terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Resposta do Jornal Pequeno à Reportagem da Revista Galileu

A Reportagem do Jornal Pequeno (evangélico) você encontra aqui.

O post sobre a reportagem da revista Galileu você encontra aqui.

Meus comentários vão no meio dessa reportagem, em vermelho.

Viver segundo a Bíblia, é possível?

Data de Publicação: 14 de janeiro de 2008
Índice Texto Anterior Próximo Texto Eudes Oliveira de Alencareudesalencar@hotmail.com

A chamada de capa diz assim: “Missão impossível? Dá para viver segundo a Bíblia hoje?” A revista Galileu inspirou-se na experiência do americano A. J. Jacobs, jornalista que viveu, por um ano, segundo os preceitos bíblicos, do Velho Testamento, diga-se. Claro, rendeu um livro que se tornou best-seller nos EUA e logo será lançado no Brasil.

A idéia não é incomum. Livros e documentários nasceram assim nos últimos tempos. Outro americano há pouco tempo atrás viveu três meses à base de comida fast food – McDonalds – o que lhe rendeu o documentário “Super size me” (algo como meu super tamanho) que obrigou a empresa a disponibilizar pratos menos calóricos além de grande debate que gerou em todo mundo.

A Galileu, antes dela a Superinteressante, revistas que vendem informação científica com certo estardalhaço (sempre preservando a informação científica, nunca vi informação falsa em nenhuma das duas revistas), fazem pelo menos metade das edições com algum assunto religioso ao logo do ano (sim, fazem edições com assunto religioso, pois são assunto em voga e revistas científicas que se prezem têm que acabar com o mito das religiões). Em cada um deles puxam para a provocação, o exagero, algo que desperte o interesse dos leitores, afinal é preciso vender (vender? ou será que é preciso falar a verdade, mesmo que ela 'pareça' sensacionalista? pois para mim não há nada de exagero em dizer que Deus não existe, que Jesus foi inventado, que o Espírito Santo é uma invenção total). Para se ter uma idéia, há dois números a Galileu trazia na capa o título: “A guerra contra Deus”. Tratava sobre a recente onda de livros de ateus que, segundo dizem, provam que Deus foi passado para trás por causa do avanço científico. Já abordamos este assunto aqui. (sim, abordaram, apelando para a fé, que, como nós, ateus, já cansamos de dizer, não prova absolutamente nada. O fato de se acreditar muito, mas muito mesmo, em algo, não faz dele verdade nem realidade nem nada parecido com isso).

Bem, a experiência da Galileu consistiu em escalar um de seus jornalistas para passar dois meses vivendo segundo a Bíblia. O resultado, eu diria, é um pastelão (claro que sim. O que vocês esperavam de alguém que viveu dois meses seguindo essas regras da Bíblia? Eu não esperava nada diferente de um pastelão. O próprio autor da reportagem quis que fosse assim). O autor da façanha, Cláudio Julio Tognolli, é ateu de carteirinha, não que isso signifique alguma coisa. (exceto que ele é inteligente e esclarecido)

Misturaram alhos com bugalhos, ou para ser simpático, fizeram perguntas infantis, coisa de alguém que nunca leu a Bíblia (sim, porque quem leu a Bíblia faz perguntas muito adultas... como no vídeo O delírio ateu que eu postei dia 14/01/2008... Realmente perguntas brilhantes)e, no entanto, adora passar a idéia de que bastam umas duas folheadas e pronto, vira especialista bíblico mostrando todas as suas “contradições”. Aliás, esta palavrinha é falada o tempo todo na reportagem. (ué, mas não tem contradição em excesso mesmo? Aposto que se não houvesse nenhuma, a reportagem não usaria essa palavra. Qual o problema em dizer isso?)

Se você tem bom humor (é preciso ter) e não acha que a experiência do Cláudio é uma afronta a Deus (a reportagem é uma afronta a Deus, mas não se preocupem... Ele não existe), recomendo a leitura, chega a ser engraçado pela literalidade com que ele interpreta o texto (se o texto não deve ser interpretado literalmente, por que Deus, todo onipotente e onisciente, não previu que os humanos ficariam confusos ao ler a Bíblia e não escreveu um livro mais claro? Ou então, se a Bíblia depende de interpretação, para que lê-la? Não é mais fácil cada um fazer o que dá na telha, porque no final é o que cada um acaba fazendo mesmo, e pronto?). Talvez deva ser um alerta para todos os cristãos. Uma palavra do “ateu” Claudio, entretanto, cabe destacar e a uso como ponto de partida de nosso texto: “Vê-se que seguir a Bíblia não é apenas mudar a casca que nos cobre: é colocar-se em xeque. Mergulhar para dentro de você mesmo, tendo como foice um ponto de interrogação, é quase que uma operação sem anestesia.” Sem se dar conta, ele mesmo achou uma bela resposta. O que é seguir as orientações morais, éticas e espirituais da Bíblia para nós hoje? Ou para usar um termo do autor da reportagem: “Afinal, dá para levar tantas determinações de Deus ao pé da letra no insano século 21?”

São duas respostas. Sim e não. Se a abordagem é a mesma da reportagem, é a de muitos cristãos – infelizmente – que privilegiam o legalismo; a barganha com Deus; que pensam agradá-Lo seguindo regras; o guardar dias e fazer rituais; comer isso, mas não aquilo; vestir tal roupa; manter cabelos e barbas. A resposta é um redondo Não. É uma carga excessivamente pesada, como exclama Brennan Manning: “Que fardo insuportável! A luta para se tornar apresentável diante de um Deus distante e perfeccionista é exaustiva.”*

Mas tão somente se tomamos Jesus (que não existiu) como modelo, se nos submetemos à Graça de Deus que nos amou primeiro; que nos dá um presente imerecido; que nos justifica; que aceita o homem mediante o sacrifício de Cristo(que não existiu - vide Zeitgeist); que não se impressiona conosco, pois é mais íntimo de nós do que nós mesmos, como disse Agostinho; então podemos dizer que Sim.

Lembremo-nos das palavras de Jesus(que não existiu): “Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11.28-30 – EP)

Na casa dos amigos Lázaro, Maria e Marta, Jesus (que não existiu) chama a atenção desta última atarefada que estava, sobrecarregada, preocupada com os afazeres domésticos: “...andas inquieta e te preocupas com muitas coisas...pouco é necessário... (Lc 10.41,42). Amor define todo o modo de seguir a Bíblia. Amar a Deus, a si mesmo e ao próximo. Toda a lei acaba aqui. Amor se recebe e amar se aprende pelo modelo do Emanuel.

Erram aqueles que acham que seguir a Bíblia é guardar leis (ah, então não é para fazer nada daquilo de honrar pai e mão, amar a Deus sobre tudo, não matar, etc. No fim, basta acreditar em Deus e pedir perdão que fica tudo perdoado). Amaldiçoar-se com uma carga enorme de coisas a serem feitas não nos tornam agradáveis perante Deus(que não existe). Diante dele, acertou Cláudio, basta a exposição nua, não é suficiente cobrir-se com uma carapaça de regras, os fariseus sabiam fazê-lo e deles já se sabe qual é a opinião de Jesus(que não existiu). Um deles bateu no peito e disse: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou avarento, nem desonesto, nem imoral como as outras pessoas.” (Lc 18.11 – NTLH).

Jesus (que não existiu) escandalizou aos religiosos porque estava sempre muito para além da letra da lei. Nenhum texto será capaz de expressar a vontade de Deus (que não existe), o ser parecido com Jesus (que não existiu), sim. Impossível? Se pensarmos em algo instantâneo, um boneco que sai de uma linha de montagem, sim. Mas se imaginamos um processo, um crescer, um desenvolver a salvação (Fp 2.12) mediante o relacionamento vivo com Jesus(que não existiu), então seguir a Bíblia é mais que possível, pois não importa a tormenta do “insano século XXI” como disse a reportagem, não importa, afinal, o que está lá fora, por mais terrível que seja. Importa se a pessoa é habitação de Deus(não habita ninguém em mim. Que história é essa?). Tem que ser perfeito para isso? Os religiosos legalistas, os incrédulos, os cínicos, dizem que sim. Mas esta perfeição tomamos de empréstimo de Jesus(que não existiu). Perfeição pega.

Relembro o Cláudio novamente. Seguir a Bíblia é colocar-se em xeque. Não submetendo-se a mil regras, já dissemos. É permitir, disse João Batista, que Ele cresça e o eu diminua. A prioridade é dEle, a primazia em tudo. Alguém só se torna verdadeiro quando seus impostores são desmascarados e ele se desnuda em sua verdadeira face. Não é o que sociedade quer, os comportamentos, a moda, o protocolo, os rapapés sociais, é o que o Senhor quer que eu seja(então acho que ele quer que eu seja ateu). E, digo, nascer de novo não é uma cirurgia sem anestesia.

* Texto do livro “O impostor que vive em mim” (pág 95)

Resposta ao comentário de Filipe Martins:

Admito, Filipe, que realmente escrevo com paixão. A paixão que é tomada por aqueles que prezam a verdade. Muitas vezes escrevo com a emoção e deixo a razão de lado, talvez porque me irrite ver a fé cega das pessoas, que muitas vezes não querem ver.
No entanto, acusar-me de ter fé cega, assim como os que crêem, é um acinte. Realmente, no final de meus comentários, insisti na coisa do "que não existe(iu)" depois de cada Jesus ou Deus do texto. Mas isso foi com o intuito de realçar que eu não acredito em nada disso. Na verdade, a meu ver, a existência ou não de Deus não deveria nem ser questionada, visto ser evidente que ele não existe. No entanto, devido à facilidade com que nossos cérebros são lavados por qualquer baboseira (ler Daniel Dennett, "Quebrando o Encanto"), assim que surgiu o Deus de hoje, derrotando todos os outros e alegando ser apenas um, essa história tomou tamanha proporção que até hoje é difícil lutar contra ela.
De qualquer modo, você disse que eu acreditei num documentariozinho qualquer. Eu assisti ao Zeitgeist, que foi um documentário muito comentado no meio cinematográfico. E não dei total crédito a ele. Logo depois, fui ler sobre o assunto e verifiquei que todas as informações dadas no documentário conferiam. Assim, a pessoa Jesus pode até ter existido, mas não o Jesus Bíblico, de poderes infinitos e milagres incontáveis. Esse só existe na imaginação das pessoas.
Agora, se você acha o meu site motivo de piada, não o leia mais. Ou leia e ria bastante, eu de fato não me importo com o que você acha a respeito. Um blog é isso. É a opinião de cada um. Não vou mudar minha opinião para agradas uns e outros.

Grande abraço...

2 comentários:

Anônimo disse...

engraçado usarem aspas em "ateu"

Filipe Martins disse...

Por vezes, você me surpreende, Daniel. Não esperava que você, que se diz inteligente, esclarecido e culto, tivesse uma visão tão limitada das coisas; você quase sempre tenta se valer de muito ou de algum criticismo contra a Bíblia, contra a teologia e até mesmo contra a espiritualidade alheia.

Sinceramente, não vejo problema algum nisso; pelo contrario, isso é muito bom! Eu mesmo sou um indagador inveterado, um aventureiro nas trajetórias do desconhecido e um grande questionador. O problema, a meu ver, está na fé cega que você possui em si mesmo, ou seja, falta de rigor crítico contra as suas próprias convicções e opiniões.

Esse é um erro gravíssimo que, embora exista em escala industrial no meio cristão, se torna ainda mais grave quando cometido por um cético. Ora, esse fechar-os-olhos par excellence – mais conhecido como fé – é a mais indecente incoerência e inversão de valores que um livre pensador pode cometer; é uma falha terrível!

É claro que isso não é problema meu, mas, eu espero e desejo, sinceramente que isso seja corrigido. Caso contrario, você não poderá ser levado a sério como ateu e o seu blog continuará sendo motivo de piada.

Não me prendendo a sua metodologia risível, eu só tenho a dizer que os seus comentários foram de uma burrice e de uma ignorância enorme.

Coloque as suas convicções à prova, questione as suas verdades e não acredite em qualquer documentariozinho.

Deus te abençoe!