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domingo, 13 de janeiro de 2008

Vídeo: O motivo de ainda ter muito ateu no armário

A reação de minha mãe não foi tão violenta, mas foi mais ou menos parecida. O moleque foi corajoso. É engraçada a cara do pai (acho que é o pai). Ele não fala nada. Provavelmente também é ateu e está no armário. A pergunta que eu faço é: a mãe do menino acredita. Tudo bem. Nada contra. E daí se ele não acredita? Eu não estou vendo ele tentando convencê-la a não acreditar. É engraçado como os religiosos reagem com violência quando você não mostra convicção religiosa nenhuma. Bem, a Bíblia diz para matar aqueles que pedem para seguir outros deuses ou para não seguir deus algum, não é? Então talvez fosse melhor essa mãe matar seu filho.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Entrevista com Sam Harris na Revista Veja de 26/12

A RELIGIÃO FAZ MAL AO MUNDO


O FILÓSOFO SAM HARRIS, UM DOS ATEUS MAIS BARULHENTOS DOS EUA, DIZ QUE SÓ COM O FIM DA FÉ SE PODERÁ ERGUER UMA CIVILIZAÇÃO GLOBAL


Dependendo do ângulo e que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma desconcertante semelhança física com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados Unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a Uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário (discordo), mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: "A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalism, o racismo ou a política". Ele deu a seguinte entrevista:


O MOVIMENTO DOS ATEUS É FORTE NOS ESTADOS UNIDOS E NA INGLATERRA, PRINCIPALMENTE. É UMA DECORRÊNCIA DOS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001? Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 11 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocuparem com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.


POR QUÊ? A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.


O SENHOR ACHA QUE O MUNDO SERIA MELHOR SEM RELIGIÃO, SEM FÉ, SEM CRENÇA EM DEUS? Seria melhor se não houvesse mentiras. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentiras. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe na verdade não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimentar seu poder de se iludir e se enganar.


É POSSÍVEL CONCILIAR CIÊNCIA E RELIGIÃO? A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.


HAVERÁ O DIA EM QUE A HUMANIDADE DEIXARÁ DE TER FÉ OU A FÉ FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA? O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo. É claro que nossa compreensão do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem a Bíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.


MAS NEM A BÍBLIA NEM O CORÃO SE PRETENDEM UM MANUAL CIENTÍFICO PARA ENTENDER O MUNDO. Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. A Bíblia e o Corão, por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão, além de não servirem como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.


QUE TIPO DE IMPACTO SEU LIVRO PODE TER SOBRE OS LEITORES RELIGIOSOS? Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntarem por que, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma única pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristã com a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. é hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.


O BRASIL É UM PAÍS APARENTEMENTE TOLERANTE COM AS DIFERENTES RELIGIÕES E CONHECIDO PELO SINCRETISMO RELIGIOSO. NUM PAÍS ASSIM, É MAIS FÁCIL OU MAIS DIFÍCIL PARA O ATEÍSMO CRESCER? Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas a serem descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Grande Debate do Unicórnio!

Texto longo, mas muito bom. Vale a pena ler até o final. Agradeço a Elizandro Max do site GodLessLiberator pelo texto

"Dou cem dólares se alguém puder demonstrar que não existe um unicórnio imaterial nesta sala.”




Quando eu disse isso aos meus alunos num curso sobre ciência e pseudociência, eles me olharam com descrença. Suspeito que a incredulidade não seja pela óbvia impossibilidade da tarefa, mas pelo fato do professor colocar uma nota de cem sua na mesa para provar uma posição. Assim começou o Grande Debate do Unicórnio, que durou várias semanas, até que a energia intelectual dos participantes tivesse sido exaurida.

As primeiras tentativas de resolver o problema foram geradas por uma má compreensão da questão: um dos estudantes declarou que era muito simples: basta encher a sala com água, e o corpo do unicórnio deslocaria um certo volume de água, o que revelaria a presença ou demonstraria a ausência do animal (aparentemente, preocupações éticas sobre a possibilidade de afogar o unicórnio estavam fora da proposta). “Eu disse ‘imaterial’, não ‘invisível,’” lembrei. Como todos sabem, a água passa por corpos imateriais sem ser deslocada. “Oh!” As tentativas seguintes foram forjadas mais cuidadosamente.

Um esforço particularmente esperto — que claramente pegou o objetivo do exercício — foi: “Não há unicórnios imateriais nesta sala de aula, porque em nossa sala existe uma condição atmosférica, indetectável por qualquer dispositivo que temos atualmente, que faz com que unicórnios materiais se materializem, dessa forma tornando-os visíveis a olho nu”. Fala em me vencer no meu próprio jogo.Mas eu não ia deixar meus cem irem embora tão fácil. Eu respondi que a pessoa em questão obviamente não entendia os mistérios do Unicornismo, ou perceberia o quanto essa tentativa foi tola.

Uma aluna veio com uma solução filosoficamente mais desafiadora ao problema:

Fato 1: Imaterialidade é definido como ausência de matéria.
Fato 2: A matéria não pode ser criada nem destruída.
Conclusão 1: Algo imaterial não pode ser criado nem destruído.
Fato 3: O pensamento existe apenas como algo imaterial.
Fato 4: O pensamente existe apenas na própria mente.
Conclusão 2: Há algo imaterial que existe apenas na própria mente.
Conclusão 3: A presença de algo imaterial pode ser criada ou destruída apenas na própria mente.
Conclusão 4: A criação ou destruição de algo imaterial na própria mente é determinada pela crença.
Conclusão Final: Não há um unicórnio imaterial e invisível a não ser que se creia nisso dentro da própria mente.

Maldição! Queria que mais teólogos mostrassem um senso de raciocínio tão aguçado.

Ainda assim, não era bom o bastante, e pedi à turma que verificasse a prova apresentada e visse onde estavam as falhas. Em meia hora de discussão, vários problemas foram revelados.

Primeiro, a física moderna não sustenta mais que a matéria não pode ser criada nem destruída. De fato, de acordo com a mecânica quântica, esses processos acontecem o tempo todo. A razão pela qual normalmente não os detectamos é que são muito rápidos e se equilibram perfeitamente, assim não esperamos que uma cadeira subitamente apareça do nada ou desapareça. (Embora, pela teoria das supercordas, esse tipo de flutuação quântica pode ter sido responsável pela origem do Universo, que teria literalmente vido à existência de lugar nenhum. Assustador...)

Segundo, quem disse que o pensamento é imaterial? Alguns remanescentes cartesianos podem ainda pensar assim, mas no século 21 está se tornando mais aceitável considerar o pensamente como um aspecto de atividades bem físicas ocorrendo no cérebro. De fato, podemos medir quais partes do cérebro estão envolvidas em vários tipos de pensamentos e até sentimentos. Não quer dizer que tenhamos um entendimento total do que é o pensamento - longe disso. Mas as chances de que se mostre que são imateriais (no sentido de não depender da matéria) são muito reduzidas.

Mas observe que eu concordo plenamente com a conclusão: não há unicórnio imaterial a não ser que se acredite nisso na sua própria mente. Mas a única justificativa que eu (ou qualquer um, até onde eu saiba) posso dar para tal conclusão é a minha própria intuição.

A mesma aluna apresentou outro argumento, dessa vez baseado nas leis da física. Ela corretamente sustentou que um unicórnio imaterial não poderia ser afetado pelas leis da física, ou se aproveitar delas, por ser imaterial por definição. Assim, poderíamos imaginar o unicórnio como um ponto imaterial sem extensão, como um ponto euclidiano. Tal ponto imaterial não poderia "ficar" na sala porque a própria sala — junto com a Terra e o Sistema Solar — se move pelo espaço em alta velocidade. O cerne dessa demonstração depende na intuição do próprio Descartes do problema em que se meteu propondo um conceito dualístico do corpo humano: se a mente não é corpórea, como ela afeta o corpo?

Descartes “resolveu” o problema postulando que a glândula pineal era a sede da alma. Mas, como todos os filósofos depois dele perceberam, minimizar o tamanho do ponto de contato entre o material e o imaterial (a glândula pineal é a menor do sistema endócrino) não desfaz o paradoxo de uma entidade imaterial agindo sobre a matéria (ou vice versa). De fato, isso é o que torna fantasmas, ectoplasmas e experiências extracorpóreas tão difíceis de acreditar: se você está fora do corpo, como você se vê deitado na cama? Com que olhos? Que cérebro há para processar o sinal visual? E, dado que seu sentido de "si" depende de ter um cérebro funcionando, quem é você, quando você está fora do corpo?

Mas, claro, para salvar meu dinheirinho, só o que eu precisava responder era que — de novo — os mistérios do Unicornismo dizem não apenas que o unicórnio imaterial não é um ponto, mas que ele permanece na sala sem problema, é macho, tem um metro e meio de altura e é branco (como eu sei que ele é branco se ele é imaterial e invisível? Bem, a essa altura você deve saber: é um mistério do Unicornismo…).

Ao fim, meus alunos concordaram que não há maneira de demonstrar a inexistência do unicórnio fantasmal. Depois de garantir meus cem dólares, eu perguntei se apesar de tudo eles acreditavam na existência do unicórnio. A resposta foi unanimemente negativa. “Por quê?”, perguntei, fingindo surpresa. “Porque é tolice acreditar em uma coisa para a qual não há evidência,” foi a aturdida resposta geral. Alguns segundos depois, alguém perguntou: “Então qual é a diferença para a crença em Deus?” Mas a hora da aula havia terminado, e deixei-os discutindo teologia, com a satisfação de ter feito um bom trabalho.

Autor: Massimo Pigliucci, PhD em botânica, genética e filosofia.

Postado via GodLessLiberator