutação, seleção natural e herança. E quais são os mecanismos da macroevolução? Exatamente os mesmos: mutação, seleção natural e herança. A única diferença é o tempo necessário. Será que alguns genes dizem a si mesmos: “Hmmm, é melhor eu não mudar muito, senão alguns religiosos vão ficar aborrecidos”?

A evolução é a melhor explicação e a única explicação para a qual há evidências: para a idade dos fósseis, para a progressão dos fósseis, para as semelhanças genéticas, para as semelhanças estruturais e para os fósseis transicionais. Sim, há fósseis transicionais. Por exemplo, nós temos uma boa sequência de fósseis para espécies que vão desde os mamíferos terrestres até a baleia, incluindo o basilosaurus, uma baleia primitiva que conservou pequenas pernas traseiras que não tinham função. Ainda hoje, as baleias mantêm os ossos do quadril.

Alguns criacionistas afirmam que essas pernas traseiras atrofiadas talvez fossem úteis para o acasalamento, portanto o basilosaurus seria uma espécie criada totalmente em separado e não uma transição. Mas, se essas pernas traseiras eram tão úteis, por que desapareceram?

Na verdade, as cobras também têm ossos do quadril e às vezes nascem cobras com pernas vestigiais, provando que elas evoluíram de ancestrais répteis que tinham pernas traseiras. Na China, foram encontrados muitos fósseis meio répteis/meio pássaros, provando a transição.

Recentemente se descobriu o fóssil do tiktaalik, que ajudou a preencher uma lacuna entre os peixes e os anfíbios. Foi encontrado no Canadá, exatamente no local e na camada geológica previstos pela evolução.

Por outro lado, se um deus perfeito tivesse criado a vida, nós esperaríamos dele um serviço melhor. Não esperaríamos que 99% de todas as espécies que já existiram se extinguissem. Como disse o biólogo evolucionista Kenneth R. Miller, que é cristão: “se Deus propositalmente projetou 30 espécies de cavalos que mais tarde desapareceram, então Deus é, antes de mais nada, um incompetente. Ele não consegue fazer direito da primeira vez” (“Educators debate ‘intelligent design’”, por Richard N. Ostling, Star Tribune — 23/março/2002, p.B9).

Francis Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, evangélico, disse: “O Design Inteligente apresenta o Todo Poderoso como um criador trapalhão, que tem que intervir de tempos em tempos para consertar os problemas de seu plano inicial para criar a complexidade da vida” (“A linguagem de Deus”, pág. 193-194).

Não deveríamos esperar defeitos de nascença se a vida foi criada por um deus perfeito. Não deveríamos esperar um “design burro” tal como uma próstata que incha e estrangula o canal urinário, já que teria sido tão simples passar o canal por fora da próstata. Deus é um designer incompetente ou relaxado?

Se Deus criou toda a vida ao longo de uma semana, então, mesmo com um suposto dilúvio universal, deveríamos encontrar os fósseis totalmente misturados nas camadas geológicas. Não é o que acontece.

Também temos a contradição de que Deus é a favor da vida, mas permite o aborto espontâneo. De um terço a metade dos óvulos fecundados sofre aborto espontâneo, muitas vezes antes mesmo de a mulher perceber que está grávida. Se um deus projetou o sistema reprodutivo humano, isto faz dele o maior dos abortistas.

Podemos então concluir que a evolução científica nos fornece respostas, enquanto que o criacionismo religioso e o “design inteligente” só geram mais perguntas.

34) O universo e/ou a vida violam a segunda lei da termodinâmica (entropia)

A segunda lei da termodinâmica (entropia) afirma que, num sistema fechado, as coisas tendem a uma desordem cada vez maior. Alguns crentes argumentam que, já que o universo e a vida são tão organizados, um deus tem que existir para poder violar esta lei.

Entretanto, o universo não viola a segunda lei da termodinâmica. O universo teve início com o máximo grau de desordem possível para seu tamanho. A partir daí, com sua expansão, mais desordem se tornou possível e, de fato, é o que está ocorrendo.

Apesar do fato de que a desordem como um todo está aumentando no sistema chamado universo, é possível um aumento de ordem em subsistemas, tais como galáxias, sistemas solares e é possível a vida — desde que, na totalidade do universo, a desordem esteja aumentando.

Se um deus criou o universo, deveríamos esperar um início ordenado, não caótico. O fato de que o universo começou com o máximo de desordem significa que não foi um deus que o criou, já que uma criação proposital teria pelo menos alguma ordem.

Também se verifica que a energia gravitacional negativa do universo cancela exatamente a energia positiva representada pela massa, de forma que o total da energia no universo é zero, que é o que seria de se esperar de um universo que veio do Nada por meios naturais. Entretanto, se um deus estivesse envolvido, seria de se esperar que ele tivesse adicionado energia ao universo. Não há evidência disto.

É interessante como os teístas se agarram à segunda lei da termodinâmica em seus esforços para provar a existência de seu deus, mas ignoram totalmente a primeira lei — que diz que a matéria/energia não pode ser nem criada nem destruída — o que refutaria totalmente a existência do deus deles como um ser que pode criar algo do nada.

Conclusão

Pessoas religiosas têm o difícil, senão impossível, encargo de provar que algum deus existe, sem falar que é a religião deles, entre todas, que é a verdadeira. Se alguma das religiões tivesse evidências objetivas, será que as pessoas não viriam todas correndo aderir a ela, a “verdadeira” religião?

Em vez disto, o que vemos é que as pessoas tendem a acreditar, em graus diferentes, na religião que lhes foi transmitida. Ou então são atéias.

© 2006, 2007 August Berkshire. Nov. 21, 2007

Comentários são benvindos.

Email: augustberkshire@gmail.com
Traduzido por Fernando Silva e revisado por Alenônimo com permissão de August Berkshire.

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Grande Debate do Unicórnio!

Texto longo, mas muito bom. Vale a pena ler até o final. Agradeço a Elizandro Max do site GodLessLiberator pelo texto

"Dou cem dólares se alguém puder demonstrar que não existe um unicórnio imaterial nesta sala.”




Quando eu disse isso aos meus alunos num curso sobre ciência e pseudociência, eles me olharam com descrença. Suspeito que a incredulidade não seja pela óbvia impossibilidade da tarefa, mas pelo fato do professor colocar uma nota de cem sua na mesa para provar uma posição. Assim começou o Grande Debate do Unicórnio, que durou várias semanas, até que a energia intelectual dos participantes tivesse sido exaurida.

As primeiras tentativas de resolver o problema foram geradas por uma má compreensão da questão: um dos estudantes declarou que era muito simples: basta encher a sala com água, e o corpo do unicórnio deslocaria um certo volume de água, o que revelaria a presença ou demonstraria a ausência do animal (aparentemente, preocupações éticas sobre a possibilidade de afogar o unicórnio estavam fora da proposta). “Eu disse ‘imaterial’, não ‘invisível,’” lembrei. Como todos sabem, a água passa por corpos imateriais sem ser deslocada. “Oh!” As tentativas seguintes foram forjadas mais cuidadosamente.

Um esforço particularmente esperto — que claramente pegou o objetivo do exercício — foi: “Não há unicórnios imateriais nesta sala de aula, porque em nossa sala existe uma condição atmosférica, indetectável por qualquer dispositivo que temos atualmente, que faz com que unicórnios materiais se materializem, dessa forma tornando-os visíveis a olho nu”. Fala em me vencer no meu próprio jogo.Mas eu não ia deixar meus cem irem embora tão fácil. Eu respondi que a pessoa em questão obviamente não entendia os mistérios do Unicornismo, ou perceberia o quanto essa tentativa foi tola.

Uma aluna veio com uma solução filosoficamente mais desafiadora ao problema:

Fato 1: Imaterialidade é definido como ausência de matéria.
Fato 2: A matéria não pode ser criada nem destruída.
Conclusão 1: Algo imaterial não pode ser criado nem destruído.
Fato 3: O pensamento existe apenas como algo imaterial.
Fato 4: O pensamente existe apenas na própria mente.
Conclusão 2: Há algo imaterial que existe apenas na própria mente.
Conclusão 3: A presença de algo imaterial pode ser criada ou destruída apenas na própria mente.
Conclusão 4: A criação ou destruição de algo imaterial na própria mente é determinada pela crença.
Conclusão Final: Não há um unicórnio imaterial e invisível a não ser que se creia nisso dentro da própria mente.

Maldição! Queria que mais teólogos mostrassem um senso de raciocínio tão aguçado.

Ainda assim, não era bom o bastante, e pedi à turma que verificasse a prova apresentada e visse onde estavam as falhas. Em meia hora de discussão, vários problemas foram revelados.

Primeiro, a física moderna não sustenta mais que a matéria não pode ser criada nem destruída. De fato, de acordo com a mecânica quântica, esses processos acontecem o tempo todo. A razão pela qual normalmente não os detectamos é que são muito rápidos e se equilibram perfeitamente, assim não esperamos que uma cadeira subitamente apareça do nada ou desapareça. (Embora, pela teoria das supercordas, esse tipo de flutuação quântica pode ter sido responsável pela origem do Universo, que teria literalmente vido à existência de lugar nenhum. Assustador...)

Segundo, quem disse que o pensamento é imaterial? Alguns remanescentes cartesianos podem ainda pensar assim, mas no século 21 está se tornando mais aceitável considerar o pensamente como um aspecto de atividades bem físicas ocorrendo no cérebro. De fato, podemos medir quais partes do cérebro estão envolvidas em vários tipos de pensamentos e até sentimentos. Não quer dizer que tenhamos um entendimento total do que é o pensamento - longe disso. Mas as chances de que se mostre que são imateriais (no sentido de não depender da matéria) são muito reduzidas.

Mas observe que eu concordo plenamente com a conclusão: não há unicórnio imaterial a não ser que se acredite nisso na sua própria mente. Mas a única justificativa que eu (ou qualquer um, até onde eu saiba) posso dar para tal conclusão é a minha própria intuição.

A mesma aluna apresentou outro argumento, dessa vez baseado nas leis da física. Ela corretamente sustentou que um unicórnio imaterial não poderia ser afetado pelas leis da física, ou se aproveitar delas, por ser imaterial por definição. Assim, poderíamos imaginar o unicórnio como um ponto imaterial sem extensão, como um ponto euclidiano. Tal ponto imaterial não poderia "ficar" na sala porque a própria sala — junto com a Terra e o Sistema Solar — se move pelo espaço em alta velocidade. O cerne dessa demonstração depende na intuição do próprio Descartes do problema em que se meteu propondo um conceito dualístico do corpo humano: se a mente não é corpórea, como ela afeta o corpo?

Descartes “resolveu” o problema postulando que a glândula pineal era a sede da alma. Mas, como todos os filósofos depois dele perceberam, minimizar o tamanho do ponto de contato entre o material e o imaterial (a glândula pineal é a menor do sistema endócrino) não desfaz o paradoxo de uma entidade imaterial agindo sobre a matéria (ou vice versa). De fato, isso é o que torna fantasmas, ectoplasmas e experiências extracorpóreas tão difíceis de acreditar: se você está fora do corpo, como você se vê deitado na cama? Com que olhos? Que cérebro há para processar o sinal visual? E, dado que seu sentido de "si" depende de ter um cérebro funcionando, quem é você, quando você está fora do corpo?

Mas, claro, para salvar meu dinheirinho, só o que eu precisava responder era que — de novo — os mistérios do Unicornismo dizem não apenas que o unicórnio imaterial não é um ponto, mas que ele permanece na sala sem problema, é macho, tem um metro e meio de altura e é branco (como eu sei que ele é branco se ele é imaterial e invisível? Bem, a essa altura você deve saber: é um mistério do Unicornismo…).

Ao fim, meus alunos concordaram que não há maneira de demonstrar a inexistência do unicórnio fantasmal. Depois de garantir meus cem dólares, eu perguntei se apesar de tudo eles acreditavam na existência do unicórnio. A resposta foi unanimemente negativa. “Por quê?”, perguntei, fingindo surpresa. “Porque é tolice acreditar em uma coisa para a qual não há evidência,” foi a aturdida resposta geral. Alguns segundos depois, alguém perguntou: “Então qual é a diferença para a crença em Deus?” Mas a hora da aula havia terminado, e deixei-os discutindo teologia, com a satisfação de ter feito um bom trabalho.

Autor: Massimo Pigliucci, PhD em botânica, genética e filosofia.

Postado via GodLessLiberator

"A Verdade honesta de Deus?"

Por Andrew Brown, Guardian

Traduzido por Daniel Vasques de http://www.richarddawkins.net/article,1755,Gods-honest-truth,Andrew-Brown-Guardian

Link original: http://commentisfree.guardian.co.uk/andrew_brown/2007/10/gods_honest_truth.html

Obrigado a Flagellant pelo link.

O governo Sueco está tornando ilegal o ensino de doutrina religiosa nas escolas como verdade. Bretanha deve seguir o processo.

O governo Sueco anunciou planos de reprimir rigorosamente a educação religiosa. Logo será ilegal mesmo para escola religiosas particulares ensinarem doutrinas religiosas como sendo verdades. Em uma interessante deturpação da experiência Americana, a oração permanecerá legal nas escolas - afinal, não tem valor de verdade. Mas tudo que ocupa tempo curricular terá que ser secular. "Os alunos têm que ser protegidos de todo tipo de fundamentalismo", disse o ministro da educação, Jan Björklund.

O Criacionismo e o Design Inteligente são explicitamente banidos, mas o proselitismo também o é mesmo nas classes de educação religiosa. O Corão pode não ser ensinado como verdade mesmo em escolas muçulmanas independentes, assim como a Bíblia em escolas Cristãs. A decisão parece um ataque assustador ao direito dos pais de ensinar os filhos aquilo que acham melhor. Claro que isso não vai tão longe quanto a política de Dawkins de proibir os pais de tentar passar as doutrinas mesmo dentro de suas próprias famílias - se fosse, certamente iria contra a convenção Européia dos direitos humanos. Também não vai tão longe quanto Nyamko Sabuni, a ministra da integração - nascida em Burundi - gostaria: ela queria banir todas as escolas religiosas juntas. Mas essa é ainda uma medida muito drástica para uma perspectiva inglesa.

A lei está sendo apresentada na Suécia como se isso preocupasse grande parte das seitas Cristãs fundamentalistas no interior; mas o Partido Democrata Cristão, que representa essas pessoas, se é que alguém o faz, está perfeitamente feliz com a nova regulamentação. Há pouca dúvida que o objetivo principal é combater o fundamentalismo Islâmico, especialmente em conjunto com um outro novo requisito de que todas as escolas independentes declarem todas as suas fontes de renda. Isso permitiria aos inspetores - cujo orçamento está sendo dobrado - concentrarem seus esforços nestas escolas que têm maior probabilidade de receber dinheiro para quebrar as regras.

No pano de fundo desses anúncios vem o lançamento de um documentário sobre os jihadi suecos, que acompanha aluns jovens por um período de dois anos em sua lenta conversão para a insanidade homicida.

A questão é se nós na Bretanha veremos isso como uma medida necessária na luta para conter as ideologias islâmicas. Pode uma defesa de liberdade ser montada convincentemente por um estado que toma uma posição tão firma sobre o que é e o que não é verdade? Ou a liberdade não pode ser preservada sem essas medidas? O dilema não faz sentido de uma posição completamente liberal, onde se assume que a verdade sempre vencerá numa competição justa e que o estado deve quase sempre ser desacreditado. Mas os suecos nunca foram muito liberais nesse sentido, não obstante o fato de que os dois ministros aqui envolvidos são membros do Partido Liberal.

Superficialmente, a posição Britânica não poderia ser mais diferente. A estratégia do governo britãnico com o extremismo protestante ou islâmico em Ulster tem sido - até agora enquanto tivemos uma - bajulação e corrupção, ou o que a Microsoft, em outro contexto, chama de "aproveitar e estender". Ache os líderes, bajule-os e os arraste até a classe liderante na esperança de que eles vão então cooperar e ver que seus seguidores também o farão. A aposta que o governo está fazendo nas escolas religiosas é a de que se os grupos religiosos ganham suas próprias escolas para administrar, eles o farão de uma forma que será boa para a sociedade como um todos, assim como para seus alunos. Certamente isso funciona muito bem com a Igreja da Inglaterra. As escolas anglicanas são felizes, geralmente, por ensinar religião como se não fosse verdade; para colocar de um modo mais bajulador, eles se concentram mais nos frutos do espírito do que no dogma. Contudo, ninguém supõe que a sociedade seja ameaçada por um movimento terrorista educado nas escolas primárias anglicanas.

Ordenar que as escolas muçulmanas, judias e católicas parem de ensinar sua própria religião como se fossem verdade, o que é essencialmente a posição sueca, parece uma tarefa impossível para um governo britânico. Mas eu acho que pode ser necessária também. É certamente o único modo de descobrir se os pais dessas escolas realmente querem o "ethos" ou as crenças pseudo-factuais e o que exatamente as pessoas que as fundam pensam que estão comprando com seu dinheiro.

Postado originalmente em: 18 de outubro de 2007