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domingo, 30 de novembro de 2008

Richard Dawkins Fala Sobre "Deus, um Delírio"

Entrevista com Richard Dawkins falando sobre seu best-seller.

Muito boa.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Livros lidos e recomendados

"Deus, um Delírio" - Richard Dawkins
















"Deus não é Grande - como a religião envenena tudo" - Christopher Hitchens














"Carta a uma Nação Cristã" - Sam Harris





















"Quebrando o Encanto - a religião como fenômeno natural" - Daniel C. Dennett

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ciclones sobre a cruz

Repostado de Digestivo Cultural.

Por Guga Schultze

Uma das melhores leituras, em 2007, foi o best-seller de Richard Dawkins, Deus, um delírio (Companhia das Letras, 2007, 528 págs.). Julio Daio Borges, nosso editor, já escreveu sobre ele aqui, no Digestivo Cultural. A ousadia de Dawkins é bastante explícita, a ponto de protegê-lo da acusação de pretensioso ou arrogante, porque Dawkins se coloca de cara na linha de tiro, declarando a intenção de converter o leitor ao ateísmo. Não dá pra acusá-lo de tentar uma catequese invertida, ou de fazer um proselitismo escuso. Ele diz, com todas as letras, que é isso mesmo o que ele está tentando fazer.

Dawkins tem coragem, ao mexer numa casa de marimbondos. Uma casa bem menor, hoje, do que nos tempos de Bertrand Russell, quando este lançou, por volta de 1957, Porque não sou cristão (Livraria Exposição do Livro, 1972) ou quando Herman Hesse cometeu pequenas mas instigantes heresias e apostasias em Demian. De qualquer forma, é preciso um mínimo de coragem para afrontar uma "insensatez generalizada, erguida em consenso, a ferro e fogo, sobre o Ocidente".

As críticas que Dawkins recebeu pela sua "virulência" são infundadas. Deus, um delírio é um livro suave, bastante bem-humorado, tranqüilo, até. Pese as falhas da tradução, que tornam muitas passagens mal articuladas, o livro é bastante claro, no seu todo. O tradutor parece que não acompanha bem o que Dawkins está dizendo, ou não entende bem o que ele diz, de forma que às vezes é literal demais, uma coisa perigosa quando se traduz do inglês, particularmente.

Dawkins vai contra a idéia de "deus", no geral. Por tabela, ataca a religião. A culpa não é de Dawkins apenas, já que a religião se apossou quase que totalmente de "deus", de forma que fica difícil pra qualquer um falar em deus fora da esfera da influência religiosa. As religiões se proclamaram, desde sempre, porta-vozes exclusivas da questão, não dando espaço para nenhuma outra forma de se tratar o assunto, a não ser nos próprios moldes, ou seja, transformaram "deus" em uma questão de fé, apenas.

O darwinismo de Dawkins é sofisticado e maleável ao ponto de ser uma interpretação a posteriori daqueles princípios básicos. Ele não repete Darwin, apenas se orienta por onde Darwin abriu caminho. E, evidentemente, Dawkins apresenta o evolucionismo como ferramenta para a compreensão da natureza, não como verdade em si. Dawkins pareceria dizer que "deus" também pode ser uma questão de investigação científica. Mas nem Dawkins escapou totalmente da imposição religiosa de "deus", de maneira que, quando descarta a idéia, está descartando o novelo religioso por inteiro.

No livro Cem anos de solidão, de García Márquez, o padre de Macondo vem visitar o velho patriarca, José Arcadio Buendía, que está meio louco, preso por cordas debaixo de uma castanheira. O padre vem humanitariamente fazer companhia ao velho e tenta ensinar o jogo de xadrez. Ao perceber que o jogo é uma batalha, o patriarca confunde o padre ao dizer que não concebe como duas facções inimigas podem concordar com as mesmas regras.

Algo parecido está em jogo no livro de Dawkins, na medida em que a religião apresenta apenas duas alternativas, como uma regra única para o jogo do ser humano à procura de suas origens: crer ou não crer em deus. Ou seja, crer, segundo a religião, é a única forma de encarar a hipótese de um criador. E, uma vez aceita a hipótese, apresenta-se ao crente a imagem religiosa de deus, com todas as suas implicações extremamente humanas e, por que não, absurdas. Dawkins escolhe não crer.

Dawkins recebeu pelo menos uma resposta, O delírio de Dawkins, livro de um casal de teólogos, Alister e Joanna McGrath. Bem escrito mas cheio de evasivas, não tem, nem de longe, o impacto natural que Dawkins provoca. Talvez mereça uma resposta de Dawkins, e os autores podem agradecer à boa sorte por ser Dawkins o debatedor e não Christopher Hitchens.

O livro de Dawkins é até um livro calmo. O mesmo não se pode dizer de Deus não é grande, do jornalista inglês, citado acima, Christopher Hitchens. Hitchens não é cientista e não tenta calmamente provar que está certo. Apenas detona a religião, baseado em suas experiências como jornalista, em sua capacidade de pensar por si mesmo e em seu desprezo agudo por enganações de toda espécie. Um verbo que Hitchens deve odiar, sem culpa, é "tergiversar".

Em comum, Hitchens e Dawkins defendem a moralidade natural do ser humano, em contraste com a necessidade dessa moral ser "soprada" dos altos escalões celestes, como insistem os pastores para o rebanho. Para Hitchens o comportamento das altas cúpulas celestiais, eclesiásticas e do rebanho inteiro chega a ser imoral.

Até aí eles estão parelhos, mas enquanto Dawkins se esforça pela volta de um iluminismo científico e, provavelmente, está atento às repercussões positivas do seu livro, Hitchens não está nem aí. Demarca friamente sua distância da procissão dos crentes, é brilhante sem tentar ser persuasivo e contundente até onde sua experiência nas letras (ou no jornalismo) lhe permite. Aceita tranqüilamente que "o mal", digamos assim, está presente no homem e independe da religião. Mas ridiculariza esse mesmo argumento quando é usado para justificar atrocidades cometidas em nome de deus. Hitchens não aceita irresponsabilidades e exige responsabilidade assumida.

Não pretendo me estender demais sobre os dois livros. Não caberia aqui. Basta apontá-los como boas leituras, de certa forma originais na medida em que são poucos os livros que "peitam" as crenças em geral.

Existem mais alguns dignos de nota, como o ótimo romance Um riso na catedral, do brasileiro Dalmy Gama, professor de literatura, que apresenta uma visão esclarecedora e original sobre crenças, crendices e o que pode estar por trás disso tudo. Outros, mais antigos (e surpreendentes por isso mesmo) como o já citado Porque não sou cristão, de Bertrand Russell e La desilusion de un sacerdote, de um ex-teólogo alemão radicado na Argentina, Franz Griese, são leituras pra lá de esclarecedoras.

A pergunta que geralmente se faz diante dessa controvérsia toda é: por que se preocupar com este assunto? Por que se ocupar com esse debate pró ou contra a religião e qual seria, afinal, a importância desse mesmo debate?

Há várias respostas pertinentes a essa pergunta. Uma delas, talvez a mais abrangente, é que pode mesmo ser necessário ao homem um aprofundamento da velha questão "quem somos, de onde viemos e para onde vamos". Na medida em que a religião pretende que essas perguntas fiquem inteiramente sob sua órbita de influência ou, pior, pretende responder de modo arbitrário a essas indagações, fornecendo nomes, datas, tamanho, modus operandi, endereço, objetivos e idéias da própria entidade conhecida como "o criador", o debate já se justifica.

Só o tamanho absurdo do cosmos, crescendo ao longo das últimas seis décadas (quando foi brutalmente ampliado), depõe, e de uma forma cada vez mais categórica, contra a pretensão humana de ser o centro das atenções do suposto criador desse mesmo cosmos.

Outra resposta possível, mais na esteira do livro de Hitchens, é que a religião, principalmente no Ocidente, firmou-se em bases extremas de ódio. Seis séculos de Inquisição são mais do que suficientes para qualquer religião ter criado seus opositores ferrenhos.

Ao contrário dos europeus, que sofreram diretamente vários flagelos religiosos, o cristão brasileiro não leva tão a sério sua própria fé. "Ouso dizer" (como diz Hitchens) que o o cristão tupiniquim é, geralmente, um despreocupado sem-vergonha. Menos mal. Não frequenta muito a igreja, não se confessa, escolhe no que acreditar, mistura crenças diversas, mantém comércios pessoais com santinhos, conhece a Bíblia de ouvir falar. Em suma, não conhecem bem a religião que professam e ficam meio perplexos com essa "tempestade em copo d'água", promovida por esses autores estrangeiros.

O próprio Leonardo Boff, figura que me parece a síntese do catolicismo brasileiro mais esclarecido ― ameno, humanista e bem-intencionado ―, molha a camisa tentando esclarecer para si e para outros cristãos a realidade da Inquisição, num longo prefácio ao livro mor do Tribunal do Santo Ofício, o Manual dos Inquisidores, usado pela Igreja durante alguns meros séculos. A herança dessa realidade ainda não se dissipou de todo.

Deus parece um tabu. Podemos sentir, em qualquer lugar, o desconforto gerado pela simples menção da divindade. A gente tolera, ainda com razoável simpatia, as expressões tipo "graças a deus" ou "pelo amor de deus" mas, mesmo essas, precisam ser instintivamente dosadas. Seu uso constante não faz bem pra imagem pessoal. Normalmente essas expressões são acompanhadas de rápidos olhares para cima e igualmente rápidas expressões faciais de desamparo. Suportáveis ainda numa tia sabidamente carola, mas não numa pessoa de quem se espera ouvir alguma coisa interessante. Basta alguém olhar para cima e dizer, com convicção, "deus seja louvado" para que a sua próxima frase sofra uma queda enorme no seu percentual de credibilidade.

São razões que talvez não interessem tanto a todo mundo. Ainda que praticamente todo mundo tenha sofrido pelo menos os ecos meio aterrorizantes de palavras cheias de ameaça contra sua integridade física, mental ou espiritual, como queiram. Mas, como diz a Bíblia, "tempo de semear, tempo de colher". E sem colher de chá.

Comentário: O autor mandou muito bem. Crítico, sem medo de expôr suas idéias, e com bastante coerência naquilo que diz. Sem mais comentários. Deixo a critério de vocês, leitores.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Respostas de Richard Dawkins às críticas de "Deus, um delírio"

Repostado de 1001 gatos.

NÃO SE PODE CRITICAR A RELIGIÃO SEM UMA ANÁLISE DETALHADA DE LIVROS ERUDITOS DE TEOLOGIA.

Best-seller-surpresa? Se eu tivesse me embrenhado, como um crítico intelectual consciente gostaria, nas diferenças epistemológicas entre Aquino e Duns Scotus; se tivesse feito jus a Erígena na questão da subjetividade, a Rahner na da graça ou a Moltmann na da esperança (como ele esperou em vão que eu fizesse), meu livro teria sido mais que um best-seller- surpresa: teria sido um best-seller milagroso. Mas a questão não é essa. Diferentemente de Stephen Hawking (que seguiu o conselho de que cada fórmula que ele publicasse reduziria as vendas pela metade), eu de bom grado abriria mão do status de best-seller caso houvesse a mais remota esperança de que Duns Scotus fosse iluminar minha questão central, se Deus existe ou não. A enorme maioria dos textos teológicos simplesmente assume que ele existe, e parte daí. Para os meus propósitos, preciso levar em conta apenas os teólogos que considerem a sério a possibilidade de que Deus não exista e argumentem por sua existência. Acho que isso o capítulo 3 faz, com — espero — bom humor e abrangência suficientes. Em termos de bom humor, não tenho como superar a esplêndida “Resposta do cortesão”, publicada por P. Z. Myers em seu blog Pharyngula.

Analisei as insolentes acusações do sr. Dawkins, exasperado com sua falta de seriedade acadêmica. Aparentemente, ele não leu os discursos detalhados do conde Roderigo de Sevilha sobre o couro singular e exótico das botas do imperador, nem dedica um segundo sequer à obra-prima de Bellini, Sobre a luminescência do chapéu de plumas do imperador. Temos escolas inteiras dedicadas a escrever tratados eruditos sobre a beleza dos trajes do imperador, e todos os grandes jornais têm uma seção dedicada à moda imperial; […] Dawkins ignora com arrogância todas essas ponderações filosóficas profundas e acusa cruelmente o imperador de nudez. […] Enquanto Dawkins não for treinado nas lojas de Paris e Milão, enquanto não aprender a distinguir um babado de uma pantalona, devemos todos fingir que ele não se manifestou contra o gosto do imperador. Sua educação em biologia pode lhe dar a capacidade de reconhecer genitálias balançantes quando vir uma, mas não o ensinou a apreciar adequadamente os Tecidos Imaginários.

Ampliando o argumento, a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante. A próxima crítica é parente desta: a grande crítica do “testa-de-ferro”.

VOCÊ SEMPRE ATACA O QUE HÁ DE PIOR NA RELIGIÃO E IGNORA O QUE HÁ DE MELHOR.

“Você persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard, Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou Bonhoeffer, que ensinam o tipo de religião em que acredito.” Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osama bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.

SOU ATEU, MAS QUERO ME DISSOCIAR DE SUA LINGUAGEM ESTRIDENTE, DESTEMPERADA E INTOLERANTE.

Na verdade, quando se analisa a linguagem de Deus, um delírio, ela é menos destemperada ou estridente do que a que achamos muito normal — quando ouvimos analistas políticos, por exemplo, ou críticos de teatro, arte ou literatura. Minha linguagem só soa contundente e destemperada por causa da estranha convenção, quase universalmente aceita (veja a citação de Douglas Adams nas páginas 45 e 46), de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica.

Em 1915, o parlamentar britânico Horatio Bottomley recomendou que, depois da guerra, “se por acaso num restaurante você descobrir que está sendo servido por um garçom alemão, jogue a sopa na cara suja dele; se você se vir sentado ao lado de um secretário alemão, vire o tinteiro na cabeça suja dele”. Isso, sim, é estridente e intolerante (e, eu teria pensado, ridículo e ineficaz como retórica mesmo para aquela época). Compare a frase com a que abre o capítulo 2, que é o trecho citado com mais freqüência como “estridente”. Não cabe a mim dizer se fui bem-sucedido, mas minha intenção estava mais próxima da de um golpe duro, mas bem-humorado, do que da polêmica histérica. Nas leituras em público de Deus, um delírio, esse é exatamente o trecho que garantidamente produz uma boa risada, e é por isso que minha mulher e eu sempre o usamos como abertura para quebrar o gelo com uma nova platéia. Se eu pudesse me aventurar a sugerir por que o humor funciona, acho que diria que é o desencontro incongruente entre um assunto que poderia ter sido expresso de forma estridente ou vulgar e a expressão real, numa lista compridíssima de latinismos ou pseudo-academicismos (”filicida”, “megalomaníaco”, “pestilento”).

Meu modelo aqui foi um dos escritores mais engraçados do século xx, e ninguém chamaria Evelyn Waugh de histérico ou estridente (até entreguei o jogo ao mencionar seu nome na anedota que vem logo depois, na página 55). Críticos de literatura ou de teatro podem ser zombeteiramente negativos e ganhar elogios pela contundência sagaz da resenha. Mas nas críticas à religião até a clareza deixa de ser virtude para soar como hostilidade. Um político pode atacar sem dó um adversário no plenário do Parlamento e receber aplausos por sua combatividade. Mas basta um crítico sóbrio e justificado da religião usar o que em outros contextos seria apenas um tom direto para a sociedade polida balançar a cabeça em desaprovacão; até a sociedade polida laica, e especialmente aquela parte da sociedade laica que adora anunciar: “Sou ateu, MAS…”.

VOCÊ SÓ ESTÁ PREGANDO PARA OS JÁ CONVERTIDOS. DE QUE ADIANTA?

O “Cantinho dos Convertidos” no RichardDawkins.net já invalida a mentira, mas mesmo que a levássemos a sério há boas respostas. Uma é que o coro dos descrentes é bem maior do que muita gente imagina, sobretudo nos Estados Unidos. Mas, de novo sobretudo nos Estados Unidos, é em grande parte um coro “no armário”, e precisa desesperadamente de incentivo para sair dele. A julgar pêlos agradecimentos que recebi em toda a turnê americana do lançamento do livro, o incentivo dado por pessoas como Sam Harris, Dan Dennett, Christopher Hitchens e por mim é bastante apreciado. Uma razão mais sutil para pregar aos já convertidos é a necessidade de conscientização. Quando as feministas nos conscientizaram sobre os pronomes sexistas, elas estariam pregando só aos já convertidos no que se referia a questões mais significativas dos direitos das mulheres e dos males da discriminação. Mas aquele coro decente e liberal ainda precisava ser conscientizado sobre a linguagem do dia-a-dia. Por mais atualizados que estivéssemos nas questões políticas relativas aos direitos e à discriminação, ainda assim adotávamos inconscientemente convenções que faziam metade da raça humana sentir-se excluída.

Há outras convenções lingüísticas que precisam seguir o mesmo caminho dos pronomes sexistas, e o coro ateísta não é exceção. Todos nós precisamos ser conscientizados. Tanto ateus como teístas observam inconscientemente a convenção da sociedade … de que devemos ser especialmente polidos e respeitadores em relação à fé. E nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões religiosas de seus pais. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que — por consenso quase universal — pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é suaopinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos. Use todas as oportunidades para marcar essa posição.

VOCÊ É TÃO FUNDAMENTALISTA QUANTO AQUELES QUE CRITICA.

Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução, e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado.

Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso. A citação de Kurt Wise na página 366 diz tudo: “[…] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é minha posição”. A diferença entre esse tipo de compro¬misso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências. Como disse J. B. S. Haldane, quando questionado sobre que tipo de evidência poderia contradizer a evolução: “Fósseis de coelho no Pré-cambriano”. Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente. Na atual situação, porém, todas as evidências disponíveis (e há uma quantidade enorme delas) sustentam a evolução. É por esse motivo, e apenas por esse motivo, que defendo a evolução com uma paixão comparável à paixão daqueles que a atacam. Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”.

SOU ATEU, MAS A RELIGIÃO VAI PERSISTIR. CONFORME-SE.

“Você quer se ver livre da religião? Boa sorte! Você acha que vai conseguir se ver livre da religião? Em que planeta você vive? A religião faz parte dele. Esqueça isso!” Eu agüentaria qualquer um desses argumentos, se eles fos¬sem ditos num tom que chegasse pelo menos perto do da pena ou da preocupação. Pelo contrário. O tom de voz é às vezes até alegrinho. Não acho que se trate de masoquismo. O mais provável é que possamos de novo classificar o fenômeno como a “crença na crença”. Essa gente pode não ser religiosa, mas adora a idéia de que os outros sejam. O que me leva à categoria final das minhas réplicas.

SOU ATEU, MAS AS PESSOAS PRECISAM DA RELIGIÃO.

“O que você vai colocar no lugar dela? Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?”Quanta condescendência! “Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião.” Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra “baixar o nível”. Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que “baixar o nível” poderia ser necessário para “trazer as minorias e as mulheres para a ciência”. Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as “minorias” da platéia acharam. Voltando à necessidade de consolo da humanidade, ela existe, é claro, mas não há alguma infantilidade na crença de que o universo nos deve um consolo, como de direito? A afirmação de Isaac Asimov sobre a infantilidade da pseudociência é igualmente aplicável à religião: “Vasculhe cada exemplar da pseudociência e você encontrará um cobertorzinho de estimação, um dedo para chupar, uma saia para segurar”. É impressionante, além do mais, a quantidade de gente que não consegue entender que “X é um consolo” não significa “X é verdade”. Uma crítica análoga a essa trata da necessidade de um “propósito” na vida. Citando um crítico canadense:

Os ateus podem estar certos sobre Deus. Vai saber. Mas, com Deus ou sem Deus, fica claro que há algo na alma humana que demanda a crença de que a vida tem um objetivo que transcende o plano material. Era de imaginar que um empiricista do tipo mais-racional-que-vós como Dawkins reconhecesse esse aspecto imutável da natureza humana […] Será que Dawkins acha mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se todos nós procurássemos a verdade e o consolo em Deus, um delírio e não na Bíblia?

Na verdade sim, já que você mencionou “humano”, sim, acho, mas devo repetir, mais uma vez, que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade. É claro que não posso negar a necessidade de consolo emocional, e não tenho como defender que a visão de mundo adotada neste livro ofereça um consolo mais que apenas moderado para, por exemplo, quem perdeu um ente querido. Mas, se o consolo que a religião parece oferecer se fundamenta na premissa neurologicamente implausibilíssima de que sobrevivemos à morte de nosso cérebro, você está mesmo disposto a defendê-lo? De qualquer maneira, acho que nunca encontrei ninguém que não concorde que, nas cerimônias fúnebres, as partes não religiosas (homenagens, poemas ou músicas favoritas do falecido) são mais tocantes que as orações.

Depois de ler Deus, um delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico, escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, deseu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de contribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num evento no público local. O garoto era obviamente muito querido. Quando li o livreto da cerimónia fúnebre, chorei, literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no RichardDawkins.net. Um gaitista solitário tocou o lamento local “Ellen Vallin”. Dois amigos fizeram discursos de homenagem, e o dr. Ashton recitou o belo poema “Fern Hill” [”Monte das samambaias”] (”Era eu jovem e tranqüilo, debaixo das macieiras” — que evoca tão dolorosamente a juventude perdida). E então, e tenho de respirar fundo para contar, ele leu as primeiras linhas de meu Desvendando o arco-íris, linhas que havia tempos eu tinha separado para o meu próprio enterro.

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…

Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento, contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme maioria jamais nem saiu?

É óbvio que há exceções, mas suspeito que para muitas pessoas o principal motivo de se agarrarem à religião não seja o fato de ela oferecer consolo, e sim o de elas terem sido iludidas por nosso sistema educacional e não se darem conta de que podem não acreditar. Decerto é assim para a maioria das pessoas que acham que são criacionistas. Simplesmente não ensinaram direito a elas a impressionante alternativa de Darwin. É provável que o mesmo aconteça com o mito depreciativo de que as pessoas “precisam” da religião. Numa conferência recente, em 2006, um antropólogo (e exemplar perfeito do tipo eu-sou-ateu-mas) citou a resposta de Golda Meir quando questionada se acreditava em Deus: “Acredito no povo judaico, e o povo judaico acredita em Deus”. Nosso antropólogo usou sua própria versão: “Acredito nas pessoas, e as pessoas acreditam em Deus”. Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada — uma vida livre de verdade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Vídeo: O Delírio Ateu

Crítica ao livro "Deus, um Delírio", de Richard Dawkins. Realmente, agora sim. Esqueçam tudo. Como pude ser tão tolo? Claro que Deus existe. Está na Bíblia. Um livro sem contradições, escrito por quem? Por Deus, é claro. E eu aqui, na minha ignorância, duvidando. Vejam só, leitores, quanto tempo perdi duvidando. E agora eu tenho certeza: ENQUANTO OS ARGUMENTOS DOS RELIGIOSOS FOREM ESSE LIVRINHO CHAMADO BÍBLIA OU VIEREM FALAR PARA MIM DE JESUS (CUJO MITO JÁ FOI DESMISTIFICADO NO VÍDEO ANTERIOR), CONTINUO SENDO LIVRE.


Respostado de Godlessliberator.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Richard Dawkins

Repostado do Jornal Opção

Por José Maria e Silva

É o evolucionismo uma religião? Se não era passou a ser com o livro Deus, um Delírio (Companhia das Letras, 520 páginas, 36,50 a 54 reais), do biólogo inglês Richard Dawkins, um dos intelectuais mais influentes da atualidade. Publicado em 2006, The God Delusion (título original em inglês) foi saudado pelo ficcionista Ian McEwan como um livro “magnífico, lúcido e sagaz, verdadeiramente magistral” e mereceu resenhas favoráveis de grandes publicações européias e norte-americanas, provocando muita polêmica. Assim como os homossexuais militantes criaram o “orgulho gay”, instituindo uma teologia da carne, Richard Dawkins, em Deus, um Delírio, defende o “orgulho ateu”, propondo uma religião da matéria. A intenção do autor, como explica no prefácio da obra, é “conscientizar para o fato de que ser ateu é uma aspiração realista, e uma aspiração corajosa e esplêndida”, o que ele próprio chama de “orgulho ateu”.

“Não há nada de que se desculpar por ser ateu”, escreve. “Pelo contrário, é uma coisa da qual se deve ter orgulho, encarando o horizonte de cabeça erguida, já que o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável. Existem muitos que sabem, no fundo do coração, que são ateus, mas não se atrevem a admitir isso para suas famílias e, em alguns casos, nem para si mesmos. Isso acontece, em parte, porque a própria palavra ‘ateu’ freqüentemente é usada como um rótulo terrível e assustador.”

Apelidado de “rottweiler de Darwin”, numa referência ao apelido do biólogo inglês Thomas H. Huxley (1825-1895), que ficou conhecido como o “buldogue de Darwin” por defender ardorosamente o evolucionismo, Clinton Richard Dawkins, filho de pais ingleses, nasceu em Nairóbi, no Quênia, em 26 de março de 1941, onde viveu até os oito anos. Formado pela Universidade de Oxford, onde é titular da cátedra de Compreensão Pública da Ciência, notabilizou-se, nos círculos científicos, por suas pesquisas inovadoras em etologia, a ciência que estuda o comportamento dos animais. Mas começou a ficar mundialmente famoso em 1976, quando publicou o livro O Gene Egoísta, o primeiro de uma série de obras de divulgação científica, que o transformariam num dos mais populares defensores do evolucionismo, juntamente com Sthephan Jay Gould (1941-2002). Para se ter uma idéia da importância desse livro na bibliografia de divulgação científica, em 2006 foi lançada uma edição comemorativa da obra, lançada no Brasil pela Companhia das Letras no final do ano passado. As primeiras edições brasileiras do livro foram publicadas pela Editora Itatiaia, de Belo Horizonte, e ainda estão em catálogo. O Gene Egoísta foi traduzido em mais de 25 idiomas em todo o mundo e já ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. Em 2006, Dawkins criou a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência, sem fins lucrativos, e mantém o sítio RichardDawkins.net com um riquíssimo acervo multimídia sobre seu trabalho.

Em Deus, um Delírio, Richard Dawkins não se limita a combater a idéia de Deus — o que ele quer é deificar a matéria. Eis como descreve o espectro da relação homem-divindade: “Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subseqüente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O Deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num Deus sobrenatural, mas usam a palavra Deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o Deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o Deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado”.
Fora desse quadro de pessoas que declaram sua crença em algo que transcende o mundo, existem os agnósticos (como o evolucionista Thomas Huxley), que não acreditam ser possível provar nem a existência nem a inexistência de Deus. Charles Dawkins discorda até do agnosticismo. “A existência ou inexistência de Deus é um fato científico sobre o universo, passível de ser descoberto por princípio, se não na prática”, escreve. “E, mesmo que a existência de Deus jamais seja comprovada nem descartada com certeza” — acrescenta — “as evidências existentes e o raciocínio podem criar uma estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%”. Cria, então, um espectro de probabilidades acerca dos juízos humanos sobre a existência de Deus, entre dois extremos de certezas opostas: “O espectro é contínuo, mas pode ser representado por sete marcos: 1) Teísta convicto. Probabilidade de 100% de que Deus existe. Nas palavras de C. G. Jung, ‘Eu não acredito, eu sei’. 2) Probabilidade muito alta, mas que não chega aos 100%. Teísta de facto. ‘Não tenho como saber com certeza, mas acredito fortemente em Deus e levo minha vida na pressuposição de que ele está lá.´ 3) Maior que 50%, mas não muito alta. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao teísmo. ‘Tenho muitas incertezas, mas estou inclinado a acreditar em Deus.´ 4) Exatamente 50%. Agnóstico completamente imparcial. ‘A existência e a inexistência de Deus têm probabilidades exatamente iguais.´ 5) Inferior a 50%, mas não muito baixa. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao ateísmo. ‘Não sei se Deus existe, mas estou inclinado a não acreditar.´ 6) Probabilidade muito baixa, mas que não chega a zero. Ateu de facto. ‘Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo minha vida na pressuposição de que ele não está lá.´ 7) Ateu convicto. ‘Sei que Deus não existe, com a mesma convicção com que Jung sabe que ele existe’.”

Observando que “os ateus não têm fé” e que “a razão, sozinha, não tem como levar alguém à convicção plena de que alguma coisa definitivamente não existe”, Dawkins inclui a si mesmo na categoria 6, tendendo para a 7. Como feroz evolucionista, Richard Dawkins sempre negou a existência de Deus em suas obras anteriores e em artigos e debates públicos. Deus, um Delírio é apenas o coroamento de uma longa militância ateísta e, ao mesmo tempo, uma conclamação para que outras pessoas abdiquem de suas crenças religiosas ou assumam suas dúvidas de fé, mandando Deus às batatas. No prefácio à edição de bolso da obra (publicada na primeira edição brasileira da Companhia das Letras), Dawkins, valendo-se da interatividade que a Internet permite, já se encarrega, ele próprio, de replicar as resenhas que saíram a respeito da edição de capa dura de Deus, um Delírio. Baseando-se nos mais de mil comentários elogiosos enviados à Amazon, ele nota que, entre os leitores comuns, a aceitação do livro foi muito boa. A maior resistência que encontrou foi entre os intelectuais, inclusive entre cientistas, que, em sua maioria, mesmo quando são ateus, entendem que se deve respeitar a crença alheia. Richard Dawkins, ao contrário, acredita que é preciso desrespeitar todas as crenças num Deus sobrenatural, especialmente quando se trata de Javé, o Deus de Israel. Ele conta que, nas leituras públicas de Deus, um Delírio, exatamente com o objetivo de chocar a audiência, sempre começa pelo Capítulo 2, intitulado “A Hipótese de que Deus Existe”, em que faz um violento ataque à Bíblia: “O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida ético e vingativo; sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo”.

Sem dúvida, é positivo que se possa falar de Deus nesses termos sem que isso implique em ser torturado ou morrer numa fogueira, como já ocorreu em alguns momentos da história humana. O que é muito duvidoso é que a razão sozinha seja capaz de garantir essa liberdade, como acredita Richard Dawkins e outros ateístas militantes. Ao fazer um balanço dos massacres e genocídios desde a pré-história até os nossos dias, o livro A História Inumana (Instituto Piaget, Lisboa, 1992, 426 páginas), organizado por Guy Richard, revela que a bestialidade humana pode eclodir sob qualquer pretexto. Na pré-história, a crença religiosa leva aos sacrifícios rituais, mas eles não são menos cruéis do que os massacres praticados pelos Estados emergentes da Antigüidade. Segundo o historiador Jean Labesse, um dos colaboradores do livro A História Inumana, por volta de 1500 a.C., os assírios, numa guerra contra os arameus, arrancaram os olhos de 14 mil prisioneiros. Assurnasirpal III (883-859 a.C.), que estendeu o império assírio desde as margens do Tigre, a oeste, até suas nascentes do Eufrates, passando pelo Líbano, “foi de uma crueldade aterradora” e se vangloriava dela, segundo o historiador: “Mandei construir um muro frente à grande porta da cidade e nele fiz emparedar os cativos; mandei que esfolassem vivos alguns deles na minha presença e que sua pele fosse exposta sobre o muro; outros foram crucificados ou postos sobre estacas: as ameias da cidade foram coroadas com as cabeças dos vencidos e fiz com seus corpos grinaldas à volta das muralhas”. Outro rei assírio, Sargão II (722-705 a.C.) se vangloria de degolar a seus pés, como cordeiros, os combatentes vencidos dos exércitos adversários.

É exatamente nesse contexto que surge o Deus do Antigo Testamento, classificado por Richard Dawkins como um “genocida étnico e vingativo”. De fato, não apenas para os padrões do mundo contemporâneo, mas até mesmo para os civilizados padrões helênicos do tempo de Jesus Cristo, o Deus do Antigo Testamento é o rancor em pessoa, comprazendo-se no sacrifício de homens e animais. Todavia, como a antropologia vem observando há décadas, não é possível avaliar uma determinada cultura sem levar em conta o seu contexto. No caso do Javé bíblico, seu contexto era o das guerras tribais entre os povos que lutavam pela sobrevivência na antiga Palestina. Para muitos estudiosos da religião hebraica, o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo ao longo dos cinco livros da Torá (o Pentateuco cristão), que adquiriram um caráter canônico para os israelitas somente no século V a.C., quando Israel já se consolidara como Estado. O Deus de Abrão surge entre 2000 e 1800 a.C., quando esse possível chefe tribal dos habirus (os hebreus) deixa Ur, na Caldéia, e se instala com sua gente em Canaã, numa primeira onda migratória. Posteriormente, os hebreus migram para o Egito, fugindo da fome, e retornam a Canaã, numa nova onda migratória, por volta de 1200 a.C., quando começam a surgir as bases do futuro Estado de Israel.

No Antigo Testamento, quando Deus aparece a Moisés, ele se identifica como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Entretanto, o Deus de Abraão não parece o mesmo Deus de Moisés. O primeiro partilha o alimento com Abraão e abençoa pessoalmente Jacó, permitindo a suas criaturas ver-lhe o rosto. Já o Deus que aparece a Moisés no Monte Sinai é uma divindade imperial, que mantém severa distância de sua criatura e não admite ser visto, levando Moisés a encobrir o rosto por temer o olhar de Deus, segundo o relato bíblico. Essas diferenças testamentárias na descrição da divindade levaram muitos estudiosos a considerarem a hipótese de que o antigo Deus hebraico, na verdade, não era o Deus de uma antiga forma de monoteísmo, mas um dos muitos deuses do henoteísmo, termo criado pelo orientalista alemão Max Müller (1823-1900) para designar a forma de religião em que se cultua um só Deus, mas não se nega a existência de outros deuses. Sendo assim, Javé ou Jeová seria um Deus da guerra, propício ao momento histórico belicoso vivido pelas tribos de Israel que se instalavam em Canaã, em meio a tribos e impérios hostis, enquanto o pacato Deus de Abraão e Jacó estava mais próximo de El, um antigo Deus da fertilidade caldeu, que se mantinha distante dos negócios humanos.

No livro Uma História de Deus (Companhia das Letras, 1994, 460 páginas), a ex-freira inglesa Karen Armstrong, 62 anos, doutora em letras pela Universidade de Oxford e especialista em religiões abraâmicas, observa que é improvável a idéia de um Deus único no contexto social dos antigos hebreus, daí a necessidade de aliança entre Deus e o povo eleito, o que só faz sentido num cenário politeísta: “Eles não acreditavam que Javé, o Deus do Sinai, era o único Deus, mas prometeram em sua aliança que iam ignorar todas as outras divindades e adorar só a ele. É muito difícil encontrar uma só declaração monoteísta em todo o Pentateuco. Mesmo os Dez Mandamentos entregues no Monte Sinai reconhecem a existência de outros deuses: ‘Não terás outros deuses diante de mim´. A adoração de uma única divindade era um passo quase sem precedentes: o faraó egípcio Akhenaton tentara adorar o Deus Sol e ignorar as outras divindades do Egito, mas essa política foi imediatamente revertida por seu sucessor”. Segundo Karen Armstrong, os israelitas não aderiram facilmente a Javé: “Javé provara sua habilidade na guerra, mas não era um Deus da fertilidade. Quando se assentaram em Canaã, os israelitas voltaram-se instintivamente para o culto a Baal, o Senhor de Canaã, que fazia as safras crescerem desde tempos imemoriais”. Diante dessas evidências colhidas na própria Bíblia de que a origem do Deus hebraico é mais obscura do que parece à primeira vista, Karen Armstrong sustenta: “A idéia de um Deus pessoal parece cada vez mais inaceitável hoje por todos os tipos de motivos: morais, intelectuais, científicos e espirituais”.

Mas, no tempo em que Deus surgiu na história como pessoa, à imagem e semelhança do homem, isso significou um profundo avanço para a humanidade como um todo e para cada pessoa em particular. Os deuses que se identificam com a natureza ou com o próprio universo estão distantes demais dos homens para se importarem com o seu sofrimento. Por outro lado, aqueles que encarnavam na figura dos reis tendiam ao despotismo absoluto. Já o Deus dos hebreus, ao falar pela bocados profetas — alguns dos quais vivendo à margem do poder constituído — já demonstram grande preocupação com os oprimidos. No livro A Justiça Social nos Profetas (Edições Paulinas, 1990, 670 páginas), o exegeta espanhol José Luis Sicre demonstra que o Deuteronômio é “profundamente humanitário”, ordenando aos proprietários de terra: “Quando estiveres ceifando a colheita em teu campo e esqueceres um feixe, não voltes para pegá-lo: ele é do emigrante, do órfão e da viúva, para que Javé teu Deus te abençoe em todo o trabalho das tuas mãos” (Dt 24:19). O humanismo do Deuteronômio estende-se até aos escravos, revelando um Deus que nada tem a ver com aquele descrito por Richard Dawkins: “Quando um escravo fugir de seu amo e se refugiar em tua casa, não o entregues a seu amo: ele permanecerá contigo, entre os teus, no lugar que escolher, numa das tuas cidades, onde lhe pareça melhor. Não o maltrates” (Dt 23:16).

Pela boca do profeta Amós, Deus investe explicitamente contra os poderosos: “Escutai isto, vos que pisoteais os pobres e arruinais os indigentes, pensando: ‘Quando passará a lua nova para vender o trigo, e o sábado para oferecer o grão e vender inclusive o refugo do trigo?´ Reduzis a medida, aumentais o preço e usais a balança como trapaça; comprais com o dinheiro o desvalido e o pobre por um par de sandálias. Jura o Senhor pela glória de Jacó não se esquecer jamais do que fizeram”. O Deus de Amós não poupa nem o rei Jeroboão: “Ficarão desolados os lugares altos de Isaac, arruinadas as ermidas de Jacó; empunharei a espada contra a dinastia de Jeroboão”. Essa condenação dos poderosos — sacerdotes e reis — se repete no profeta Oséias (5:1): “Ouvi isto, ó sacerdotes, e escutai, ó casa de Israel, e dai ouvidos, ó casa do rei; porque contra vós se dirige este juízo”. Numa época em que Rei, Estado e Divindade tendiam a formar uma só pessoa, com poder de vida e de morte sobre os súditos, antropomorfizar Deus — como faz o Antigo Testamento — é construir o homem, algo que Richard Dawkins finge ignorar. Em que pese todas as suas fraquezas “humanas”, transformadas em bandeira de luta por Richard Dawkins, o rude Deus dos profetas já é um embrião do humanitário Deus de Jesus, inscrito no Sermão da Montanha. Esse Deus que se recusa a encarnar no corpo dos reis, como ocorre em outras culturas, e prefere fustigá-los como um superego transcendente é um protótipo do Deus que Jesus contrapõe ao Estado, democratizando a consciência individual que fora abortada com a morte de Sócrates: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Ou seja, pela primeira vez na história da humanidade — no nível do povo pobre e sem instrução — o rei é destronado de seu poder divino, tornando-se igual ao súdito diante da onipotência de Deus.

É claro que Deus pressupõe o Diabo — a religião, como a política, não frutifica sem inimigos. Mas isso não é culpa da religião em si e, sim, da estrutura de pensamento do ser humano, que só sabe pensar comparativamente. Daí, inclusive, a necessidade que o homem tem do Absoluto, porque só um ente transcendental, externo ao universo criado, pode ser o fiel da balança deste universo e do próprio homem, prescindindo do nosso precário julgamento crítico por comparações, inevitável na escala das criaturas. Sem dúvida, o conhecimento é refratário à fé. Pode até se reconciliar com ela, mas só depois de muita dúvida e angústia. É muito pouco provável que um intelectual como Joseph Ratzinger (o Papa Bento XVI) acredite piamente em Deus com a mesma ingenuidade com que um devoto de Nossa senhora Aparecida se entrega a ela, disposto a ver milagres em qualquer manifestação trivial da vida. A religião cristã — como toda religião — não obedece à lógica em que a ciência se pauta e, por isso, dificilmente satisfaz um espírito crítico. Aliás, toda doutrina, inclusive a doutrina católica, mesmo tendo sido construída por grandes pensadores através dos séculos, apresenta muitos senões, que uma mente racional tem dificuldade de aceitar. Já em 1865, o pedagogo francês Hyppolyte-Léon-Denizart Rivail (1804-1869) — que ficaria mundialmente conhecido como Alan Kardec, o codificador do espiritismo — denunciava as fragilidades doutrinárias do catolicismo, no livro O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Filho do cientificismo do século XIX, Alan Kardec procurou fazer do espiritismo um amálgama de ciência, moral e fé, sem ritos nem sacrifícios e alimentado pela leitura. Por isso, o espiritismo será sempre uma religião de poucos — a razão não comove, não arrebanha as massas.

Richard Dawkins é um crítico feroz dessa idéia de que a religião é inevitável ao menos para as grandes massas, ainda que seja dispensável para as classes letradas. No prefácio de Deus, um Delírio, ele contesta uma das objeções mais freqüentes que lhe foram feitas por intelectuais. Eles lhe diziam: “Sou ateu, mas as pessoas precisam da religião. O que você vai colocar no lugar dela? Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?”. Dawkins se indigna: “Quanta condescendência! ‘Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião.’ Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra ‘baixar o nível’. Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que ‘baixar o nível’ poderia ser necessário para ‘trazer as minorias e as mulheres para a ciência’. Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as ‘minorias’ da platéia acharam”.

Mas o povo, ao contrário do que Dawkins pensa, precisa de religião. Até os intelectuais precisam, ainda que a disfarcem sob outras formas de fé, como a literatura, a música, o cinema, a filosofia, as artes, a própria ciência. A paixão pelos livros não deixa de ser uma forma de religião, às vezes tão irracional quanto qualquer outra. Todo intelectual tende a ser um bibliômano que entesoura livros com a mesma avidez com que o Tio Patinhas coleciona moedas. Volta e meia, diante das minhas estantes abarrotadas de livros, ocupando a maior parte da casa, escuto a pergunta recorrente por parte de pessoas que não têm o hábito da leitura: “Você já leu isso tudo?” Quando respondo que não, a pessoa se cala, provavelmente pensando com seus botões: “Para que, então, acumular tanto livro?” Nos momentos de maior pessimismo, lembrando-me do Eclesiastes (“O muito estudar enfado é da carne”), tendo a concordar com essa crítica embutida na pergunta. Nas estantes, em papel, e no computador, em formato digital, tenho livros que exigiriam mais umas três vidas integrais — sem o compromisso do trabalho — para serem lidos, porque muitas obras que me interessam, dada à complexidade dos assuntos que abordam, não bastam ser lidas, precisariam ser estudadas, meditadas. Mesmo assim, quando entro numa livraria ou numa biblioteca, tenho vontade de sair levando braçadas de livros para casa e, sempre que posso, faço isso, retardando ainda mais a leitura de outros livros que estavam na fila de espera. Por isso, o intelectual moderno está condenado ao gueto das especializações, porque a produção do conhecimento, hoje, está acima da capacidade de absorção de qualquer mente. Ainda mais que o livro tem de concorrer com jornais, revistas, cinema, Internet etc.

Ninguém se guia absolutamente pela razão. Quem tentou fazê-lo foi Simão Bacamarte e o seu destino merecia ser conhecido por Dawkins, por meio da leitura da novela O Alienista, de Machado de Assis, uma das obras-primas da literatura universal. Também o conto A Igreja do Diabo, outra magistral criação machadiana, poderia ensinar a Dawkins que o ser humano não tem jeito — não há “emplastro Brás Cubas” capaz de curá-lo de sua eterna inquietação. Para Dawkins, “há algo de infantil na idéia de que outra pessoa (pais no caso de crianças, Deus no caso de adultos) tem responsabilidade de dar sentido e objetivo à sua vida”. Pode ser. Todavia, mais infantil do que isso é escrever o que Dawkins escreve: “A visão verdadeiramente adulta, pelo contrário, é a de que nós é que decidimos se nossa vida será significativa, plena e maravilhosa. E podermos fazer com ela seja plena e maravilhosa”. Uma frase digna dos televangelistas que ele, com razão, critica. A se crer em Dawkins, essa vida “plena, maravilhosa” só é possível através da ciência, matando Deus, o obstáculo. Os sociólogos do século XIX também achavam que Deus já não era capaz de fornecer respostas para um mundo impregnado de ciência e muitos deles se tornaram ateus. Paradoxalmente, o filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), que levou a sério demais seu ateísmo, acabou morrendo meio louco, como sacerdote da Igreja Positivista, que chegou a ter templos (inclusive no Brasil) e “santos”, escolhidos entre filósofos, cientistas e outros benfeitores laicos da humanidade. Já o sociólogo Emile Durkheim (1858-1917) — outro ateu que percebera a impotência de Deus na modernidade — não se iludiu quanto à eficácia da ciência para substituí-lo e no clássico As Formas Elementares da Vida Religiosa fez uma sábia defesa da religião, mostrando que, além de ser uma criação humana inevitável, ela, a religião, “longe de ignorar a sociedade real e de abstraí-la, reflete a sua imagem; ela reflete todos os seus aspectos, também os mais vulgares e os mais repelentes”. Como o nosso Machado de Assis, — talvez o único cérebro brasileiro que não se rendeu ao cientificismo do século XIX, — Durkheim também sabia que a razão é uma chama, mas só a paixão é combustível — sem ela a razão bruxuleia no próprio indíviduo e se apaga antes de brilhar na sociedade, sendo incapaz de formar a “consciência coletiva” que move o mundo e que Dawkins — meio infantilmente, creio — batizou de “meme”, a interface social do gene. Em tese, a ciência pode até ser capaz de desvendar todos os mistérios do universo, inclusive Deus, mas jamais será capaz de construí-lo. A não ser que apele para as paixões — como faz o evolucionismo de Dawkins — e deixe de ser ciência.

Até aqui o autor da reportagem parecia ir a favor de Dawkins. O restante da reportagem envereda para o politicamente correto, do tipo 'vamos mostrar também o outro lado da coisa' e perde um pouco o sentido colocá-lo aqui, embora os argumentos usados pelo autor na reportagem sejam vagos. Se alguém quiser que eu comente o restante da reportagem, peça nos comentários ou mande e-mail para mim: doutordaniel@gmail.com

O restante da reportagem pode ser lido aqui.

A Cura dos Charlatões

Republicado de Brasil Wiki

Por Rodrigo Constantino

“Não existe medicina alternativa, existe apenas medicina que funciona e medicina que não funciona.” (John Diamond)

Um dos grandes defensores da ciência atualmente é Richard Dawkins, cujo livro O Capelão do Diabo aborda diferentes tópicos de forma bastante interessante. Um dos temas tratados no livro é a medicina “alternativa”, onde o autor busca desmontar todas as falácias que sustentam a enorme popularidade deste tipo de tratamento, não restando pedra sobre pedra. Dawkins vai sem rodeios, direto ao ponto: “Não há nenhum limite óbvio para a credulidade humana. Somos dóceis vaquinhas ingênuas, vítimas ávidas dos curandeiros e charlatões que mamam e engordam às nossas custas”. A história da humanidade está repleta de casos de embusteiros que se cercam de uma aura de misticismo, explorando a ignorância e o desespero alheio.

Sociedades mais atrasadas demonstram uma inclinação maior a este tipo de crença, enquanto o avanço do conhecimento aumenta a confiança nas soluções científicas, testadas e aprovadas. Dawkins alega que “o mundo é misterioso o suficiente para dispensar a ajuda de feiticeiros, xamãs e vigaristas ‘paranormais’”. Ele abomina o relativismo cultural, descrito por ele como a “vertente de filosofia delirante” que nega a superioridade do método científico como caminho privilegiado para a verdade. Cada um teria a “sua” verdade, segundo os relativistas. Dawkins sugere que os cientistas devem responder à alegação de que a “fé” na lógica e na verdade científica não é nada além de fé da seguinte maneira: “O mínimo que se pode responder é que a ciência produz resultados”.

Em O Rio que Saía do Éden ele já havia dito: “Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita”. O fato é que o avião não consegue voar por causa de algum misticismo qualquer, que depende do prisma cultural, mas porque “engenheiros ocidentais cientificamente treinados acertaram nas contas”. Para Dawkins, “as pessoas são leais a outros sistemas de crença pela simples razão de que foram criadas daquela maneira e nunca chegaram a conhecer uma alternativa melhor”. Ou seja, “quando elas têm a sorte de poder escolher, os médicos e outros profissionais do gênero prosperam, ao passo que os feiticeiros entram em declínio”.

Um dos capítulos do livro é um prefácio escrito ao livro póstumo de John Diamond, quem Dawkins admira muito por sua coragem intelectual, isto é, a coragem de se manter fiel aos próprios princípios intelectuais mesmo diante da morte. Acometido pelo câncer, Diamond foi tentado por todo tipo de solução “mágica”, mas sempre se manteve fiel aos valores científicos. Na hora do desespero, os “abutres das terapias ‘alternativas’ ou ‘complementares’ começam a voar em volta”. Afinal, “a esperança é um produto vendável: quanto mais desesperadamente se necessitar de esperança, mais rica será a colheita”. A frase de Sebastien Faure resume bem a idéia: “As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão”. Quando há desespero, fica muito mais fácil vender soluções “milagrosas”, que dependem da fé, e nunca do conhecimento verdadeiro. Uma pílula “mágica” de papel, junto com muita fé, irá resolver o problema. E vemos vários desesperados jogando suas muletas e seus óculos fora, na tola esperança de que poderão andar ou enxergar normalmente, apenas com base na fé. Se a medida falha, como normalmente ocorre, então a culpa é do próprio doente, que não teve fé suficiente. Os embusteiros estão protegidos.

Há um abismo instransponível entre as curas “alternativas” e a medicina verdadeira. Na visão de John Diamond e também de Dawkins, “a medicina científica se define como um conjunto de práticas que se submetem ao suplício dos testes. A medicina alternativa é definida como um conjunto de práticas que não podem ser testadas, se recusam a ser testadas ou são invariavelmente reprovadas nos testes. Se for demonstrado em testes de duplo-cego adequadamente controlados que uma técnica terapêutica tem propriedades curativas, ela deixará de ser alternativa”. Em outras palavras, ou é verdade que um remédio funciona ou não é verdade. Para descartar o efeito placebo, extremamente comum, é fundamental aplicar tais testes. Muitos candidatos a medicamentos “ortodoxos” falham nos testes e são sumariamente abandonados. O rigor científico não é brincadeira, diferente da pretensão dos “curandeiros alternativos”, uma brincadeira que pode custar caro por alimentar falsas esperanças.

O motivo pelo qual tantos acabam impressionados pelas “curas alternativas” e “milagres” é explicado por Dawkins: “Boa parte da história da ciência, especialmente da ciência médica, consistiu numa progressiva libertação do fascínio superficial exercido pelas histórias individuais, que parecem – mas apenas parecem – revelar um padrão. A mente humana é uma contadora de casos obstinada e, mais que isso, busca avidamente encontrar padrões”. Ele oferece o antídoto: “A mente humana precisa aprender a suspeitar de sua propensão inata para enxergar padrões onde existe apenas acaso. É para isso que serve a estatística, e é por isso que nenhuma droga ou terapêutica deveria ser adotada até que seu efeito tivesse sido comprovado por um experimento submetido à análise estatística, no qual a inclinação da mente humana a encontrar padrões, tão sujeita a enganos, tenha sido sistematicamente afastada. Histórias pessoais nunca resultam em demonstrações satisfatórias de alguma tendência geral”. Um dos alvos escolhidos por Dawkins como exemplo é a homeopatia, extremamente popular. Os homeopatas vivem insistindo que os testes científicos não são adequados para sua “medicina”. Um princípio fundamental da teoria homeopática é que o ingrediente ativo – a arnica, o veneno de abelha, ou seja o que for – deve ser sucessivamente diluído um grande número de vezes, até que não reste nem uma só molécula do ingrediente. Em outras palavras, a bolinha é um placebo! Para sair desse dilema embaraçoso, os homeopatas alegam que o modo de ação de seus remédios não é químico, mas físico. Dawkins diz: “Eles acreditam que, por algum mecanismo físico que os próprios físicos desconhecem, uma espécie de ‘traço’ ou de ‘memória’ das moléculas ativas se imprime nas moléculas de água empregada para diluí-las”. Acontece que isso é uma hipótese científica, que pode, portanto, ser testada. Todo homeopata que realmente acredita nisso teria todo interesse do mundo em testar tal hipótese. Não só sua medicina ganharia muito mais aceitação e confiança, como aquele que provasse a hipótese seria forte candidato ao prêmio Nobel. Curiosamente – ou nem tanto – não vemos os próprios homeopatas correndo para laboratórios a fim de testar suas teorias. Preferem buscar refúgio na alegação de que certas coisas simplesmente não se prestam à verificação científica. Assim até eu.

Em resumo, à medida que o conhecimento científico vai avançando, as sociedades vão deixando para trás os embustes das feitiçarias, macumbas e milagres. A crença nessas tolices poderia ser apenas um passatempo inofensivo, não fossem os efeitos perversos gerados pela falsa esperança. Os charlatões da cura prejudicam muitos inocentes ignorantes. A cura para os charlatões está no conhecimento científico, o seu grande inimigo.

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças no IBMEC, ator dos livros Prisioneiros da Liberdade e Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT, entre outros.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Entrevista com Sam Harris na Revista Veja de 26/12

A RELIGIÃO FAZ MAL AO MUNDO


O FILÓSOFO SAM HARRIS, UM DOS ATEUS MAIS BARULHENTOS DOS EUA, DIZ QUE SÓ COM O FIM DA FÉ SE PODERÁ ERGUER UMA CIVILIZAÇÃO GLOBAL


Dependendo do ângulo e que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma desconcertante semelhança física com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados Unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a Uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário (discordo), mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: "A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalism, o racismo ou a política". Ele deu a seguinte entrevista:


O MOVIMENTO DOS ATEUS É FORTE NOS ESTADOS UNIDOS E NA INGLATERRA, PRINCIPALMENTE. É UMA DECORRÊNCIA DOS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001? Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 11 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocuparem com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.


POR QUÊ? A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.


O SENHOR ACHA QUE O MUNDO SERIA MELHOR SEM RELIGIÃO, SEM FÉ, SEM CRENÇA EM DEUS? Seria melhor se não houvesse mentiras. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentiras. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe na verdade não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimentar seu poder de se iludir e se enganar.


É POSSÍVEL CONCILIAR CIÊNCIA E RELIGIÃO? A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.


HAVERÁ O DIA EM QUE A HUMANIDADE DEIXARÁ DE TER FÉ OU A FÉ FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA? O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo. É claro que nossa compreensão do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem a Bíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.


MAS NEM A BÍBLIA NEM O CORÃO SE PRETENDEM UM MANUAL CIENTÍFICO PARA ENTENDER O MUNDO. Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. A Bíblia e o Corão, por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão, além de não servirem como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.


QUE TIPO DE IMPACTO SEU LIVRO PODE TER SOBRE OS LEITORES RELIGIOSOS? Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntarem por que, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma única pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristã com a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. é hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.


O BRASIL É UM PAÍS APARENTEMENTE TOLERANTE COM AS DIFERENTES RELIGIÕES E CONHECIDO PELO SINCRETISMO RELIGIOSO. NUM PAÍS ASSIM, É MAIS FÁCIL OU MAIS DIFÍCIL PARA O ATEÍSMO CRESCER? Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas a serem descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.