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sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Crença na Crença

Por Christopher Hitchens, Council for Secular Humanism

Respostado de Richarddawkins.net

Traduzido por Daniel Vasques

Agradecimento a Linda Ward Selbie pelo link.

Post original: http://www.secularhumanism.org/index.php?section=library&page=hitchens_28_1

Uma questão que me interessa muito (e sempre interessou) é essa: eu sei que eu não acredito em deus algum nem em religião alguma, e posso dar minhas razões de maneira que o outro lado possa ao menos entender, mas o mesmo pode ser dito por aqueles que alegam acreditar? Um modo mais curto de colocar isso é perguntar se nossos antagonistas desse argumento antigo realmente acham aquilo que parecem dizer.

A recente revelação de que Madre Teresa foi por quase meio século incapaz de sentir a presença de Cristo na Eucaristia ou o ouvido de Deus ouvindo suas preces é de suma importância aqui. (Veja o recente livro sobre suas cartas desesperadoras, Madre Teresa: Venha Ser Minha Luz.) Nem mesmo seus admiradores mais fervorosos consideravam essa mulher de modo algum como intelectual e ela evidentemente lutou para combater suas dúvidas de um modo altamente tradicional - ou seja, fazendo profissões de "fé" cada vez mais extravagantes e até mesmo masoquistas. Isso seria a soberba confirmação da hipótese de Daniel Dennett sobre a "crença na crença" - a estranha idéia de que, embora a fé por si só possa ser absurda e incoerente, a mera asserção disso possui algumas virtudes próprias.

Muito embora eu algumas vezes a tenha descrito como uma fraude (por sua conivência com opressores ricos dos pobres como a família Duvalier no Haiti e por outros negócios corruptos), eu agora hesitaria em colocar Madre Teresa na mesma categoria que um Falwell, um Haggard, um Sharpton ou um Robertson. Esses homens nunca fizeram um dia real de trabalho em suas vidas e são ou foram simples parasitas que se beliscam todas as manhãs em sua prosperidade vivendo a vida fácil de explorar os crédulos. Para eles, a religião não é nada mais do que um comércio ou uma armação.

O mesmo, eu acho, pode ser dito dos incontáveis clérigos condenados de estupro de crianças (por que raios nós nos permitimos o bobo eufemismo de "abuso"?). Seu crime sujo não é de hipocrisia. Nenhum padre que sinceramente acreditou mesmo que por dez segundos no julgamento divino poderia de modo concebível arriscar sua alma imortal desta forma, e aqueles na hierarquia que ajudaram a proteger tais homens da punição desse mundo são igualmente e obviamente culpados de um cinismo endurecido e obsceno.

Mas o lado trapaceiro e explorador da religião, assim como sua não menos notável tendência a gerar guerras, atrocidades e repressões, não são tudo. E aqueles que dão o melhor de si para ajudar os outros e levam uma vida decente, atribuindo essa conduta à sua crença em uma Virgem, um Profeta ou à história do Êxodo, ou qualquer outra fabricação semelhante? Eu nunca paro de imaginar, em conversas com essas pessoas, se elas realmente dizem o que pensam ou pensam no que dizem.

Para qualquer humanista, por exemplo, é perfeitamente óbvio que a cidade de Calcutá se beneficiaria de um influxo de enfermeiras, médicos, vacinadores, peritos em esgoto e outros voluntários, assim como não se beneficiaria da atenção de pessoas que vêem a pobreza e a morte como uma parcela de segunda mão no "mistério" da Crucificação. Há atualmente um bom número de ativistas do primeiro tipo (eu passei algum tempo lá uma vez observando o grande fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado fazer seu trabalho para a UNICEF documentando a campanha maciça de vacinação contro a pólio), mas por alguma razão estranha a única pessoa que qualquer um sabe nomear é uma mulher que passou sua vida inteira fazendo campanha contra o controle de natalidade - uma campanha estúpida que Bengal definitamente não fez e não precisa fazer.

Não é possível que os missionários da "fé" observem os objetos de sua caridade como mero material cru - assuntos humanos para uma experiência torturada em suas psiques? Parece que quanto mais Madre Teresa perdia a convicção nos ensinamentos de sua religião, mais energeticamente ela silenciava suas dúvidas em cruzadas ostentosas contra o divórcio, o aborto e a contracepção usando "o mais pobre dos pobres" como pano de fundo e desculpa. E isso não degrada seu trabalho como ela realmente fez? Para ela, o mendigo desamparado era apenas isso - desamparado, para ter certeza, ainda que pela razão facilmente disponível de sua própria propaganda exaustiva. O caso de dar assistência aos famigerados bengaleses é completo em seus próprios termos, mas a maior parte do dinheiro obtido para os "Missionários da Caridade" foram - como Madre Teresa alegremente admitiu - para a construção de conventos que foram consagrados, com efeito, para sua própria ambição e seu próprio extremismo exagerado em ensinar o dogma Católico. Essa pregações morreram contra a única cura certeira para a pobreza - a emancipação das mulheres do status e da condição de máquinas de reproduzir - que a raça humana já descobriu.

Em outras palavras, o ponto mais tóxico e perigoso da "fé" não é quando ela é insincera e hipócrita e corrupta, mas sim quando é genuína. Nesse ponto, sua energia de certeza e sensação de superioridade moral podem ser usados não apenas para reforçar a Igreja, mas também (como a reputação contínua de Madre Teresa demonstra) para impressionar até mesmo o secular. A evidência agora é que esta é a maneira pela qual ela e seus confissores tentaram fazer o impossível. Reprima seus receios, supere seu desespero, redobre seus esforços, e faremos de você um santo e depois alegaremos que você curou os doentes mesmo após a sua morte. É nesse ponto que o cínico dá voltas para encontrar o ingênuo e dizer com efeito que qualquer coisa é admissível desde que mantenha a ilusão viva. Mais uma vez, é preciso ficar maravilhado ante um clérigo que pode usar, como sargento recrutador, uma velha senhora desgraçada cuja própria fé, como eles bem sabiam, era apenas uma casca.



Tradução: Mais perto de meu Deus para Ti... Poor = pobres.