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sábado, 9 de fevereiro de 2008

The Bright Stuff ("O Negócio Bright")

Por Daniel C. Dennett

Postado originalmente no The New York Times em 12 de julho de 2003.

Chegou a hora de nós, brights, sairmos do armário. O que é um bright? Um bright é uma pessoa com uma visão de mundo naturalista oposta à visão sobrenatural. Nós brights não acreditamos em fantasmas nem elfos nem no Coelho da Páscoa - ou Deus. Nós discordamos em muitas coisas, e temos uma variedade de pontos de vista sobre moralidade, política e o sentido da vida, mas nós compartilhamos uma descrença em magia negra - e na vida após a morte.

O termo "bright" é uma palavra cunhada por dois brights em Sacramento, California, que acharam que nosso grupo social - que tem uma história que se estende de volta até o Iluminismo, se não antes - merecia uma imagem melhor e um nome diferente poderia ajudar. Não confunda o substantivo com o adjetivo: "Eu sou um bright (brilhante, em tradução livre)" não é uma ostentação, mas uma afirmação orgulhosa de uma visão inquisitva de mundo.

Você pode muito bem ser um bright. Se não é, certamente lida com brights diariamente. Isso porque nós estamos todos ao redor de você: somos médicos, enfermeiras, policiais, professores, guardas de trânsito e homens e mulheres do serviço militar. Somos seus filhos e filhas, seus irmãos e irmãs. Nossos colégios e universidades transbordam de brights. Entre os cientistas, somos a maioria dominante. Querendo preservar e transmitir uma grande cultura, nós ainda damos aula em Escolas Dominicais e ensinamos Hebraico. Muitos dos membros do clérigo da nação são brights de armário, eu suspeito. Somos, de fato, o pano de fundo moral da nação: brights levam a sério seus deveres civis precisamente porque eles não confiam em Deus para salvar a humanidade de suas imbecilidades.

Sendo um adulto do sexo masculino casado com segurança financeira, eu não tenho o hábito de me considerar um membro de uma minoria que precisa de proteção. Se alguém está no assento do motorista, eu penso, é alguém como eu. Mas agora eu começo a sentir algum calor e, embora não seja desconfortável ainda, percebo que é hora de soar o alarme.

Se nós, brights, somos minoria ou, como eu tendo a acreditar, uma maioria silenciosa, nossas convicções mais profundas estão cada vez mais condenadas, diminuídas e dispensadas por aqueles no poder -- por político que saem do seu caminho para invocar a Deus e para ficar, presunçosa e hipocritamente, no que eles chamam de "o lado dos anjos".

Uma pesquisa de 2002 feita pelo Pew Forum sobre Religião e Vida Pública sugere que 27 milhões de americanos sejam ateus ou agnósticos ou não tenham preferência religiosa. Essa figura pode muito bem ser bem baixa, já que muitos descrentes são relutantes em admitir que sua observância religiosa é mais um dever cívico ou social do que religioso -- mais um problema de coloração protetora do que convicção.

A maioria dos brights não desempenha o papel do "ateu agressivo". Nós não queremos transformar todas as conversas em debates sobre religião nem queremos ofender nossos amigos e vizinhos, portanto mantemos um silêncio diplomático.

Mas o preço é impotência política. Políticos não acham que eles têm nem mesmo que nos fazer falsos elogios, e líderes que nem mortos cometeriam calúnias religiosas ou étnicas não hesitam em menosprezar os "sem deus" entre nós.

Da Casa Branca para baixo, atacar os brights é visto como um obtenedor de votos de baixo risco. E, é claro, a agressão não é apenas retórica: a administração Bush advogou mudanças no governo, regras e políticas para aumentar o papel das organizações religiosas na vida diária, uma subversão séria da Constituição. É hora de interromper essa erosão e tomar partido: os Estados Unidos não é um Estado Religioso, é um Estado secular que tolera todas as religões e -- sim -- todas as maneiras de crenças éticas não religiosas também.

Eu recentemente fiz parte de uma conferência em Seattle que reuniu cientistas, artistas e autores de liderança para falar calma e informalmente sobre suas vidas para um grupo de estudantes muito bons do ensino de segundo grau. No fim dos meus 15 minutos permitidos, eu tentei um pequeno experimento. Eu me revelei um bright.

Agora, minha identidade não seria surpresa para ninguém com o menor conhecimento do meu trabalho. Mesmo assim, o resultado foi eletrizante.

Muitos estudantes vieram em minha direção para me agradecer, com emoção considerável, por "libertá-los". Eu não havia percebido o quão solitários e inseguros esses adolescentes pensadores se sentiam. Eles nunca haviam ouvido um adulto respeitado dizer, de modo completamente direto, que ele não acreditava em Deus. Eu calmamente havia quebrado um tabu e mostrado o quão fácil era fazê-lo.

Além do mais, muitos dos palestrantes que seguiram, incluindo diversos laureados do Nobel, foram inspirados a dizer que eles, também, eram brights. Em cada caso o comentário atraiu aplausos. Ainda mais gratificantes foram os comentários dos adultos e estudantes que me procuraram depois para dizer que, enquanto eles mesmos não eram brights, ainda assim apoiavam os direitos dos brights. E é isso que queremos acima de tudo: sermos tratados com respeito assim como Hindus, Batistas e Católicos, nem mais nem menos.

Se você é um bright, o que você pode fazer? Primeiro, nós podemos ser uma força poderosa na vida política americana se nós simplesmente nos identificarmos. (Os brights fundadores mantêm um site na Web onde você pode se erguer e ser contado). Compreendo, no entanto, que enquanto sair do armário foi fácil para um acadêmico como eu - ou para meu colega Richard Dawkins, que teve uma iniciativa semelhante na Inglaterra - em algumas partes do país admitir que você é um bright poderia levar à calamidade social. Então por favor: sem "outing"(outing, em inglês, é uma palavra usada como revelar a homossexualidade de alguém - o autor, aqui, fez o correlato com revelar que alguém é bright).

Mas não há razão para que todos os Americanos não possam apoiar os direitos dos brights. Não sou gay nem afro-americano, mas ninguém pode difamar negros ou homossexuais na minha orelha e sair impune. Qualquer que seja sua teologia, você pode fazer objeções quando ouvir família ou amigos desdenharem de ateus, agnósticos ou outras pessoas sem Deus.

E você pode perguntar isso aos seus candidatos políticos: 'Você votaria em alguém qualificado em outro contexto para um cargo público, mas que fosse um bright?' 'Você votaria para algum indicado para a Suprema Corte que fosse um bright?' 'Você acha que os brights deveriam poder ensinar em escolas públicas?' 'Ou chefes de polícia?'

Vamos fazer os candidatos americanos pensarem sobre como responder a um coro inflado de brights. Com alguma sorte, ouviremos em breve algum político se contorcendo tentando sair do assento quente com o comentário fraco de que "alguns de meus melhores amigos são brights".