Mostrando postagens com marcador dogmatismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dogmatismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A fé na Ciência


Post original de 07/02/2008

Minha coluna da semana passada, em que defendi a ciência de ataques neocriacionistas e "humanitários", gerou mais controvérsia do que eu poderia supor. Leitores questionaram-me acerca da eugenia, das bases epistemológicas do darwinismo, do caráter laico do Estado e até da validade do discurso científico. Acreditar na ciência, sugeriram alguns, exige tanta fé quanto crer em Deus.

Será? Aceito a provocação, de modo que vou tentar mostrar hoje por que a ciência não é uma religião.

Comecemos pelas semelhanças. Como qualquer um que já abriu um livro de epistemologia sabe, a ciência busca seus fundamentos em meia dúzia de postulados, ou seja, de premissas que, a exemplo dos dogmas religiosos, são tomadas como auto-evidentes, isto é, consideradas verdadeiras sem necessidade demonstração. Para o monoteísmo, sentenças como "Deus criou o mundo" constituem verdades inquestionáveis. Já na ciência, quem desempenha esse papel são princípios como o de identidade e o de não-contradição. O primeiro afirma que, se A=A, então A=A, e o segundo reza que, se A=não-B, na ocorrência de A não ocorre B, e vice-versa. Convenhamos que não são idéias revolucionárias e nem mesmo particularmente brilhantes, mas já aí começam a emergir algumas das diferenças entre ciência e religião.

Um juízo como "Deus criou o mundo" é contingente, ou seja, eu posso, ainda que apenas no plano da lógica, conceber um mundo criado pelo acaso, pelo diabo ou até pelo presidente Lula ("nunca antes na história desse universo..."). Já os postulados científicos são em tese mais fortes, pois lidam com juízos necessários: para imaginar que uma coisa seja diversa dela mesma, eu preciso renegar ou pelo menos suspender os fundamentos da lógica.
Até aqui, a vantagem é da religião. Ela já está emitindo pareceres sobre o mundo, enquanto a ciência permanece presa ao reino das abstrações matemáticas. Se queremos que a ciência fale sobre o mundo --e, para possuir alguma utilidade, ela tem de fazê-lo--, precisamos dar um passo temerário. Precisamos autorizá-la a lidar com induções, ou seja, admitir que, partindo de casos particulares observados, proceda a generalizações. Exemplo: o sol nasceu hoje e em todos os dias que antecederam o dia de hoje, logo, o sol nascerá também amanhã. Ao aceitar esse tipo de raciocínio, conquistamos o direito de proferir juízos sobre a realidade física, mas sacrificamos o plano sólido das certezas matemáticas no qual antes caminhávamos. Com efeito, o fato de o sol ter nascido todos os dias no passado não encerra a garantia lógica de que também nascerá amanhã. Isso é no máximo muito provável, mas de maneira alguma necessário.

Por paradoxal que pareça, esse súbito rebaixamento do grau de certeza com que lidam as ciências é uma excelente notícia. Juízos científicos tornam-se daqui em diante verdades provisórias. Não contam mais com nenhum tipo de garantia lógica, uma vez que se baseiam em meros encadeamentos entre experiências passadas e raciocínios generalizantes --processo que sabemos falível e propenso a erro.

Assim a ciência, diferentemente da maioria das religiões, perde o direito até mesmo de pretender afirmar verdades acabadas. Tudo que ela pode fazer é gerar hipóteses a ser testadas e refutadas empiricamente. Quando essas suposições passam muito tempo sem ser cabalmente desmentidas, como é o caso da evolução mediante seleção natural, dizemos que são corroboradas. É claro que esse é um processo em aberto, pois o fato de não terem sido refutadas até aqui não encerra a garantia de que não o serão amanhã. Isso é o mais perto da "prova" que a ciência pode chegar.

Essa precariedade epistemológica cerca toda a ciência, do neordarwinismo, à chamada lei da gravidade. Embora não ouçamos com muita freqüência gente afirmando que a gravidade é "só uma teoria", é exatamente isso que ela é. O que o neocriacionismo travestido de 'design inteligente' faz é embaralhar o sentido de teoria em suas acepções fraca (a do dia a dia) e forte (epistemológica) para, em meio à confusão conceitual, semear seus pressupostos algo dogmáticos. O fato de o neoevolucionismo apresentar, como toda teoria, algumas lacunas de maneira alguma nos autoriza a inferir um deus logo à primeira dificuldade.

A incerteza e a subseqüente maleabilidade da ciência vão ainda mais longe. No limite, ela admite até que seus próprios "dogmas" sejam revistos. Algumas hipóteses da mecânica quântica, por exemplo, vão de encontro ao princípio da não-contradição. Seria como se a religião negasse Deus em determinadas situações. Os dogmas da ciência se articulam de maneira tão particular que a tornam o menos dogmático dos discursos.

É claro que estamos aqui falando na teoria. No mundo real, encontraremos cientistas tão fanáticos quanto o mais exaltado dos padres inquisidores. Encontraremos indivíduos que de bom grado mandariam queimar todos os que ousassem desafiar o "mainstream" científico. Ainda assim, é digno de nota o fato de que, enquanto a religião só existe com o dogma, a ciência como método trabalha para falsear idéias aceitas e noções estabelecidas --em uma palavra, para falsear dogmas. Não acho que eu avance muito o sinal quando afirmo que essa diferença ajuda a explicar o fato de que mesmo o mais tacanho positivismo produziu menos fogueiras do que a mais tolerante das religiões.

Podemos eventualmente nos deparar com um cético radical, para o qual dogmas, postulados e axiomas são todos indiscerníveis entre si e valem a mesma coisa, isto é, nada. É oportuno lembrar que o filósofo e matemático austríaco Kurt Gödel (1906-78), com seus teoremas da incompletude, se não colocou em xeque, ao menos criou dificuldades para a própria lógica formal. Mas, mesmo nesse registro hiperbólico, a ciência apresenta vantagens sobre as religiões.

Ela tem como subproduto tecnologias, que constituem uma "prova" indireta não tanto de sua "exatidão", mas pelo menos de que o métodos científico leva a algum lugar. O foguete que eu construo com base em minhas idéias sobre a física, desde que corretamente lançado, me levará à Lua quer eu seja judeu, ateu, católico, muçulmano ou corintiano. Já com as religiões, as mesmas ações que levariam o partidário de uma ao paraíso atiram-no no inferno segundo a doutrina da outra.

Tomemos uma dessas medidas indiretas, a evolução da expectativa de vida ao nascer. Estima-se que o tempo médio de vida do homem de Neanderthal fosse de 20 anos. No Paleolítico Superior, o Homo sapiens chegava a algo como 33 anos. Na Idade do Bronze, com o advento da agricultura e o aumento do tamanho dos assentamentos humanos (mais doenças e guerras mais mortíferas), a expectativa de vida cai para 18 anos. Noções de higiene desenvolvidas por gregos e romanos (saneamento) conseguem elevar a média para 36-45 (Grécia clássica) 20-30 (Roma clássica). Mas, no século 20 e início do 21, na chamada era científica, assistimos a um um verdadeiro salto da esperança de vida, que atinge os 67 anos (média global), quase 80 se considerarmos só os países desenvolvidos. Um cético hiperbólico diria que a correlação nada prova. Um dogmático religioso diria que este é o plano de Deus. Já eu prefiro atribuir tal avanço a subprodutos da ciência como antibióticos, vacinas e grandes excedentes agrícolas. Em poucas palavras, embora a ciência esteja conosco de forma razoavelmente bem estabelecida há apenas 200 anos, já fez mais pelo bem-estar da humanidade do que todas as rezas e mandingas de religiosos durante milênios.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Perguntas e Respostas Sobre Ateísmo com Richard Dawkins

Traduzido por Daniel Vasques de http://richarddawkins.net/article,1219,The-Atheism-FAQ-with-Richard-Dawkins,Diganta-Richard-Dawkins

Link original: http://desicritics.org/2007/05/26/003610.php

Por Diganta e Richard Dawkins

Obrigado a ranjani pelo link

Richard Dawkins, autor do best-seller do NY Times - Deus, um delírio - foi entrevistado muitas vezes recentemente. As questões colocadas eram principalmente relacionadas a seu livro, as visões sobre ateísmo, moralidade e o mundo atual.

Ele respondeu a todas as questões de um modo impecável e confiante. Toda resposta fala sobre a sua paixão e a sua ânsia de explicar sua posição sobre cada ponto. É uma experiência incrível vê-lo falando. Tentei levantar alguns tópicos comumente perguntados e suas respectivas respostas.

Por que você é contra a fé?

Porque eu sou uma pessoa que se importa com a verdade. A religião e qualquer tipo de dogma são os grandes obstáculos contra a verdade. Não só isso, também me preocupo com a posição que a religião ocupa em nossa sociedade. Você pode atacar a visão política de alguém, criticar um técnico de futebol, mas não pode atacar a fé religiosa de ninguém. É uma espécie de imunidade a críticas que a religião experimenta, apesar de ser provado que isso é ilógico.

Há bilhões de pessoas pelo mundo seguindo suas fés e vivendo suas vidas. Como você as descreve?

Claro, há bilhões de pessoas vivendo suas vidas religiosas e a maioria delas são inofensivas. Mas elas carregam um vírus de fé com elas, que transmitem de uma geração a outra, e poderiam criar uma 'epidemia' de fé a qualquer momento. Como eu disse, sou uma pessoa que se importa com a verdade e também quero ver as pessoas seguindo a verdade. A verdade não é uma revelação, mas a verdade foi estabelecida através de evidências e experimentos repetidos.

Há cientistas que são religiosos. O que você acha deles?

Sim, infelizmente há muitos bons cientistas que o são. Embora eu não entenda claramente sua posição na vida, me parece que ou eles agem como pessoas religiosas conscientemente por alguma outra razão ou compartimentalizam suas visões baseadas no contexto.

Pessoas religiosas afirmam que tiram sua moralidade da religião. De onde deriva a moralidade de um ateu?

Pessoas religiosas não tiram sua moralidade da religião. Eu discordo (com o entrevistador) neste ponto. Quase todos nós concordamos com bases morais onde a religião não tem efeito. Por exemplo, nós todos odiamos a escravidão, nós queremos a emancipação das mulheres - são todas nossas bases morais. Essas bases morais começaram a ser construídas apenas alguns séculos atrás e muito depois de todas as religiões já terem se estabelecido. Nossa moralidade deriva do ambiente em que vivemos, talk shows, romances, editoriais de jornais e, é claro, orientação dos pais. A religião talvez teria apenas um papel pequeno a desempenhar nesse campo. Um ateu tem sua moralidade derivada das mesmas fontes que as pessoas religiosas.

Mas todos os livros religiosos dão orientação moral às pessoas, como não matar o próximo. Por que você acha que eles ainda são ruins?

Os livros religiosos falam sobre não matar o próximo da mesma maneira que falam em não mostrar a pele das mulheres e em matar os infiéis. O Deus do Velho Testamento, conforme eu descrevi, não é de modo algum uma 'pessoa' boa. Deus é certamente muito melhor no Novo Testamento. Contudo, quando você seleciona e escolhe os versos bons de um livro religioso, os parâmetros, aqueles que você usa, certamente não vêm da religião em si. Por exemplo, quando você diz que o Novo Testamento é melhor, você certamente não está usando o Cristianismo como juiz. Os parâmetros que você usa são o efeito da moralidade que já está em você assimilada das diferentes fontes da sua vida.

Em seu livro, você diz que Deus 'quase com certeza não existe'. Por que deixa aberta a possibilidade?

Qualquer pessoa de ciência deixará aberta a possibilidade, já que não é possível negar a existência de qualquer evento improvável. Eu seria a primeira pessoa a aceitar Deus se as evidências apontassem a favor dele.

Então você aceita que a Ciência não pode negar a existência de Deus. Qual é o problema se as pessoas seguem as religiões até que Deus seja descartado?

A Ciência não pode negar Deus assim como não pode negar Apollo nem Juju nem Thor com seu martelo nem mesmo um monstro de spaghetti voador criando o universo. Contudo, nós não acreditamos neles porque é improvável que eles existam. Nós também não acreditamos nas fadas de Hans Andersen embora não possamos provar sua inexistência. Acreditar em um evento improvável ou em uma deidade apenas porque não podemos provar sua inexistência parece tolice para mim.

Por que você não acha que o Universo, imenso, complexo e misterioso seja criação de um ser Supremo, onde podemos ver que todas as coisas complexas são de fato criadas?

Primeiro, se você assume que todas as coisas complexas são criadas, então um Deus, capaz de criar um universo tão complexo, também deve ser uma entidade complexa e também deve ter um criador. Por outro lado, se você seguir o caminho da evolução Darwiniana, você verá como um organismo complexo pode ser construído a partir de seres relativamente mais simples pelo processo de Seleção Natural. E é muito mais lógico acreditar que nós e o Universo em geral começamos de um começo mais simples do que um criador complexo dando início a tudo.

Quando você fica no topo de uma montanha, a vastidão do mundo não o abala? Você não fica encantado com a beleza da natureza e com as misteriosas leis do vasto Universo?

Claro que sim. E eu mencionei isso no primeiro capítulo do meu livro como a espiritualidade seguida por Einstein. Ele estava muito encantado com os mistérios do mundo e era uma experiência muito excitante explorá-los. É um tipo de espiritualidade que não requer Deus, uma deidade pessoal para explicar os mistérios da Natureza. É bem diferente de uma religião centralizada em torno de um Deus que pode ler mentes, manter rastros de pecados, julgar pessoas após a morte, punir descrentes e regrar o Universo.

Qual a sua opinião acerca de Stalin e Hitler como ateus?

Eu disse em meu livro que Hitler não era de modo algum ateu, já que ele era religiosamente inclinado contra os Judeus. Stalin estava dogmaticamente seguindo o comunismo. Eu já falei que nenhum de nós, efetivamente, obtém sua moralidade pela religião. Stalin, de fato, usava o comunismo dogmático como sua fonte de moralidade - se pudermos chamar isso de moralidade. Ser ateu não requer que você se torne dogmático nem comunista, apenas requer que você não acredite em Deus. Uma pessoa trabalhando num grupo da Máfia pode também ser ateu embora seja ilógico afirmar que o ateísmo tenha impulsionado o tal sujeito a isso. Há outros colegas trabalhando com ele que são religiosos.

Por que você relaciona religião com 'abuso infantil'?

Eu relaciono rotular as crianças como 'menino judeu' ou 'criança muçulmana' como abuso infantil porque, na infância, as crianças ainda não escolheram sua visão religiosa. Não apenas isso, elas são criadas de um modo separado de outros grupos e visões religiosas de forma que sigam a fé religiosa de seus pais. Obstruir a visão das crianças claramente constitui abuso infantil.

Sua ambição é que as pessoas que lerem o seu livro abandonem sua fé, não é?

Não há mal algum em sonhar alto e pode-se dizer que essa é minha ambição. Mas, na prática, queremos que as pessoas que seguem o terreno médio, que nunca pensaram mais profundamente nesse assunto, pensem duas vezes e conscientemente rejeitem Deus. Também posso ver que, nos EUA, 10 a 15% das pessoas são ateus, mais que qualquer grupo religioso minoritário. Contudo, eles não têm quaisquer poderes políticos ou lobbies comparados a um forte lobby judeu. Eu quero que os ateus se unam e estabeleçam uma visão política 'neutra em relação a Deus', com uma visão própria, para um mundo melhor e mais equilibrado.

Referências

  1. Entrevista com Jeremy Paxman na BBC.
  2. Entrevista na CNN no Dia de Darwin
  3. Entrevista na TV Ontario (parte 1, parte 2 e parte 3)
  4. Entrevista no The Hour (parte 2)
  5. O debate - parte 1, parte 2 e parte 3
  6. RichardDawkins.net para mais fontes de vídeos/entrevistas

Diganta Sarkar é um Profissional de Software. Ele é curioso sobre o mundo da ciência e da cultura. Seu objetivo ao escrever é apresentar sua visão lógica ao mundo. Ele apresenta suas visões em seu próprio blog (horizonspeaks) assim como em desicritics.

Post original: 2 de junho de 2007

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Matéria Revista Veja

Interessantíssima essa matéria sobre ateísmo.

Não é todo dia que podemos nos deparar com textos bem escritos, embora com um certo quê de panos quentes em cima do tema, em revistas de grande circulação.

O link está aí: http://veja.abril.uol.com.br/261207/p_070.shtml

Algumas reportagens ainda estão bloqueadas. Vale a pena comprar a revista.

Mas em duas semanas eles prometeram desbloquear. Pelo menos é o que diz o site das revistas da editora Abril.