Repostado do Jornal Opção
Por José Maria e Silva

É o evolucionismo uma religião? Se não era passou a ser com o livro Deus, um Delírio (Companhia das Letras, 520 páginas, 36,50 a 54 reais), do biólogo inglês Richard Dawkins, um dos intelectuais mais influentes da atualidade. Publicado em 2006, The God Delusion (título original em inglês) foi saudado pelo ficcionista Ian McEwan como um livro “magnífico, lúcido e sagaz, verdadeiramente magistral” e mereceu resenhas favoráveis de grandes publicações européias e norte-americanas, provocando muita polêmica. Assim como os homossexuais militantes criaram o “orgulho gay”, instituindo uma teologia da carne, Richard Dawkins, em Deus, um Delírio, defende o “orgulho ateu”, propondo uma religião da matéria. A intenção do autor, como explica no prefácio da obra, é “conscientizar para o fato de que ser ateu é uma aspiração realista, e uma aspiração corajosa e esplêndida”, o que ele próprio chama de “orgulho ateu”.
“Não há nada de que se desculpar por ser ateu”, escreve. “Pelo contrário, é uma coisa da qual se deve ter orgulho, encarando o horizonte de cabeça erguida, já que o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável. Existem muitos que sabem, no fundo do coração, que são ateus, mas não se atrevem a admitir isso para suas famílias e, em alguns casos, nem para si mesmos. Isso acontece, em parte, porque a própria palavra ‘ateu’ freqüentemente é usada como um rótulo terrível e assustador.”
Apelidado de “rottweiler de Darwin”, numa referência ao apelido do biólogo inglês Thomas H. Huxley (1825-1895), que ficou conhecido como o “buldogue de Darwin” por defender ardorosamente o evolucionismo, Clinton Richard Dawkins, filho de pais ingleses, nasceu em Nairóbi, no Quênia, em 26 de março de 1941, onde viveu até os oito anos. Formado pela Universidade de Oxford, onde é titular da cátedra de Compreensão Pública da Ciência, notabilizou-se, nos círculos científicos, por suas pesquisas inovadoras em etologia, a ciência que estuda o comportamento dos animais. Mas começou a ficar mundialmente famoso em 1976, quando publicou o livro O Gene Egoísta, o primeiro de uma série de obras de divulgação científica, que o transformariam num dos mais populares defensores do evolucionismo, juntamente com Sthephan Jay Gould (1941-2002). Para se ter uma idéia da importância desse livro na bibliografia de divulgação científica, em 2006 foi lançada uma edição comemorativa da obra, lançada no Brasil pela Companhia das Letras no final do ano passado. As primeiras edições brasileiras do livro foram publicadas pela Editora Itatiaia, de Belo Horizonte, e ainda estão em catálogo. O Gene Egoísta foi traduzido em mais de 25 idiomas em todo o mundo e já ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. Em 2006, Dawkins criou a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência, sem fins lucrativos, e mantém o sítio RichardDawkins.net com um riquíssimo acervo multimídia sobre seu trabalho.
Em Deus, um Delírio, Richard Dawkins não se limita a combater a idéia de Deus — o que ele quer é deificar a matéria. Eis como descreve o espectro da relação homem-divindade: “Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subseqüente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O Deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num Deus sobrenatural, mas usam a palavra Deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o Deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o Deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado”.
Fora desse quadro de pessoas que declaram sua crença em algo que transcende o mundo, existem os agnósticos (como o evolucionista Thomas Huxley), que não acreditam ser possível provar nem a existência nem a inexistência de Deus. Charles Dawkins discorda até do agnosticismo. “A existência ou inexistência de Deus é um fato científico sobre o universo, passível de ser descoberto por princípio, se não na prática”, escreve. “E, mesmo que a existência de Deus jamais seja comprovada nem descartada com certeza” — acrescenta — “as evidências existentes e o raciocínio podem criar uma estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%”. Cria, então, um espectro de probabilidades acerca dos juízos humanos sobre a existência de Deus, entre dois extremos de certezas opostas: “O espectro é contínuo, mas pode ser representado por sete marcos: 1) Teísta convicto. Probabilidade de 100% de que Deus existe. Nas palavras de C. G. Jung, ‘Eu não acredito, eu sei’. 2) Probabilidade muito alta, mas que não chega aos 100%. Teísta de facto. ‘Não tenho como saber com certeza, mas acredito fortemente em Deus e levo minha vida na pressuposição de que ele está lá.´ 3) Maior que 50%, mas não muito alta. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao teísmo. ‘Tenho muitas incertezas, mas estou inclinado a acreditar em Deus.´ 4) Exatamente 50%. Agnóstico completamente imparcial. ‘A existência e a inexistência de Deus têm probabilidades exatamente iguais.´ 5) Inferior a 50%, mas não muito baixa. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao ateísmo. ‘Não sei se Deus existe, mas estou inclinado a não acreditar.´ 6) Probabilidade muito baixa, mas que não chega a zero. Ateu de facto. ‘Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo minha vida na pressuposição de que ele não está lá.´ 7) Ateu convicto. ‘Sei que Deus não existe, com a mesma convicção com que Jung sabe que ele existe’.”
Observando que “os ateus não têm fé” e que “a razão, sozinha, não tem como levar alguém à convicção plena de que alguma coisa definitivamente não existe”, Dawkins inclui a si mesmo na categoria 6, tendendo para a 7. Como feroz evolucionista, Richard Dawkins sempre negou a existência de Deus em suas obras anteriores e em artigos e debates públicos. Deus, um Delírio é apenas o coroamento de uma longa militância ateísta e, ao mesmo tempo, uma conclamação para que outras pessoas abdiquem de suas crenças religiosas ou assumam suas dúvidas de fé, mandando Deus às batatas. No prefácio à edição de bolso da obra (publicada na primeira edição brasileira da Companhia das Letras), Dawkins, valendo-se da interatividade que a Internet permite, já se encarrega, ele próprio, de replicar as resenhas que saíram a respeito da edição de capa dura de Deus, um Delírio. Baseando-se nos mais de mil comentários elogiosos enviados à Amazon, ele nota que, entre os leitores comuns, a aceitação do livro foi muito boa. A maior resistência que encontrou foi entre os intelectuais, inclusive entre cientistas, que, em sua maioria, mesmo quando são ateus, entendem que se deve respeitar a crença alheia. Richard Dawkins, ao contrário, acredita que é preciso desrespeitar todas as crenças num Deus sobrenatural, especialmente quando se trata de Javé, o Deus de Israel. Ele conta que, nas leituras públicas de Deus, um Delírio, exatamente com o objetivo de chocar a audiência, sempre começa pelo Capítulo 2, intitulado “A Hipótese de que Deus Existe”, em que faz um violento ataque à Bíblia: “O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida ético e vingativo; sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo”.
Sem dúvida, é positivo que se possa falar de Deus nesses termos sem que isso implique em ser torturado ou morrer numa fogueira, como já ocorreu em alguns momentos da história humana. O que é muito duvidoso é que a razão sozinha seja capaz de garantir essa liberdade, como acredita Richard Dawkins e outros ateístas militantes. Ao fazer um balanço dos massacres e genocídios desde a pré-história até os nossos dias, o livro A História Inumana (Instituto Piaget, Lisboa, 1992, 426 páginas), organizado por Guy Richard, revela que a bestialidade humana pode eclodir sob qualquer pretexto. Na pré-história, a crença religiosa leva aos sacrifícios rituais, mas eles não são menos cruéis do que os massacres praticados pelos Estados emergentes da Antigüidade. Segundo o historiador Jean Labesse, um dos colaboradores do livro A História Inumana, por volta de 1500 a.C., os assírios, numa guerra contra os arameus, arrancaram os olhos de 14 mil prisioneiros. Assurnasirpal III (883-859 a.C.), que estendeu o império assírio desde as margens do Tigre, a oeste, até suas nascentes do Eufrates, passando pelo Líbano, “foi de uma crueldade aterradora” e se vangloriava dela, segundo o historiador: “Mandei construir um muro frente à grande porta da cidade e nele fiz emparedar os cativos; mandei que esfolassem vivos alguns deles na minha presença e que sua pele fosse exposta sobre o muro; outros foram crucificados ou postos sobre estacas: as ameias da cidade foram coroadas com as cabeças dos vencidos e fiz com seus corpos grinaldas à volta das muralhas”. Outro rei assírio, Sargão II (722-705 a.C.) se vangloria de degolar a seus pés, como cordeiros, os combatentes vencidos dos exércitos adversários.
É exatamente nesse contexto que surge o Deus do Antigo Testamento, classificado por Richard Dawkins como um “genocida étnico e vingativo”. De fato, não apenas para os padrões do mundo contemporâneo, mas até mesmo para os civilizados padrões helênicos do tempo de Jesus Cristo, o Deus do Antigo Testamento é o rancor em pessoa, comprazendo-se no sacrifício de homens e animais. Todavia, como a antropologia vem observando há décadas, não é possível avaliar uma determinada cultura sem levar em conta o seu contexto. No caso do Javé bíblico, seu contexto era o das guerras tribais entre os povos que lutavam pela sobrevivência na antiga Palestina. Para muitos estudiosos da religião hebraica, o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo ao longo dos cinco livros da Torá (o Pentateuco cristão), que adquiriram um caráter canônico para os israelitas somente no século V a.C., quando Israel já se consolidara como Estado. O Deus de Abrão surge entre 2000 e 1800 a.C., quando esse possível chefe tribal dos habirus (os hebreus) deixa Ur, na Caldéia, e se instala com sua gente em Canaã, numa primeira onda migratória. Posteriormente, os hebreus migram para o Egito, fugindo da fome, e retornam a Canaã, numa nova onda migratória, por volta de 1200 a.C., quando começam a surgir as bases do futuro Estado de Israel.

No Antigo Testamento, quando Deus aparece a Moisés, ele se identifica como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Entretanto, o Deus de Abraão não parece o mesmo Deus de Moisés. O primeiro partilha o alimento com Abraão e abençoa pessoalmente Jacó, permitindo a suas criaturas ver-lhe o rosto. Já o Deus que aparece a Moisés no Monte Sinai é uma divindade imperial, que mantém severa distância de sua criatura e não admite ser visto, levando Moisés a encobrir o rosto por temer o olhar de Deus, segundo o relato bíblico. Essas diferenças testamentárias na descrição da divindade levaram muitos estudiosos a considerarem a hipótese de que o antigo Deus hebraico, na verdade, não era o Deus de uma antiga forma de monoteísmo, mas um dos muitos deuses do henoteísmo, termo criado pelo orientalista alemão Max Müller (1823-1900) para designar a forma de religião em que se cultua um só Deus, mas não se nega a existência de outros deuses. Sendo assim, Javé ou Jeová seria um Deus da guerra, propício ao momento histórico belicoso vivido pelas tribos de Israel que se instalavam em Canaã, em meio a tribos e impérios hostis, enquanto o pacato Deus de Abraão e Jacó estava mais próximo de El, um antigo Deus da fertilidade caldeu, que se mantinha distante dos negócios humanos.
No livro Uma História de Deus (Companhia das Letras, 1994, 460 páginas), a ex-freira inglesa Karen Armstrong, 62 anos, doutora em letras pela Universidade de Oxford e especialista em religiões abraâmicas, observa que é improvável a idéia de um Deus único no contexto social dos antigos hebreus, daí a necessidade de aliança entre Deus e o povo eleito, o que só faz sentido num cenário politeísta: “Eles não acreditavam que Javé, o Deus do Sinai, era o único Deus, mas prometeram em sua aliança que iam ignorar todas as outras divindades e adorar só a ele. É muito difícil encontrar uma só declaração monoteísta em todo o Pentateuco. Mesmo os Dez Mandamentos entregues no Monte Sinai reconhecem a existência de outros deuses: ‘Não terás outros deuses diante de mim´. A adoração de uma única divindade era um passo quase sem precedentes: o faraó egípcio Akhenaton tentara adorar o Deus Sol e ignorar as outras divindades do Egito, mas essa política foi imediatamente revertida por seu sucessor”. Segundo Karen Armstrong, os israelitas não aderiram facilmente a Javé: “Javé provara sua habilidade na guerra, mas não era um Deus da fertilidade. Quando se assentaram em Canaã, os israelitas voltaram-se instintivamente para o culto a Baal, o Senhor de Canaã, que fazia as safras crescerem desde tempos imemoriais”. Diante dessas evidências colhidas na própria Bíblia de que a origem do Deus hebraico é mais obscura do que parece à primeira vista, Karen Armstrong sustenta: “A idéia de um Deus pessoal parece cada vez mais inaceitável hoje por todos os tipos de motivos: morais, intelectuais, científicos e espirituais”.
Mas, no tempo em que Deus surgiu na história como pessoa, à imagem e semelhança do homem, isso significou um profundo avanço para a humanidade como um todo e para cada pessoa em particular. Os deuses que se identificam com a natureza ou com o próprio universo estão distantes demais dos homens para se importarem com o seu sofrimento. Por outro lado, aqueles que encarnavam na figura dos reis tendiam ao despotismo absoluto. Já o Deus dos hebreus, ao falar pela bocados profetas — alguns dos quais vivendo à margem do poder constituído — já demonstram grande preocupação com os oprimidos. No livro A Justiça Social nos Profetas (Edições Paulinas, 1990, 670 páginas), o exegeta espanhol José Luis Sicre demonstra que o Deuteronômio é “profundamente humanitário”, ordenando aos proprietários de terra: “Quando estiveres ceifando a colheita em teu campo e esqueceres um feixe, não voltes para pegá-lo: ele é do emigrante, do órfão e da viúva, para que Javé teu Deus te abençoe em todo o trabalho das tuas mãos” (Dt 24:19). O humanismo do Deuteronômio estende-se até aos escravos, revelando um Deus que nada tem a ver com aquele descrito por Richard Dawkins: “Quando um escravo fugir de seu amo e se refugiar em tua casa, não o entregues a seu amo: ele permanecerá contigo, entre os teus, no lugar que escolher, numa das tuas cidades, onde lhe pareça melhor. Não o maltrates” (Dt 23:16).
Pela boca do profeta Amós, Deus investe explicitamente contra os poderosos: “Escutai isto, vos que pisoteais os pobres e arruinais os indigentes, pensando: ‘Quando passará a lua nova para vender o trigo, e o sábado para oferecer o grão e vender inclusive o refugo do trigo?´ Reduzis a medida, aumentais o preço e usais a balança como trapaça; comprais com o dinheiro o desvalido e o pobre por um par de sandálias. Jura o Senhor pela glória de Jacó não se esquecer jamais do que fizeram”. O Deus de Amós não poupa nem o rei Jeroboão: “Ficarão desolados os lugares altos de Isaac, arruinadas as ermidas de Jacó; empunharei a espada contra a dinastia de Jeroboão”. Essa condenação dos poderosos — sacerdotes e reis — se repete no profeta Oséias (5:1): “Ouvi isto, ó sacerdotes, e escutai, ó casa de Israel, e dai ouvidos, ó casa do rei; porque contra vós se dirige este juízo”. Numa época em que Rei, Estado e Divindade tendiam a formar uma só pessoa, com poder de vida e de morte sobre os súditos, antropomorfizar Deus — como faz o Antigo Testamento — é construir o homem, algo que Richard Dawkins finge ignorar. Em que pese todas as suas fraquezas “humanas”, transformadas em bandeira de luta por Richard Dawkins, o rude Deus dos profetas já é um embrião do humanitário Deus de Jesus, inscrito no Sermão da Montanha. Esse Deus que se recusa a encarnar no corpo dos reis, como ocorre em outras culturas, e prefere fustigá-los como um superego transcendente é um protótipo do Deus que Jesus contrapõe ao Estado, democratizando a consciência individual que fora abortada com a morte de Sócrates: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Ou seja, pela primeira vez na história da humanidade — no nível do povo pobre e sem instrução — o rei é destronado de seu poder divino, tornando-se igual ao súdito diante da onipotência de Deus.
É claro que Deus pressupõe o Diabo — a religião, como a política, não frutifica sem inimigos. Mas isso não é culpa da religião em si e, sim, da estrutura de pensamento do ser humano, que só sabe pensar comparativamente. Daí, inclusive, a necessidade que o homem tem do Absoluto, porque só um ente transcendental, externo ao universo criado, pode ser o fiel da balança deste universo e do próprio homem, prescindindo do nosso precário julgamento crítico por comparações, inevitável na escala das criaturas. Sem dúvida, o conhecimento é refratário à fé. Pode até se reconciliar com ela, mas só depois de muita dúvida e angústia. É muito pouco provável que um intelectual como Joseph Ratzinger (o Papa Bento XVI) acredite piamente em Deus com a mesma ingenuidade com que um devoto de Nossa senhora Aparecida se entrega a ela, disposto a ver milagres em qualquer manifestação trivial da vida. A religião cristã — como toda religião — não obedece à lógica em que a ciência se pauta e, por isso, dificilmente satisfaz um espírito crítico. Aliás, toda doutrina, inclusive a doutrina católica, mesmo tendo sido construída por grandes pensadores através dos séculos, apresenta muitos senões, que uma mente racional tem dificuldade de aceitar. Já em 1865, o pedagogo francês Hyppolyte-Léon-Denizart Rivail (1804-1869) — que ficaria mundialmente conhecido como Alan Kardec, o codificador do espiritismo — denunciava as fragilidades doutrinárias do catolicismo, no livro O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Filho do cientificismo do século XIX, Alan Kardec procurou fazer do espiritismo um amálgama de ciência, moral e fé, sem ritos nem sacrifícios e alimentado pela leitura. Por isso, o espiritismo será sempre uma religião de poucos — a razão não comove, não arrebanha as massas.
Richard Dawkins é um crítico feroz dessa idéia de que a religião é inevitável ao menos para as grandes massas, ainda que seja dispensável para as classes letradas. No prefácio de Deus, um Delírio, ele contesta uma das objeções mais freqüentes que lhe foram feitas por intelectuais. Eles lhe diziam: “Sou ateu, mas as pessoas precisam da religião. O que você vai colocar no lugar dela? Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?”. Dawkins se indigna: “Quanta condescendência! ‘Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião.’ Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra ‘baixar o nível’. Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que ‘baixar o nível’ poderia ser necessário para ‘trazer as minorias e as mulheres para a ciência’. Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as ‘minorias’ da platéia acharam”.
Mas o povo, ao contrário do que Dawkins pensa, precisa de religião. Até os intelectuais precisam, ainda que a disfarcem sob outras formas de fé, como a literatura, a música, o cinema, a filosofia, as artes, a própria ciência. A paixão pelos livros não deixa de ser uma forma de religião, às vezes tão irracional quanto qualquer outra. Todo intelectual tende a ser um bibliômano que entesoura livros com a mesma avidez com que o Tio Patinhas coleciona moedas. Volta e meia, diante das minhas estantes abarrotadas de livros, ocupando a maior parte da casa, escuto a pergunta recorrente por parte de pessoas que não têm o hábito da leitura: “Você já leu isso tudo?” Quando respondo que não, a pessoa se cala, provavelmente pensando com seus botões: “Para que, então, acumular tanto livro?” Nos momentos de maior pessimismo, lembrando-me do Eclesiastes (“O muito estudar enfado é da carne”), tendo a concordar com essa crítica embutida na pergunta. Nas estantes, em papel, e no computador, em formato digital, tenho livros que exigiriam mais umas três vidas integrais — sem o compromisso do trabalho — para serem lidos, porque muitas obras que me interessam, dada à complexidade dos assuntos que abordam, não bastam ser lidas, precisariam ser estudadas, meditadas. Mesmo assim, quando entro numa livraria ou numa biblioteca, tenho vontade de sair levando braçadas de livros para casa e, sempre que posso, faço isso, retardando ainda mais a leitura de outros livros que estavam na fila de espera. Por isso, o intelectual moderno está condenado ao gueto das especializações, porque a produção do conhecimento, hoje, está acima da capacidade de absorção de qualquer mente. Ainda mais que o livro tem de concorrer com jornais, revistas, cinema, Internet etc.
Ninguém se guia absolutamente pela razão. Quem tentou fazê-lo foi Simão Bacamarte e o seu destino merecia ser conhecido por Dawkins, por meio da leitura da novela O Alienista, de Machado de Assis, uma das obras-primas da literatura universal. Também o conto A Igreja do Diabo, outra magistral criação machadiana, poderia ensinar a Dawkins que o ser humano não tem jeito — não há “emplastro Brás Cubas” capaz de curá-lo de sua eterna inquietação. Para Dawkins, “há algo de infantil na idéia de que outra pessoa (pais no caso de crianças, Deus no caso de adultos) tem responsabilidade de dar sentido e objetivo à sua vida”. Pode ser. Todavia, mais infantil do que isso é escrever o que Dawkins escreve: “A visão verdadeiramente adulta, pelo contrário, é a de que nós é que decidimos se nossa vida será significativa, plena e maravilhosa. E podermos fazer com ela seja plena e maravilhosa”. Uma frase digna dos televangelistas que ele, com razão, critica. A se crer em Dawkins, essa vida “plena, maravilhosa” só é possível através da ciência, matando Deus, o obstáculo. Os sociólogos do século XIX também achavam que Deus já não era capaz de fornecer respostas para um mundo impregnado de ciência e muitos deles se tornaram ateus. Paradoxalmente, o filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), que levou a sério demais seu ateísmo, acabou morrendo meio louco, como sacerdote da Igreja Positivista, que chegou a ter templos (inclusive no Brasil) e “santos”, escolhidos entre filósofos, cientistas e outros benfeitores laicos da humanidade. Já o sociólogo Emile Durkheim (1858-1917) — outro ateu que percebera a impotência de Deus na modernidade — não se iludiu quanto à eficácia da ciência para substituí-lo e no clássico As Formas Elementares da Vida Religiosa fez uma sábia defesa da religião, mostrando que, além de ser uma criação humana inevitável, ela, a religião, “longe de ignorar a sociedade real e de abstraí-la, reflete a sua imagem; ela reflete todos os seus aspectos, também os mais vulgares e os mais repelentes”. Como o nosso Machado de Assis, — talvez o único cérebro brasileiro que não se rendeu ao cientificismo do século XIX, — Durkheim também sabia que a razão é uma chama, mas só a paixão é combustível — sem ela a razão bruxuleia no próprio indíviduo e se apaga antes de brilhar na sociedade, sendo incapaz de formar a “consciência coletiva” que move o mundo e que Dawkins — meio infantilmente, creio — batizou de “meme”, a interface social do gene. Em tese, a ciência pode até ser capaz de desvendar todos os mistérios do universo, inclusive Deus, mas jamais será capaz de construí-lo. A não ser que apele para as paixões — como faz o evolucionismo de Dawkins — e deixe de ser ciência.
Até aqui o autor da reportagem parecia ir a favor de Dawkins. O restante da reportagem envereda para o politicamente correto, do tipo 'vamos mostrar também o outro lado da coisa' e perde um pouco o sentido colocá-lo aqui, embora os argumentos usados pelo autor na reportagem sejam vagos. Se alguém quiser que eu comente o restante da reportagem, peça nos comentários ou mande e-mail para mim: doutordaniel@gmail.com
O restante da reportagem pode ser lido aqui.