Entrevista com Richard Dawkins falando sobre seu best-seller.
Muito boa.
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domingo, 30 de novembro de 2008
Richard Dawkins Fala Sobre "Deus, um Delírio"
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Richard Dawkins
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Livros lidos e recomendados




domingo, 6 de janeiro de 2008
A Cura dos Charlatões
Republicado de Brasil Wiki
Por Rodrigo Constantino
“Não existe medicina alternativa, existe apenas medicina que funciona e medicina que não funciona.” (John Diamond)
Um dos grandes defensores da ciência atualmente é Richard Dawkins, cujo livro O Capelão do Diabo aborda diferentes tópicos de forma bastante interessante. Um dos temas tratados no livro é a medicina “alternativa”, onde o autor busca desmontar todas as falácias que sustentam a enorme popularidade deste tipo de tratamento, não restando pedra sobre pedra. Dawkins vai sem rodeios, direto ao ponto: “Não há nenhum limite óbvio para a credulidade humana. Somos dóceis vaquinhas ingênuas, vítimas ávidas dos curandeiros e charlatões que mamam e engordam às nossas custas”. A história da humanidade está repleta de casos de embusteiros que se cercam de uma aura de misticismo, explorando a ignorância e o desespero alheio.
Sociedades mais atrasadas demonstram uma inclinação maior a este tipo de crença, enquanto o avanço do conhecimento aumenta a confiança nas soluções científicas, testadas e aprovadas. Dawkins alega que “o mundo é misterioso o suficiente para dispensar a ajuda de feiticeiros, xamãs e vigaristas ‘paranormais’”. Ele abomina o relativismo cultural, descrito por ele como a “vertente de filosofia delirante” que nega a superioridade do método científico como caminho privilegiado para a verdade. Cada um teria a “sua” verdade, segundo os relativistas. Dawkins sugere que os cientistas devem responder à alegação de que a “fé” na lógica e na verdade científica não é nada além de fé da seguinte maneira: “O mínimo que se pode responder é que a ciência produz resultados”.
Em O Rio que Saía do Éden ele já havia dito: “Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita”. O fato é que o avião não consegue voar por causa de algum misticismo qualquer, que depende do prisma cultural, mas porque “engenheiros ocidentais cientificamente treinados acertaram nas contas”. Para Dawkins, “as pessoas são leais a outros sistemas de crença pela simples razão de que foram criadas daquela maneira e nunca chegaram a conhecer uma alternativa melhor”. Ou seja, “quando elas têm a sorte de poder escolher, os médicos e outros profissionais do gênero prosperam, ao passo que os feiticeiros entram em declínio”.
Um dos capítulos do livro é um prefácio escrito ao livro póstumo de John Diamond, quem Dawkins admira muito por sua coragem intelectual, isto é, a coragem de se manter fiel aos próprios princípios intelectuais mesmo diante da morte. Acometido pelo câncer, Diamond foi tentado por todo tipo de solução “mágica”, mas sempre se manteve fiel aos valores científicos. Na hora do desespero, os “abutres das terapias ‘alternativas’ ou ‘complementares’ começam a voar em volta”. Afinal, “a esperança é um produto vendável: quanto mais desesperadamente se necessitar de esperança, mais rica será a colheita”. A frase de Sebastien Faure resume bem a idéia: “As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão”. Quando há desespero, fica muito mais fácil vender soluções “milagrosas”, que dependem da fé, e nunca do conhecimento verdadeiro. Uma pílula “mágica” de papel, junto com muita fé, irá resolver o problema. E vemos vários desesperados jogando suas muletas e seus óculos fora, na tola esperança de que poderão andar ou enxergar normalmente, apenas com base na fé. Se a medida falha, como normalmente ocorre, então a culpa é do próprio doente, que não teve fé suficiente. Os embusteiros estão protegidos.
Há um abismo instransponível entre as curas “alternativas” e a medicina verdadeira. Na visão de John Diamond e também de Dawkins, “a medicina científica se define como um conjunto de práticas que se submetem ao suplício dos testes. A medicina alternativa é definida como um conjunto de práticas que não podem ser testadas, se recusam a ser testadas ou são invariavelmente reprovadas nos testes. Se for demonstrado em testes de duplo-cego adequadamente controlados que uma técnica terapêutica tem propriedades curativas, ela deixará de ser alternativa”. Em outras palavras, ou é verdade que um remédio funciona ou não é verdade. Para descartar o efeito placebo, extremamente comum, é fundamental aplicar tais testes. Muitos candidatos a medicamentos “ortodoxos” falham nos testes e são sumariamente abandonados. O rigor científico não é brincadeira, diferente da pretensão dos “curandeiros alternativos”, uma brincadeira que pode custar caro por alimentar falsas esperanças.
O motivo pelo qual tantos acabam impressionados pelas “curas alternativas” e “milagres” é explicado por Dawkins: “Boa parte da história da ciência, especialmente da ciência médica, consistiu numa progressiva libertação do fascínio superficial exercido pelas histórias individuais, que parecem – mas apenas parecem – revelar um padrão. A mente humana é uma contadora de casos obstinada e, mais que isso, busca avidamente encontrar padrões”. Ele oferece o antídoto: “A mente humana precisa aprender a suspeitar de sua propensão inata para enxergar padrões onde existe apenas acaso. É para isso que serve a estatística, e é por isso que nenhuma droga ou terapêutica deveria ser adotada até que seu efeito tivesse sido comprovado por um experimento submetido à análise estatística, no qual a inclinação da mente humana a encontrar padrões, tão sujeita a enganos, tenha sido sistematicamente afastada. Histórias pessoais nunca resultam em demonstrações satisfatórias de alguma tendência geral”. Um dos alvos escolhidos por Dawkins como exemplo é a homeopatia, extremamente popular. Os homeopatas vivem insistindo que os testes científicos não são adequados para sua “medicina”. Um princípio fundamental da teoria homeopática é que o ingrediente ativo – a arnica, o veneno de abelha, ou seja o que for – deve ser sucessivamente diluído um grande número de vezes, até que não reste nem uma só molécula do ingrediente. Em outras palavras, a bolinha é um placebo! Para sair desse dilema embaraçoso, os homeopatas alegam que o modo de ação de seus remédios não é químico, mas físico. Dawkins diz: “Eles acreditam que, por algum mecanismo físico que os próprios físicos desconhecem, uma espécie de ‘traço’ ou de ‘memória’ das moléculas ativas se imprime nas moléculas de água empregada para diluí-las”. Acontece que isso é uma hipótese científica, que pode, portanto, ser testada. Todo homeopata que realmente acredita nisso teria todo interesse do mundo em testar tal hipótese. Não só sua medicina ganharia muito mais aceitação e confiança, como aquele que provasse a hipótese seria forte candidato ao prêmio Nobel. Curiosamente – ou nem tanto – não vemos os próprios homeopatas correndo para laboratórios a fim de testar suas teorias. Preferem buscar refúgio na alegação de que certas coisas simplesmente não se prestam à verificação científica. Assim até eu.
Em resumo, à medida que o conhecimento científico vai avançando, as sociedades vão deixando para trás os embustes das feitiçarias, macumbas e milagres. A crença nessas tolices poderia ser apenas um passatempo inofensivo, não fossem os efeitos perversos gerados pela falsa esperança. Os charlatões da cura prejudicam muitos inocentes ignorantes. A cura para os charlatões está no conhecimento científico, o seu grande inimigo.
Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças no IBMEC, ator dos livros Prisioneiros da Liberdade e Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT, entre outros.
Por Rodrigo Constantino
“Não existe medicina alternativa, existe apenas medicina que funciona e medicina que não funciona.” (John Diamond)
Um dos grandes defensores da ciência atualmente é Richard Dawkins, cujo livro O Capelão do Diabo aborda diferentes tópicos de forma bastante interessante. Um dos temas tratados no livro é a medicina “alternativa”, onde o autor busca desmontar todas as falácias que sustentam a enorme popularidade deste tipo de tratamento, não restando pedra sobre pedra. Dawkins vai sem rodeios, direto ao ponto: “Não há nenhum limite óbvio para a credulidade humana. Somos dóceis vaquinhas ingênuas, vítimas ávidas dos curandeiros e charlatões que mamam e engordam às nossas custas”. A história da humanidade está repleta de casos de embusteiros que se cercam de uma aura de misticismo, explorando a ignorância e o desespero alheio.
Sociedades mais atrasadas demonstram uma inclinação maior a este tipo de crença, enquanto o avanço do conhecimento aumenta a confiança nas soluções científicas, testadas e aprovadas. Dawkins alega que “o mundo é misterioso o suficiente para dispensar a ajuda de feiticeiros, xamãs e vigaristas ‘paranormais’”. Ele abomina o relativismo cultural, descrito por ele como a “vertente de filosofia delirante” que nega a superioridade do método científico como caminho privilegiado para a verdade. Cada um teria a “sua” verdade, segundo os relativistas. Dawkins sugere que os cientistas devem responder à alegação de que a “fé” na lógica e na verdade científica não é nada além de fé da seguinte maneira: “O mínimo que se pode responder é que a ciência produz resultados”.
Em O Rio que Saía do Éden ele já havia dito: “Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita”. O fato é que o avião não consegue voar por causa de algum misticismo qualquer, que depende do prisma cultural, mas porque “engenheiros ocidentais cientificamente treinados acertaram nas contas”. Para Dawkins, “as pessoas são leais a outros sistemas de crença pela simples razão de que foram criadas daquela maneira e nunca chegaram a conhecer uma alternativa melhor”. Ou seja, “quando elas têm a sorte de poder escolher, os médicos e outros profissionais do gênero prosperam, ao passo que os feiticeiros entram em declínio”.
Um dos capítulos do livro é um prefácio escrito ao livro póstumo de John Diamond, quem Dawkins admira muito por sua coragem intelectual, isto é, a coragem de se manter fiel aos próprios princípios intelectuais mesmo diante da morte. Acometido pelo câncer, Diamond foi tentado por todo tipo de solução “mágica”, mas sempre se manteve fiel aos valores científicos. Na hora do desespero, os “abutres das terapias ‘alternativas’ ou ‘complementares’ começam a voar em volta”. Afinal, “a esperança é um produto vendável: quanto mais desesperadamente se necessitar de esperança, mais rica será a colheita”. A frase de Sebastien Faure resume bem a idéia: “As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão”. Quando há desespero, fica muito mais fácil vender soluções “milagrosas”, que dependem da fé, e nunca do conhecimento verdadeiro. Uma pílula “mágica” de papel, junto com muita fé, irá resolver o problema. E vemos vários desesperados jogando suas muletas e seus óculos fora, na tola esperança de que poderão andar ou enxergar normalmente, apenas com base na fé. Se a medida falha, como normalmente ocorre, então a culpa é do próprio doente, que não teve fé suficiente. Os embusteiros estão protegidos.
Há um abismo instransponível entre as curas “alternativas” e a medicina verdadeira. Na visão de John Diamond e também de Dawkins, “a medicina científica se define como um conjunto de práticas que se submetem ao suplício dos testes. A medicina alternativa é definida como um conjunto de práticas que não podem ser testadas, se recusam a ser testadas ou são invariavelmente reprovadas nos testes. Se for demonstrado em testes de duplo-cego adequadamente controlados que uma técnica terapêutica tem propriedades curativas, ela deixará de ser alternativa”. Em outras palavras, ou é verdade que um remédio funciona ou não é verdade. Para descartar o efeito placebo, extremamente comum, é fundamental aplicar tais testes. Muitos candidatos a medicamentos “ortodoxos” falham nos testes e são sumariamente abandonados. O rigor científico não é brincadeira, diferente da pretensão dos “curandeiros alternativos”, uma brincadeira que pode custar caro por alimentar falsas esperanças.
O motivo pelo qual tantos acabam impressionados pelas “curas alternativas” e “milagres” é explicado por Dawkins: “Boa parte da história da ciência, especialmente da ciência médica, consistiu numa progressiva libertação do fascínio superficial exercido pelas histórias individuais, que parecem – mas apenas parecem – revelar um padrão. A mente humana é uma contadora de casos obstinada e, mais que isso, busca avidamente encontrar padrões”. Ele oferece o antídoto: “A mente humana precisa aprender a suspeitar de sua propensão inata para enxergar padrões onde existe apenas acaso. É para isso que serve a estatística, e é por isso que nenhuma droga ou terapêutica deveria ser adotada até que seu efeito tivesse sido comprovado por um experimento submetido à análise estatística, no qual a inclinação da mente humana a encontrar padrões, tão sujeita a enganos, tenha sido sistematicamente afastada. Histórias pessoais nunca resultam em demonstrações satisfatórias de alguma tendência geral”. Um dos alvos escolhidos por Dawkins como exemplo é a homeopatia, extremamente popular. Os homeopatas vivem insistindo que os testes científicos não são adequados para sua “medicina”. Um princípio fundamental da teoria homeopática é que o ingrediente ativo – a arnica, o veneno de abelha, ou seja o que for – deve ser sucessivamente diluído um grande número de vezes, até que não reste nem uma só molécula do ingrediente. Em outras palavras, a bolinha é um placebo! Para sair desse dilema embaraçoso, os homeopatas alegam que o modo de ação de seus remédios não é químico, mas físico. Dawkins diz: “Eles acreditam que, por algum mecanismo físico que os próprios físicos desconhecem, uma espécie de ‘traço’ ou de ‘memória’ das moléculas ativas se imprime nas moléculas de água empregada para diluí-las”. Acontece que isso é uma hipótese científica, que pode, portanto, ser testada. Todo homeopata que realmente acredita nisso teria todo interesse do mundo em testar tal hipótese. Não só sua medicina ganharia muito mais aceitação e confiança, como aquele que provasse a hipótese seria forte candidato ao prêmio Nobel. Curiosamente – ou nem tanto – não vemos os próprios homeopatas correndo para laboratórios a fim de testar suas teorias. Preferem buscar refúgio na alegação de que certas coisas simplesmente não se prestam à verificação científica. Assim até eu.
Em resumo, à medida que o conhecimento científico vai avançando, as sociedades vão deixando para trás os embustes das feitiçarias, macumbas e milagres. A crença nessas tolices poderia ser apenas um passatempo inofensivo, não fossem os efeitos perversos gerados pela falsa esperança. Os charlatões da cura prejudicam muitos inocentes ignorantes. A cura para os charlatões está no conhecimento científico, o seu grande inimigo.
Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças no IBMEC, ator dos livros Prisioneiros da Liberdade e Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT, entre outros.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Entrevista com Sam Harris na Revista Veja de 26/12
A RELIGIÃO FAZ MAL AO MUNDO
O FILÓSOFO SAM HARRIS, UM DOS ATEUS MAIS BARULHENTOS DOS EUA, DIZ QUE SÓ COM O FIM DA FÉ SE PODERÁ ERGUER UMA CIVILIZAÇÃO GLOBAL
Dependendo do ângulo e que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma desconcertante semelhança física com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados Unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a Uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário (discordo), mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: "A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalism, o racismo ou a política". Ele deu a seguinte entrevista:
O MOVIMENTO DOS ATEUS É FORTE NOS ESTADOS UNIDOS E NA INGLATERRA, PRINCIPALMENTE. É UMA DECORRÊNCIA DOS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001? Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 11 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocuparem com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.
POR QUÊ? A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.
O SENHOR ACHA QUE O MUNDO SERIA MELHOR SEM RELIGIÃO, SEM FÉ, SEM CRENÇA EM DEUS? Seria melhor se não houvesse mentiras. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentiras. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe na verdade não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimentar seu poder de se iludir e se enganar.
É POSSÍVEL CONCILIAR CIÊNCIA E RELIGIÃO? A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.
HAVERÁ O DIA EM QUE A HUMANIDADE DEIXARÁ DE TER FÉ OU A FÉ FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA? O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo. É claro que nossa compreensão do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem a Bíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.
MAS NEM A BÍBLIA NEM O CORÃO SE PRETENDEM UM MANUAL CIENTÍFICO PARA ENTENDER O MUNDO. Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. A Bíblia e o Corão, por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão, além de não servirem como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.
QUE TIPO DE IMPACTO SEU LIVRO PODE TER SOBRE OS LEITORES RELIGIOSOS? Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntarem por que, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma única pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristã com a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. é hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.
O BRASIL É UM PAÍS APARENTEMENTE TOLERANTE COM AS DIFERENTES RELIGIÕES E CONHECIDO PELO SINCRETISMO RELIGIOSO. NUM PAÍS ASSIM, É MAIS FÁCIL OU MAIS DIFÍCIL PARA O ATEÍSMO CRESCER? Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas a serem descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.
O FILÓSOFO SAM HARRIS, UM DOS ATEUS MAIS BARULHENTOS DOS EUA, DIZ QUE SÓ COM O FIM DA FÉ SE PODERÁ ERGUER UMA CIVILIZAÇÃO GLOBAL

O MOVIMENTO DOS ATEUS É FORTE NOS ESTADOS UNIDOS E NA INGLATERRA, PRINCIPALMENTE. É UMA DECORRÊNCIA DOS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001? Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 11 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocuparem com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.
POR QUÊ? A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.
O SENHOR ACHA QUE O MUNDO SERIA MELHOR SEM RELIGIÃO, SEM FÉ, SEM CRENÇA EM DEUS? Seria melhor se não houvesse mentiras. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentiras. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe na verdade não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimentar seu poder de se iludir e se enganar.
É POSSÍVEL CONCILIAR CIÊNCIA E RELIGIÃO? A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.
HAVERÁ O DIA EM QUE A HUMANIDADE DEIXARÁ DE TER FÉ OU A FÉ FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA? O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo. É claro que nossa compreensão do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem a Bíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.
MAS NEM A BÍBLIA NEM O CORÃO SE PRETENDEM UM MANUAL CIENTÍFICO PARA ENTENDER O MUNDO. Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. A Bíblia e o Corão, por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão, além de não servirem como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.
QUE TIPO DE IMPACTO SEU LIVRO PODE TER SOBRE OS LEITORES RELIGIOSOS? Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntarem por que, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma única pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristã com a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. é hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.
O BRASIL É UM PAÍS APARENTEMENTE TOLERANTE COM AS DIFERENTES RELIGIÕES E CONHECIDO PELO SINCRETISMO RELIGIOSO. NUM PAÍS ASSIM, É MAIS FÁCIL OU MAIS DIFÍCIL PARA O ATEÍSMO CRESCER? Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas a serem descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.
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