
Pegando Pesado
Os ateus ilustrados do nosso tempo herdaram um pouco dessa verve histórica. Se não chegam a fazer piada com as instituições divinas, eles costumam pegar pesado sempre que possível, a começar pelos títulos de seus livros, evidentes provocações. God Is not Great (Deus não É Grande), de Christopher Hitchens, um inglês bonachão de bochechas coradas como um frade e hábitos alcoólicos, é um deles, e sai agora no Brasil. Hitchens vinha fazendo algum barulho como polemista de direita, mas o que deu mais certo foi sua pancada na religião. Bater em Deus começa a se revelar um bom negócio. Difícil é não achar que um livro como o de Hitchens não está fazendo puro proselitismo para chocar o leitor médio. “Se Deus é o criador de todas as coisas, por que devemos celebrá-lo incessantemente por fazer algo que para ele é tão natural?”, escreve. Ele, no entanto, não está sozinho.
Biólogo especializado na Teoria da Evolução do pioneiro inglês Charles Darwin, Richard Dawkins tem vendido muito bem o seu Deus, um Delírio, sucesso imenso nos Estados Unidos e na Inglaterra. A idéia do livro também é chocar. Homofóbico, racista e genocida são alguns dos adjetivos que ele atribui ao personagem em questão. De acordo com Dawkins, um ser tão complexo e evoluído quanto Deus só poderia ter aparecido bem depois do homem, e não antes, porque é assim que a Teoria da Evolução costuma explicar as coisas.
Daniel Dennett, outro escritor que se agarra nas teorias evolucionistas de Darwin, defende em seu Quebrando o Encanto, outro sucesso das livrarias americanas e européias, que as pessoas devem discutir a religião de um modo mais sensato e científico.
Nova forma de religião?
Os ateístas definitivamente saíram da toca. Além de Hitchens, Dawkins e Dennett, há o francês Michel Onfray, cujo livro Tratado de Ateologia já está entre os mais vendidos no Brasil. A Editora Alameda lançou Ateísmo e Revolta, de Paulo Jonas de Lima Piva, e Ensaios sobre o Ceticismo, coleção de artigos de vários autores. E essa invasão não deve parar por aí.
“Acho que o sucesso de livros sobre ateísmo diz respeito ao uso arrogante, comercial e moralista de Deus pelos crentes de hoje”, diz o ex-padre e atual escritor e jornalista Carlos Moraes. “Mas a questão de Deus, em si, transcende os ateísmos”, acrescenta em seguida. “Dizer que Deus não existe soa tão bobo como as provas da existência de Deus fora da fé.”
O fato é que o ateísmo está em pleno florescimento nesta primavera. O que antes era algo que se dizia à boca pequena agora se eterniza nos livros. Mas seria injusto dizer que começa agora. Bertrand Russel foi um ateu militante. Em Por que não Sou Cristão, ele não só defende o ateísmo como critica os aspectos morais do cristianismo. Por conta de sua crença – ou descrença – Russel foi impedido de lecionar.
Colunista da Folha de S. Paulo, entre outros jornais, o português João Pereira Coutinho lançou uma outra questão intrigante em um de seus textos recentes, a respeito de Christopher Hitchens e seu Deus não É Grande. “Porque esse é o problema do panfleto de Hitchens: preocupado em derrubar a religião, o seu ateísmo converte-se numa nova forma de religião. Dogmática, intolerante. E, como em todos os extremismos, capaz de conceder a Deus uma importância de vida ou morte. Sobretudo a um Deus em que não se acredita.”
O ateísmo, uma nova religião? Era só o que faltava. “O ateísmo não seria apenas uma nova forma a ocupar o espaço da religião na era do fim das utopias?”, provoca o jornalista Paulo Montóia, ele mesmo um ex-devoto católico e presbítero na juventude. E acrescenta outra teoria interessante ao despertar dessa contra-fé, baseada num contra-argumento religioso: “O crescimento da procura por livros sobre ateísmo pode estar ligado ao mesmo momento e tendência que levaram ao crescimento do budismo enquanto religião”, diz ele. “Ramo que nasce do hinduísmo, o budismo é a única religião sem deus, definição da própria Enciclopédia Britânica, o que permite a seus adeptos, quase sempre mais interessados nos benefícios físicos da meditação neste mundo estressado, conviverem com pessoas de quaisquer religiões ou agnósticos.” Fato é que os budistas não adoram Buda como um Deus. E o budismo tem se transformado numa alternativa para pessoas esclarecidas que procuram se apegar a algo que as ajude a atenuar a angústia existencial básica, a de não saber de onde viemos e para onde vamos. Parece uma forma light de ser religioso. Sim, porque, dentro de certos círculos esclarecidos, nunca foi de bom tom dizer-se crente de alguma coisa que não tivesse uma cor mais à esquerda ou mais à direita (hoje, ser de direita está cada vez mais pop).
Os tempos mudaram mesmo. No início dos anos 50, o artista Flávio de Carvalho quase foi linchado por conta de uma intervenção urbana. Ele avançou na contramão de uma procissão com o chapéu enterrado na cabeça. Dizer-se ateu junto às camadas mais populares sempre foi uma espécie de ofensa, algo como mostrar um passaporte de ascendência extraterrestre. Claro que as vidas de intelectuais brasileiros ditos de esquerda também não ajudavam muito: no Brasil, tudo se mistura. Jorge Amado tinha os pés bem plantados no candomblé. Oswald de Andrade exibia um escapulário no final da vida, e o áspero João Cabral, também perto da morte, foi visto de joelhos diante da imagem de um santo. E não há problema nenhum nisso.
O fato de os ateístas estarem botando a boca no trombone em português é que impressiona. Português do Brasil, claro. “O fenômeno não chegou a Portugal com a mesma força que ao Brasil”, pondera João Pereira Coutinho. “Talvez porque Portugal (melhor: a Europa) esteja a viver uma fase de um certo relativismo cultural, que tempera e até modera fanatismos de todos os gêneros (o fundamentalismo religioso e o ateísmo religioso – sim, porque o ateísmo é uma forma de religião)”, faz questão de acrescentar. “No fundo, só existem fenômenos fideístas quando os valores que se atacam (ainda) estão no seu devido lugar.”
A religião tem levantado discussões que transcendem o ateísmo, ou foi o levantamento da pedra pousada sobre o ateísmo que possibilitou novos pontos de vista? Em artigo recente, o deputado Fernando Gabeira chama a atenção para um acontecimento que vai meio na direção contrária dos cânones marxistas, que taxam as religiões de reacionárias. Segundo Gabeira, os monges budistas de Mianmar, antiga Birmânia, ao voltarem suas tigelas de esmolas para baixo, nos protestos contra a ditadura militar do país, declararam a excomunhão do governo, um golpe terrível contra uma instituição que sempre procurou se identificar com a religião budista. “A fratura exposta entre o regime dominante e a religião onipresente na Birmânia pode ser vista como uma semente de democracia”, escreveu ele. E mais: “Os budistas só assumem a vanguarda do movimento porque não existem organizações sociais capazes de cumprir esta tarefa no momento.” Para Gabeira, eles voltarão aos conventos com a chegada da democracia.
No Brasil, nos tempos da ditadura, a Igreja também serviu de amparo aos que defendiam a democracia. Mas os dias de hoje conhecem uma Igreja Católica muito mais conservadora. No terreno das outras religiões, o dinheiro tem falado muito alto. “Quanto às principais vítimas desse Deus comercial, os pobres, aqueles que perderam todos os bondes para este mundo, não podem mesmo perder o último, que é para o céu. Uma crueldade tirar deles a fé e a esperança que lhes ordenam a vida”, diz o ex-padre Carlos Moraes. Parece que resta aos mais esclarecidos a contrapartida de ceticismo ao que este núcleo duro e fundamentalista das religiões – composto por grandes doses de conservadorismo, materialismo em forma de dízimos e fanatismo – vem oferecendo ao mundo no momento.
O filósofo e poeta Antonio Cícero também se debruçou sobre o tema recentemente. “Por que é que, ao contrário do que ocorreu nos séculos 18 e 19, é difícil lembrar algum livro desse tipo que se tenha destacado, no século 20, na Europa ou nos Estados Unidos?” Segundo ele, tirando Bertrand Russell, nenhum outro pensador importante dedicou seu tempo a espicaçar a religião. Em busca de uma resposta para a pergunta, ele recorre ao filósofo americano John Searle, para quem o mundo moderno simplesmente teria se desmistificado. Isso explicaria por que os grandes intelectuais não quiseram perder tempo com o assunto. Mas a conclusão de Cícero é um tanto alarmante: “Em 2007, é evidente que, longe de se limitarem à esfera privada, algumas religiões alimentam o sonho teocrático de privatizar o espaço público e policiar o privado”. O que nos levaria de volta à importância de discutir o assunto, bem ou mal, na forma que vêm fazendo esses autores de língua afiada, Dawkins, Hitchens, Onfray. Também existe a saída brasileira, como sempre. Num texto incluído no último CD do ministro da Cultura Gilberto Gil, Caetano Veloso mostra um caminho certeiro para acreditar por tabela: “Gil crê em Deus, e eu creio em Gil”.
Para além das piadas intelectualizadas e dos argumentos quase grosseiros dos que defendem a não-religião, há uma tomada de posição contra as atrocidades que os exageros da fé vêm cometendo ao longo dos séculos, e que recrudesceram a partir dos eventos assustadores do pós-11 de setembro. A humanidade provavelmente vai continuar discutindo a existência de Deus até o dia do Juízo Final, algo em que apenas uma parcela acredita sem a mais leve sombra de dúvida. © ,
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