sábado, 6 de dezembro de 2008

A vida é curta, mas vale a pena

A vida é curta, mas vale a pena

Repostado do Estadão.

Por: Herton Escobar

Imagine só: outro dia, uma colega no jornal me perguntou se era verdade que as borboletas vivem só 24 horas. Respondi que não sabia, mas que iria descobrir e escrever um artigo a respeito. Pois aqui está.

Fui buscar a resposta com o entomólogo Marcelo Duarte, especialista em Lepidoptera (o grupo de insetos que inclui borboletas e mariposas) do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Segundo ele, o tempo de vida varia muito entre as espécies - há 160 mil conhecidas no mundo.

Em média, pode-se dizer que as borboletas vivem de duas a quatro semanas no estágio adulto, depois que saem da pupa. Mas há, de fato, algumas espécies de mariposa (não de borboleta) cujas fêmeas adultas vivem até menos do que 24 horas. Elas saem do casulo, copulam, põem seus ovos e morrem - tudo no espaço de um único dia.

Além de ser uma curiosidade, esse fato abre caminho para uma interessante discussão filosófica sobre o sentido da vida. Nós, seres humanos, bichos dotados de cérebros ultracomplexos, cheios de emoção e que vivemos em uma estrutura social também altamente complexa. Inventamos um monte de motivos para viver que vão além de simplesmente comer e se reproduzir - como é a regra na maior parte do mundo animal. Queremos ser felizes, namorar, nos divertir, conseguir um bom emprego, ganhar dinheiro, viajar para lugares exóticos, formar uma família, comprar uma casa na praia, etc.

Mas e quanto à mariposa "Jack Bauer", cuja vida se resume a copular, dar à luz e morrer em menos de 24 horas ... o que ela ganha com isso? Qual a razão dela existir?

O mundo natural está cheio de exemplos curiosos desse tipo. Muitos insetos vivem anos, outros vivem apenas algumas horas, dias ou semanas. Na costa leste dos EUA, há uma espécie de cigarra que vive enterrada no solo, dormente, e só eclode para a superfície a cada 17 anos.

Obedecendo a uma sincronia biológica perfeita, milhões dessas cigarras "brotam" da terra ao mesmo tempo, fazendo uma algazarra tremenda, e, mesmo depois de 17 anos enterradas, não perdem tempo com besteiras: copulam, botam seus ovos e morrem alguns dias depois. Missão cumprida!

Outra curiosidade: assim como na espécie humana, a expectativa de vida varia entre os sexos. Via de regra, as fêmeas vivem mais do que os machos. O que faz sentido ... afinal, são elas que cuidam das crianaças e garantem a perpetuação da espécie. O macho é quase descartável: só serve mesmo para inseminar a fêmea. Tanto que, em muitas espécies de insetos, o macho morre espontaneamente após a cópula - ou é devorado pela fêmea, como ocorre com algumas espécies de aranha e louva-a-deus.

Entre as formigas, há até uma hierarquia demográfica, pelo que me conta o professor Beto Brandão, também do Museu de Zoologia da USP. A formiga rainha vive até uns 20 anos; as operárias, cerca de 1 ano; e os machos, coitados, morrem bem jovenzinhos, de exaustão, logo após o vôo nupcial, que consome todas as suas energias. Missão cumprida!

Mesmo entre mamíferos e aves, animais que vivem bastante e gozam de uma vida social mais estruturada, o macho raramente participa da criação dos filhos. O negócio é inseminar o maior número de fêmeas possível, e elas que se virem depois para criar e defender a prole.

Seja qual for o tempo de vida ou a espécie, a questão filosófica permanece. Qual o propósito da vida de uma minhoca? O que motiva um pepino do mar a se arrastar pelo leito marinho em busca de comida? Qual a graça na vida de uma lesma? O que o leão faz além de comer zebras, procriar e dormir?

Uma resposta estritamente evolucionista é que não há propósito. As espécies surgem e evoluem espontaneamente e aleatoriamente, com base em variações genéticas e pressões ambientais que transformam todos os seres vivos ao longo do tempo. A minhoca não sofre de crise existencial por ser uma minhoca. Ela simplesmente é.

Richard Dawkins, autor do clássico (e polêmico) "O Gene Egoísta", diria que é tudo culpa do DNA - que os organismos nada mais são do que "veículos" geneticamente programados, usados pelos genes para se propagar no tempo e no espaço. A mariposa e a cigarra vivem por um único propósito: passar seus genes adiante. Ou seja: fazer mais mariposas e mais cigarras. Missão cumprida!

Pense nisso a próxima vez que olhar para um borboleta. A vida é curta, e pode ser cruel, mas vale a pena.

Comentário: Citando Richard Dawkins, "a natureza não é cruel; ela só é inexoravelmente indiferente".

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