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sábado, 26 de janeiro de 2008

10 mitos - e 10 verdades - sobre ateísmo

Traduzido por Daniel Vasques.

Autor: Sam Harris

Repostado de: http://richarddawkins.net/print.php?id=460

Link original: http://www.samharris.org/site/full_text/10-myths-and-10-truths-about-atheism1

Data original: 24 de Dezembro de 2006

The Los Angeles Times

DIVERSAS PESQUISAS indicam que o termo "ateísmo" adquiriu um estigma tão extraordinário nos Estados Unidos que ser um ateu é atualmente um impedimento perfeito para uma carreira política (de uma maneira que ser negro, muçulmano ou homossexual não é). De acordo com uma pesquisa recente da revista Newsweek, apenas 37% dos Americanos votariam por um ateu qualificado para presidente.

Ateus são geralmente tidos como intolerantes, imorais, deprimidos, cegos à beleza da natureza e dogmaticamente fechados à evidência do sobrenatural.

Mesmo John Locke, um dos grandes patriarcas do Iluminismo, acreditava que o ateísmo "não deveria ser tolerado de forma alguma" porque, disse ele, "promessas, convenções e juramentos, que são os pilares das sociedades humanas, não têm valor para um ateu."

Isso foi há mais de 300 anos. Mas nos Estados Unidos de hoje, pouco parece ter mudado. Um notável valor de 87% da população alega "nunca duvidar" da existência de Deus; menos de 10% se identificam como ateus - e sua reputação parece estar deteriorando.

Dado que sabemos que os ateus estão freqüentemente entre os mais inteligentes e letrados cientificamente em qualquer sociedade, parece importante desinflar os mitos que os impedem de participar mais de nosso discurso nacional.

1) Ateus acreditam que a vida é sem sentido.

Pelo contrário, as pessoas religiosas freqüentemente se preocupam com a falta de sentido da vida e imaginam que ela só pode ser redimida pela promessa de felicidade eterna além do túmulo. Ateus tendem a ter muita certeza de que a vida é preciosa. A vida é embuída de sentido sendo vivida real e inteiramente. Nossos relacionamentos com aqueles que amamos têm sentido agora; não precisam durar para sempre para isso. Ateus tendem a achar esse medo da falta de sentido...bem...sem sentido.

2) O Ateísmo é responsável pelos maiores crimes da história da humanidade.

Pessoas de fé freqüentemente alegam que os crimes de Stalin, Hitler, Mao e Pol Pot foram o produto inevitável da descrença. O problema com o fascismo e com o comunismo, contudo, não é o fato de eles serem muito críticos com relação à religião; o problema é que eles são muito parecidos com religiões. Tais regimes são dogmáticos ao extremo e geralmente originam cultos a personalidades que são indistingüíveis de cultos de heróis religiosos. Auschwitz, o gulag e os campos de extermínio não foram exemplos do que acontece quando seres humanos rejeitam o dogma religioso; são exemplos de dogmas políticos, raciais e nacionalistas correndo soltos. Não há sociedade na história humana que tenha sofrido porque suas pessoas se tornaram racionais demais.

3) Ateus são dogmáticos

Judeus, cristãos e muçulmanos alegam que suas escrituras são tão prescientes das necessidades humanas que só poderiam ter sido escritas sob a orientação de uma divindade onisciente. Um ateu é simplesmente uma pessoa que considerou essa afirmação, leu os livros e achou que a afirmação era ridícula. Não é preciso ter fé nem ser dogmático para rejeitar crenças religiosas injustificadas. Conforme o historiador Stephen Henry Roberts (1901-71) disse uma vez: "Eu sustento que somos ambos ateus. Eu apenas acredito em um deus a menos que você. Quando você entender porque você dispensa todos os outros deuses possíveis, você entenderá porque eu dispenso o seu."

4) Ateus pensam que tudo no universo resulta do acaso.

Ninguém sabe porque o Universo veio a existir. De fato, não é inteiramente claro se podemos coerentemente falar sobre o "começo" ou a "criação" do universo, já que essas idéias invocam o conceito de tempo, e aqui estamos falando sobre a origem do próprio espaço-tempo.

A noção de que os ateus acreditam que tudo foi criado por acaso é também regularmente jogada como uma crítica à evolução Darwiniana. Conforme Richard Dawkins explica em seu livro maravilhoso, "Deus, um delírio", isso representa uma total incompreensão da teoria da evolução. Embora nós não saibamos precisamente como a os processos químicos da Terra jovem gerou a biologia, sabemos que a diversidade e a complexidade que vemos no mundo vivente não é o produto do mero acaso. Evolução é uma combinação de mutação ao acaso e seleção natural. Darwin chegou à sentença "seleção natural" por analogia à "seleção artificial" realizada pelos criadores de animais. Em ambos os casos, a seleção exerce um efeito altamente não-aleatório no desenvolvimento de qualquer espécie.

5) O Ateísmo não tem conexão com a ciência.

Embora seja possível ser um cientista e ainda acreditar em Deus - como alguns cientistas parecem conseguir - não há dúvida que um engajamento com o pensamento científico tende a erodir, em vez de sustentar, a fé religiosa. Tomando a população dos EUA como exemplo: a maioria das pesquisas mostra que cerca de 90% do público geral acredita em um Deus pessoal; embora 93% dos membros da Academia Nacional de Ciências não o faça. Isso sugere que há poucos modos de pensar menos apropriados à fé religiosa do que a ciência.

6) Ateus são arrogantes.

Quando os cientistas não sabem algo - como por que o universo veio a existir ou como as primeiras moléculas auto-replicantes se formaram - eles o admitem. Fingir saber coisas que não se sabe é uma profunda irresponsabilidade na ciência. E ainda assim é o sangue vital da religião baseada na fé. Uma das ironias monumentais do discurso religioso pode ser encontrada na freqüência com que as pessoas de fé se vangloriam de sua humildade, enquanto afirmam saber fatos sobre cosmologia, química e biologia que nenhum cientista sabe. Quando consideram as questões sobre a natureza do cosmos e nosso lugar dentro dele, ateus tendem a buscar suas opiniões na ciência. Isso não é arrogância; é honestidade intelectual.

7) Ateus são fechados à experiência espiritual.

Não há nada que impeça um ateu de sentir amor, êxtase, arrebatamento e espanto; ateus podem valorizar essas experiências e procurá-las regularmente. O que os ateus não tendem a fazer são afirmações injustificadas (e injustificáveis) sobre a natureza da realidade com base nessas experiências. Não há dúvida que alguns Cristãos mudaram suas vidas para melhor lendo a Bíblia e rezando para Jesus. Isso prova o quê? Prova que algumas disciplinas de atenção e códigos de conduta podem ter um efeito profundo na mente humana. As experiências positivas do Cristão sugerem que Jesus é o únicos salvador da humanidade? Nem remotamente - porque Hindus, Budistas, Muçulmanos e mesmo ateus regularmente têm experiências similares.

Não há, de fato, nenhum Cristão nessa Terra que possa ter certeza de que Jesus usava barbas, muito menos que ele nasceu de uma virgem ou ressurgiu dos mortos. Essas não são o tipo de afirmações que a experiência espiritual possa autenticar.

8) Ateus acreditam que não há nada além da vida e da compreensão humanas.

Ateus são livres para admitir os limites da compreensão humana de uma maneira que nem os religiosos podem. É óbvio que nós não entendemos completamente o universo; mas é ainda mais óbvio que nem a Bíblia e nem o Corão demonstram o melhor conhecimento dele. Nós não sabemos se há vida complexa em algum outro lugar do cosmos, mas pode haver. E, se há, tais seres podem ter desenvolvido um conhecimento das leis naturais que vastamente excede o nosso. Ateus podem livremente imaginar tais possibilidades. Eles também podem admitir que se extraterrestres brilhantes existirem, o conteúdo da Bíblia e do Corão lhes será menos impressionante do que são para os humanos ateus.

Do ponto de vista ateu, as religiões do mundo banalizam completamente a real beleza e imensidão do universo. Não é preciso aceitar nada baseado em provas insuficientes para fazer tal observação.

9) Ateus ignoram o fato de que a religião é extremamente benéfica para a sociedade.

Aqueles que enfatizam os bons efeitos da religião nunca parecem perceber que tais efeitos falham em demonstrar a verdade de qualquer doutrina religiosa. É por isso que temos termos como pensamento desejoso (“wishful thinking”) e “auto-enganação”. Há uma profunda diferença entre uma ilusão consoladora e a verdade.

Em qualquer caso, os bons efeitos da religião podem ser certamente questionados. Na maioria das vezes, parece que as religiões dão péssimos motivos para se agir bem, quando temos realmente bons motivos disponíveis. Pergunte a si mesmo: o que é mais moral? Ajudar os pobres por se preocupar com seus sofrimentos, ou ajudá-los porque acha que o criador do universo quer que você o faça e o recompensará por fazê-lo ou o punirá por não fazê-lo?

10) O Ateísmo não provém uma base para a moralidade.

Se uma pessoa ainda não entendeu que a crueldade é errada, não descobrirá isso lendo a Bíblia ou o Corão – já que esses livros transbordam de celebrações da crueldade, tanto humana quanto divina. Não tiramos nossa moralidade da religião. Decidimos o que é bom em nossos bons livros recorrendo a intuições morais que são (até certo ponto) embutidas em nós e refinadas por milhares de anos de reflexão sobre as causas e possibilidades da felicidade humana.

Fizemos um progresso moral considerável ao longo dos anos, e não o fizemos lendo a Bíblia ou o Corão mais de perto. Ambos os livros toleram a prática de escravidão – e ainda assim seres humanos civilizados agora reconhecem que escravidão é abominável. Tudo que há de bom nas escrituras – como a regra de ouro – pode ser apreciado por sua sabedoria ética sem a crença de que isso nos tenha sido transmitido pelo criador do universo.